(A maior parte deste longo texto foi escrita antes da
publicação de “Champagne x Espumante 3”, pelo que, boa parte das opiniões, pode
parecer redundante, depois do que Bacco escreveu – Zé)
No ano passado, quando morei no Porto, aproveitei uma das
melhores coisas que a Europa pode oferecer em termos de qualidade de vida: a
oferta de comida e bebida.
Com frequência alternava minhas compras entre três
supermercados (Pingo Doce, Lidl e Mercadona), duas quitandas próximas à Praça
do Marquês, a excepcional padaria Brites, a Mercearia Local (com boa oferta de
vinhos) e a ótima Queijaria da Praça.
E isso não para não falar das pequenas grandes enotecas do
Porto, como a Cave
Bombarda, a novata TheLAB e a
multifacetada Sabores Monásticos.
Cheio de alternativas, para conseguir boa comida e boas
garrafas a preços decentes, era difícil perder peso, como eu precisava, e muito
fácil conseguir uma garrafa de espumante para beber como aperitivo ou
acompanhar uma refeição leve naqueles meses de calor.
Em uma de minhas idas ao supermercado Lidl, em julho de 2022, encontrei
uma garrafa do Champagne “Comte de Senneval” por 14 euros e a comprei.
Convenhamos: 14 euros por um Champagne, considerando os preços
médios da denominação, é um valor irrisório.
Depois de algum tempo abri o “Comte de Senneval”: bom perlage, corpo
médio, fluída, não muito complexa e os aromas não eram muito expressivos.
Lembrando da velha patacoada dos gaúchos, ao promover o
produto local como o segundo melhor espumante do mundo, concluí que, na
verdade, o segundo melhor espumante do mundo, depois do Champagne, era... o Champagne.
No caso, um Champagne barato, que podia não fazer frente aos
melhores da região, ainda era uma boa alternativa, desde que pelo preço certo e
recalibrando as expectativas.
Uma semana depois, fui a Braga visitar o amigo Leonardo, que
me recepcionou com uma garrafa do ótimo espumante “Murganheira Reserva Bruto” (preço
atual: 12,50 euros no supermercado Continente).
Naquela animada noite, de comes e bebes, no auge do verão
bracarense, o Murganheira pulverizou a memória do “Comte de Senneval”, que
ainda estava bem viva na minha cabeça.
Complexo, equilibrado, fresco, envolvente, impressionante.`
Mas como pôde o lusitano ter passado como um trator sobre o
francês?
Não é fácil apontar uma causa única.
Na etiqueta, do “Comte
de Senneval”, lê-se que foi produzida pela Maison Burtin, cuja linha oficial de Champagne,
intitulada “Hommage à Gaston Burtin”, omite qualquer referência à garrafa que bebi.
“Comte de Senneval”, então,
é o nome comercial que o supermercado Lidl dá ao Champagne produzido pela Burtin
e que, pelo preço e pela falta de divulgação na página dos produtores, sugere
que não é vinificado com as melhores uvas e melhores cuidados.
Por 14 euros eu não esperava, evidentemente, as melhores uvas
e uma linhagem semelhante à da Gosset ou da Roederer, entre outros nomes do Champagne
que já contam mais de duzentos anos – ainda que, para aqueles que creem em
pontos, a “Decanter” tenha dado 91 pontos a uma garrafa da linha do Lidl: “Comte
de Senneval” Brut Premium, Champagne, France (decanter.com)
Por outro lado, os 12,50 euros do Murganheira (e a inclusão da
cuvée que bebi na página do produtor) mostram que o espumante português tem impressionante
custo x benefício e não é renegado pela vinícola – ao contrário, é ativamente
promovido por ela.
Vira e mexe, mestre Bonzo me recorda de como alimentos e
bebidas podem “viajar mal”: longas distâncias, choques térmicos, falta de
cuidado no manuseio... tudo isso pode impactar negativamente a qualidade dos
produtos.
Considerando que a distância do Porto a Reims é de cerca de
1.800 quilômetros e a distância entre Braga e a região vinícola de
Távora-Varosa é de menos de um décimo disso (uns 150 km), pode ser.
Ademais, os clientes do Lidl podem ter deixado o “Comte de
Senneval” às moscas na prateleira por um tempo, enquanto o giro rápido do
Murganheira (muito mais disponível em Portugal) ajudou no frescor da garrafa
consumida.
Anos antes, visitando Bacco na Ligúria, paramos no Bar Sabot
para um aperitivo.
Naquela tarde nublada, o garçom do Sabot serviu-nos o
espumante Haderburg Brut, produzido no
Alto Adige.
Um bom espumante, admito, mas, pelos 24 euros que a vinícola
tirolesa pede por uma garrafa nos dias de hoje, eu pensaria três vezes antes de
engordar os cofres da Haderburg.
Preço semelhante ao que a siciliana Cusumano pede por seu 700
Brut, recentemente elogiado por Dionísio.
Somemos a isso a explosão dos pét-nats – uma tendência que tem
minha torcida para que se torne perene – e voltemos à pergunta do título desta
série: Champagne ou espumante?
Minha resposta pessoal é: depende.
Se dá para gastar 30 euros ou mais, eu dificilmente trocaria
um Champagne por um espumante de qualquer outra região (assim como Bacco já
apontou no primeiro artigo da série).
Isso, claro, na Europa: no Brasil, 30 euros não compram nem o
bom Champagne Moutard, provavelmente o melhor custo x benefício à venda no país
(comercializado a R$ 311 à época da redação deste artigo).
A zona cinzenta parece mesmo ser a faixa de 20 a 30 euros.
No início do ano, aproveitei uma promoção do supermercado
Conad, na Itália, e consegui uma garrafa do Champagne Heidsieck & Co.
por 20 euros – quando o preço sugerido por uma garrafa ronda os 28/30 euros.
Ainda seria a minha
primeira opção e, admito, isso tem uma boa dose de conveniência: havendo uma
opção oriunda de uma região consagrada, quanto você estaria disposto a arriscar
pegando uma alternativa de outros cantos?
Em tempos de “dinizismo”, é bom ter uma bola de segurança.
Só com uma recomendação muito boa, como a do Cusumano 700
Brut, eu gastaria acima de 20 euros em um espumante que não seja Champagne.
Se você chegou até aqui no texto, parabéns: como prêmio, fique
com uma singela contribuição a este debate.
Morando em Budapeste, em meio ao mar de espumantes sofríveis e
disponíveis aos montes, tive uma surpresa muito agradável com o Brut da
vinícola Hernyák: uma mistura refinada de Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Blanc
em partes iguais.
Acidez na medida
perfeita, frescor, presença no paladar: está tudo aqui.
O preço? 7.500 florins, ou 20 euros.
Assim como o Ferrari, o Cusumano 700 Brut e alguns pét-nats,
uma alternativa interessante aos Champagne.
Aí vai depender da disponibilidade,
de promoções, de suas experiências anteriores – um conjunto de fatores que se
costumava chamar, há não muito tempo, de bom senso, mas que anda meio esquecido
por aí.
Abaixo dos 20 euros, é difícil esperar milagre de Champagne –
e aí o Murganheira, os crémants e os pét-nats deitam e rolam.
Ou até alguns dos
espumantes da lista acima, numa promoção.
Com tudo isso em mente e mais as informações trazidas por
Bacco sobre terroirs (e recomendo que leiam/releiam a série “Terroir”,
publicada aqui no início de 2014), os preços das terras, os custos de produção
de uma garrafa e o ufanismo delirante dos predadores brasileiros, concluo que a
medalha de prata da disputa dos espumantes tem mais de um dono – e um deles,
dependendo do caso, pode ser o próprio Champagne.
Zé
P.S: se você reler este artigo, vai encontrar...
- Um bom espumante para experimentar na Hungria;
- Uma reiteração para que prove pét-nats (e pode até ser que
um dia apareça um brasileiro bom, olha só);
- Dicas de onde comer no Porto se o orçamento para os
restaurantes estiver curto, além de algumas enotecas da cidade;
- Um lembrete de que Champagne também entra em promoção nos
supermercados;
- Um lembrete de que ainda há acento diferencial em “pôde”;
- A conclusão pessoal de que, melhor que se prender a uma
região é ter opções, em qualquer faixa de preço, independentemente de
patriotismo ou de jogadas publicitárias.
De nada!