Facebook


Pesquisar no blog

quarta-feira, 6 de maio de 2026

BONS, RAROS, MAS NÃO CAROS 2

 



O momento mais emocionante e alegre, que Boca nos proporciona, é quando entramos no carro e finalmente a deixamos para trás

Triste, monótona e sem atrativos, Boca “sobrevive” graças ao turismo religioso e, graças, também, ao seu ótimo vinho, vinho que, todavia, pode ser adquirido em qualquer enoteca da região sem que o eno-turista perca seu tempo percorrendo a insossa aldeia piemontesa.

Os 12 Km, que separam Boca de Ghemme, podem ser comparados, por aqueles que que creem, ao caminho que do   purgatório leva ao paraíso......





Ghemme, além de produzir vinho, tão bom quanto o de Boca, abriga, em suas ruas e praças, bons bares (não deixe de conhecer e beber uma taça na “Vineria Piazza Antonelli”) e ótimos restaurantes.


Recomendo a “Trattoria al Gufo Nero” e o fascinante restaurante “La Casa Degli Artisti” localizado nas dependências do castelo medieval de Ghemme. ´



O centro histórico, da aldeia, merece uma demorada visita. 

Percorrendo as charmosas ruelas, no interior das muralhas defensivas do castelo de Ghemme, podemos admirar o medieval e belíssimo “Ricetto” (século XI).

 “RICETTO” deriva do latim “receptum” e significa refúgio



O “Ricetto” era uma estrutura fortificada, muito comum nas aldeias piemontesas, utilizada para armazenar produtos agrícolas e abrigar a população em caso de assédio.

No “ricetto”, de Ghemme, o produto mais valioso, que os moradores armazenavam nos espetaculares e antigos depósitos, era o vinho.





 Até hoje é possível visitar, degustar e comprar, o vinho local, em uma das antigas adegas da aldeia.



O “Ricetto di Ghemme” é um endereço imperdível como imperdíveis, também, são as garrafas produzidas nos vinhedos da aldeia (3.800 habitantes).

Em todo alto Piemonte a quantidade de vinho DOC e DOCG é muito limitada e Ghemme não foge à regra: A previsão, para 2026, é de pouco mais de 130 mil garrafas.

As uvas, utilizadas na produção do Ghemme DOCG, são as mesmas que encontramos em todos os vinhos da região: Nebbiolo (mais conhecido na região como “Spanna”, Vespolina e Uva Rara (Bonarda Novarese)



Nebbiolo= mínimo de 85%, um máximo de 15% de Vespolina e Uva Rara.

O Ghemme DOCG é deve ser envelhecido durante 34 meses sendo que a versão “Riserva” necessita de longos 46 meses.

Após o envelhecimento obrigatório, o Ghemme DOCG, precisa afinar, na garrafa, por mais 6 meses.



Imaginem quanto custaria um vinho nacional se submetido, realmente, aos mesmos 34 meses de envelhecimento e mais 6 de afinamento, exigidos pelo disciplinar do Ghemme DOCG........



Alguns Ghemme DOCG que recomendo: Ioppa 25 Euros, Mirù 25 Euros, Stefano Vampari 17 Euros, Lorenzo Zanetta “Santo Stefano” 15 Euros, C’A Nova “Victor” 22 Euros.



Próxima parada Sizzano, Fara Gattinara

Bocca

quinta-feira, 16 de abril de 2026

BONS, RAROS, MAS NÃO CAROS

  


No final dos anos 1980 minha confiança e respeito, pelos cursos, críticos, sommeliers, revistas, jornalistas, enólogos, etc., que gravitavam ao redor do “planeta vinho”, já atingira números próximos ao zero.

Percebera, à época, que melhores pontuações, taças, estrelas e outros ridículos símbolos, quase sempre eram concedidos ou dirigidos, às garrafas de renomados e caro$ produtores.



Vez ou outra, para doar ar de isenção e imparcialidade, a seus julgamentos, os eno-far$ante$ inseriam, em suas premiadas listas, etiquetas de pequenos e desconhecidos viticultores que já não apareciam nas publicações seguintes e rapidamente voltavam, silentes, ao limbo do mais escuro anonimato.



“ Parker adora Bordeaux, Veronelli ama Sassicaia, Robinson aprecia Riesling, mas eu gosto de Barbaresco, Chablis, Puligny-Montrachet, Chassagne-Montrachet, Brunello di Montalcino...então?

Então mandei todos às favas (naqueles anos eu era educado...) assim resolvi pesquisar e descobrir, sem consultar nenhum famoso eno-oráculo da moda, minhas preferencias vinícolas e nunca mais dei importância aos “Papa$” das caras etiquetas.



Havia, todavia, um problema: Na Côte D’Or, Langhe e Montalcino os preços subiam sem parar e os produtores, tendo perdido qualquer resquício de pudor, extorquiam, descaradamente, incautos enófilos e desavisados turistas

O Euro subia, o Real despencava.....

Era preciso esquecer, por algum tempo, as três regiões vinícolas, que durante muitos anos foram minhas metas preferidas e buscar novas e mais econômicas paisagens....



O aeroporto internacional de Malpensa, dista, do belíssimo Lago Maggiore, pouco mais de 25 Km.

Lindas aldeias, preços quase razoáveis, bons restaurantes, ótimos bares, me convenceram que seria muito melhor repousar alguns dias, pesquisar a região e suas vinhas, antes de rumar diretamente de Malpensa até La Morra, meu endereço italiano de então.



Até hoje, antes de viajar para a Ligúria, meu atual endereço peninsular, descanso alguns dias em Sesto Calende (Sesto Calende é linda, bem mais barata do que as aldeias do Lago Maggiore e ...... “zero” turistas) e aproveito para percorrer as aldeias do Alto Piemonte sempre mais atraído pelos grandes vinhos da região.

Boca, Gattinara, Sizzano, Fara, Ghemme, Caluso, Carema, Lessona, aldeias que, com sua simplicidade, cozinha e tranquilidade (turistas zero mais uma vez....) aos poucos foram me seduzindo e confesso  já sofrer crises de abstinência por falta de Barolo, Barbaresco, Brunello etc.

Algumas informações sobre a história da viticultura no Alto Piemonte.

Vinhedos já existiam, na região, desde a era romana, mas foi na idade média e especialmente, no final do século XIX que a viticultura viveu seus melhores dias.

 Naqueles anos, o Alto Piemonte, ostentava mais de 40.000 hectares de vinhedos.

A filoxera, que destruiu grande parte das plantações e a industrialização da região, depois da segunda guerra mundial, provocaram o grande êxodo dos viticultores que abandonavam a cansativo e incerto trabalho nas vinhas optando pela mais segura e menos fadigosa labuta nas fábricas.

Resultado? Dos 40.000 hectares, dos anos 1940, hoje restam pouco mais de 1.000.



Alguns números das melhores denominações, raras, mas não caras, do Alto Piemonte

Boca = 16,5 hectares

Bramaterra = 28 hectares

Carema = 13 hectares

Fara = 4,5 hectares

Gattinara = 90 hectares

Ghemme = 56,5 hectares

Lessona = 17 hectares

Sizzano = 7 hectares

Nesta 1ª viagem comentarei as 8 denominações mencionadas, mas dedicarei maior atenção aos vinhos de Bramaterra, Carema, Fara e Lessona.

BOCA

Pouco mais de 20 Km separam Sesto Calende de Boca distancia, facilmente, percorrível em 25/30 minutos.

Boca não oferece grandes atrações turísticas.



 Única exceção: o imponente “Santuario del Santissimo Crocifisso”, cercado por bosques e vinhas, que atrai milhares de religiosos.

Recomendo o ótimo restaurante “Ori Pari”



Vinho Boca: Com a chegada na região, no final dos anos 1990, do suíço e importador de vinhos, Christoph Kunzli, que adquiriu a propriedade “Le Piane”, do velho viticultor Antonio Cerri, o vinho Boca renasceu das cinzas e voltou a frequentar as taças da região.

Kunzli, todavia, foi picado pelo inseto “Gaja-Conterno” cuja mordida provoca irresistível desejo de inflacionar o preço das garrafas.

Esqueçam o “Boca Le Piane” (60 Euros) do predador suíço e procurem o “Boca Davide Carlone” de 25/28 Euros.



O vinho Boca é vinificado com Nebbiolo70%/90% + 10%/30% de Vespolina e Bonarda Novarese .

Continua....

Bocca

quarta-feira, 1 de abril de 2026

A VIAGEM

 



Confesso mal poder disfarçar o irônico sorriso e muita alegria, ao assistir a lenta, mas inexorável decadência do “eno-mania” do vinho ostentação, elitista, snob, litúrgico que, em sua queda leva consigo (ainda bem) as figuras, quase sempre, chatas, pretensiosas, pedantes, dos sommeliers e enólogos.



Chegou, enfim, a hora de voltar a beber em paz, tranquilamente, sem as ridículas pantominas e pedantismos dos “experts”, que nos seduziriam e escravizaram nas últimas décadas.

Adeus, Barolo Monfortino Riserva (1.300 Euros), Masseto (1.250 Euros), Amarone Quintarelli (1.200 Euros), Brunello Soldera Case Basse (900 Euros) ......



Benvindos, Schiava (9 Euros), Piedirosso (9 Euros), Cerasuolo D’Abruzzo (10 Euros), Bonarda dell’ Oltrepò Pavese (9 Euros), Bardolino (8 Euros), Carema (15 Euros) Gamba di Pernice (12 Euros) .



Foi dada a partida para o caminho de volta aos vinhos que fizeram e farão, a felicidade de nossas taças e nossas carteiras.

Estou meditando e bem propenso, a escrever duas ou três matérias sobre vinhos bons, baratos, pouco conhecidos e dar algumas dicas das aldeias e pontos turísticos próximos aos territórios onde são produzidos.



Os vinhos mencionados serão sempre interessantes, alguns raros, mas nunca caros e os pontos turísticos, indicados, podem ser interessantes opções para os turistas que já não aguentam as multidões que superlotam ruas, praças, museus, bares, restaurantes de Paris, Lisboa, Barcelona, Veneza, Roma, Londres, etc.



Aliás, Roma, deveria trocar o nome da famosa “Fontana di Trevi” para algo mais real, mais apropriado, mais atual: “Fontana das Trevas”.

A multidão de turistas, que aos empurrões e cotoveladas, busca conseguir o melhor ângulo para inúteis e ridículos selfies, impede uma tranquila e completa visita à histórica fonte romana  

A decisão está quase tomada!



 A “viagem” iniciaria no território dos vinhos do Alto Piemonte e terminaria....sei lá, quando e onde

Faltam apenas alguns comentários favoráveis para eu ligar o saca-rolhas e buscar garrafas que a quase jornalista Marianne “Maranhão” Piemonte, sem a ajuda do Google, jamais imaginou que  existissem, nunca viu e muito menos, bebeu.

Exemplos?



Sizzano ‘Il Chiosso”, Erbaluce “Costa di Sera dei Tabacchei”, Bramaterra “Cascina Cottignano”, “Carema" Cantina Produttori di Carema.

Aqui vai uma pequena amostra da primeira “eno-viagem”: Sesto Calende, Arona, Orta San Giulio, Gattinara, Ghemme, Carema.....

Bacco

segunda-feira, 23 de março de 2026

LADEIRA ABAIXO 2

 


Nas últimas décadas os produtores, dos mais importantes países vinícolas, nadaram em um mar de rosas, ganharam dinheiro, notoriedade e fama hollywoodianas.

Nem todos, sei disso, mas uma parcela significativa de viticultores nunca imaginou que em tão curto espaço de tempo sairia das vampirescas penumbras das adegas para o brilho dos holofotes nos badalados eventos espalhados pelos 4 continentes.



O valor de suas terras, em muitos casos, atingiu a estratosfera, os vinhos acompanharam a valorização; parecia que o paraíso vinícola criara raízes na Borgonha, Piemonte, Toscana, Bordeaux etc.

Exemplo 1: Nos anos 1970 1 hectare de vinhedo/Barolo valia 10/20 milhões de Liras (+ ou – 5.000/10.000 Euros)

Hoje os mesmíssimos hectares podem superar facilmente os 2 milhões de Euro

Exemplo 2: Em 1970 uma garrafa de Brunello di Montalcino, de boas vinícolas, custava 2.500/5.000 Liras (+ ou – 1,25/2,5 Euros)

Um trabalhador ganhava, em média, naqueles anos 1970, 300.000 Liras,

Nosso amigo Giovanni, com seu salário, poderia, então, comprar e encher a cara com 87 garrafas de Brunello.



Giuseppe, filho de Giovanni, em 2026, leva para casa 1.200 Euros mensais com os quais pode comprar “apenas” 30 garrafas de famoso vinho toscano.

A exagerada elevação dos preços foi uma das principais causas que contribuíram pela diminuição do consumo e consequente crise do setor.

Os produtores, de alguns vinhos mais badalados e mais caros e que durante décadas encheram as burras de dinheiro, começam a perceber que o mar de rosas já não está tão rosado e choram ao constatar que 75 milhões de garrafas de Barolo e 22 milhões de garrafas de Barbaresco, mofam, nas adegas piemontesas, à espera de cada vez mais raros compradores.



A crise atinge todos os grandes produtores mundiais que precisarão, urgentemente, se adaptar às novas exigências e preferências dos consumidores (especialmente os mais jovens) que já não dá a mínima para vinhos badalados, caros, parkerianos, todos iguais, muito alcoólicos etc. que dominaram os mercados até agora.

Ou mudam o rumo ou ...... viva a cerveja, gin-tônica, spritz, vinhos com 5º/9º de álcool ou, pasmem, analcooólicos.

Alguns dados reveladores: Na Itália, em 2025, o consumo per-capita de cerveja já alcançou o do vinho se aproximado dos 38 litros/ano

Na França o panorama é quase igual: Vinho 33 litros/ano, cerveja 28 litros/ano.



O pior pesadelo atinge os produtores de vinhos tintos muito encorpados, alcoólicos, quase mastigáveis, que perdem, velozmente, terreno para os brancos, rosados, espumantes mais baratos (Prosecco campeão que não conhece crise...) e tintos, frescos, leves que representem o território e não Parker, Michel Rolland-Lero, Barolo Boys e Cia.

É a volta triunfante do Lambrusco e da redescoberta do Verduno Pelaverga, Frappato, Schiava, Freisa, Gamay, Bardolino, Valpolicella, Pinot Noir etc.



Grande atenção deverá ser prestada aos vinhos portugueses (insuperáveis lideres nos quesitos qualidade-preço e identidade territorial), aos crémant franceses, sekt alemães etc. etc. etc.



O setor vinícola cometeu uma interminável série de erros estratégicos, técnicos e comerciais apostando em perpetuar uma linguagem complexa, elitista (quase um idioleto linguístico) criando tolas barreiras ao ingresso das novas gerações que encontraram, na cerveja, coquetéis e outras bebidas, respostas mais simples, fáceis e....mais baratas.



Eu, que há anos abandonei Parker, seus filhotes e seus vinhos, vejo, com grande satisfação, que estava certo.



Viva o Lambrusco!

Bacco