Nas últimas décadas os produtores, dos mais importantes países
vinícolas, nadaram em um mar de rosas, ganharam dinheiro, notoriedade e fama hollywoodianas.
Nem todos, sei disso, mas uma parcela significativa de
viticultores nunca imaginou que em tão curto espaço de tempo sairia das
vampirescas penumbras das adegas para o brilho dos holofotes nos badalados
eventos espalhados pelos 4 continentes.
O valor de suas terras, em muitos casos, atingiu a
estratosfera, os vinhos acompanharam a valorização; parecia que o paraíso
vinícola criara raízes na Borgonha, Piemonte, Toscana, Bordeaux etc.
Exemplo 1: Nos anos 1970 1 hectare de vinhedo/Barolo valia
10/20 milhões de Liras (+ ou – 5.000/10.000 Euros)
Hoje os mesmíssimos hectares podem superar facilmente os 2
milhões de Euro
Exemplo 2: Em 1970 uma garrafa de Brunello di Montalcino, de
boas vinícolas, custava 2.500/5.000 Liras (+ ou – 1,25/2,5 Euros)
Um trabalhador ganhava, em média, naqueles anos 1970, 300.000
Liras,
Nosso amigo Giovanni, com seu salário, poderia, então, comprar
e encher a cara com 87 garrafas de Brunello.
Giuseppe, filho de Giovanni, em 2026, leva para casa 1.200
Euros mensais com os quais pode comprar “apenas” 30 garrafas de famoso vinho
toscano.
A exagerada elevação dos preços foi uma das principais causas
que contribuíram pela diminuição do consumo e consequente crise do setor.
Os produtores, de alguns vinhos mais badalados e mais caros e
que durante décadas encheram as burras de dinheiro, começam a perceber que o
mar de rosas já não está tão rosado e choram ao constatar que 75 milhões de
garrafas de Barolo e 22 milhões de garrafas de Barbaresco, mofam,
nas adegas piemontesas, à espera de cada vez mais raros compradores.
A crise atinge todos os grandes produtores mundiais que precisarão,
urgentemente, se adaptar aos novos gostos e exigências dos consumidores (especialmente
os mais jovens) que já não dá a mínima para vinhos badalados, caros,
parkerianos, todos iguais, muito alcoólicos etc. que dominaram os mercados até agora.
Ou mudam o rumo ou ...... viva a cerveja, gin-tônica, spritz, vinhos
com 5º/9º de álcool ou, pasmem, analcooólicos.
Alguns dados reveladores: Na Itália, em 2025, o consumo per-capita de cerveja já alcançou
o do vinho se aproximado dos 38 litros/ano
Na França o panorama é quase igual: Vinho 33 litros/ano, cerveja 28 litros/ano.
O pior pesadelo atinge os produtores de vinhos tintos muito
encorpados, alcoólicos, quase mastigáveis, que perdem, velozmente, terreno para
os brancos, rosados, espumantes mais baratos (Prosecco campeão que não conhece
crise...) e tintos, frescos, leves que representem o território e não Parker,
Michel Rolland-Lero, Barolo Boys e Cia.
É a volta triunfante do Lambrusco e da redescoberta do Verduno Pelaverga, Frappato, Schiava, Freisa, Gamay, Bardolino,
Valpolicella, Pinot Noir etc.
Grande atenção deverá ser prestada aos vinhos portugueses (insuperáveis lideres nos quesitos qualidade-preço e identidade
territorial), aos crémant franceses, sekt alemães etc. etc. etc.
O setor vinícola cometeu uma interminável série de erros estratégicos,
técnicos e comerciais apostando em perpetuar uma linguagem complexa, elitista
(quase um idioleto linguístico) criando tolas barreiras ao ingresso das novas gerações
que encontraram, na cerveja, coquetéis e outras bebidas, respostas, mais simples,
fáceis e....mais baratas.
Eu, que há anos abandonei Parker, seus filhotes e seus vinhos,
vejo, com grande satisfação, que estava certo.
Viva o Lambrusco!
Bacco
