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segunda-feira, 1 de maio de 2023

BOLGHERI 2

 


Você já se perguntou há quantos séculos o vinho está presente na Itália?

Não?

Acreditava-se, que uma prensa, com seus respeitáveis 3.000 anos, encontrada na Sardenha, mais especificamente na cidade de Monastir e na qual foram detectados resíduos orgânicos de ácido tartárico, fosse a prova mais antiga da presença do vinho na península.



Recentemente, após a descoberta de uma pequena ânfora, da idade do cobre, em uma gruta do Monte Kronio, na província de Agrigento, tudo mudou: Minuciosos estudos detectaram resíduos de ácido tartáricos que indicavam a presença de vinho, na ânfora, já há 6.000 anos.

O vinho mais antigo da Itália, então, foi produzido na Sicília.

É fácil deduzir que os italianos, há milênios, sabem quais e onde se localizam as melhores e mais apropriadas terras para produzir esta ou aquela uva.



Depois de séculos de experiências e observações, os italianos, perceberam que a uva Nebbiolo encontrara seu melhor habitat nas Langhe, a Carricante, a Nerello Cappuccio, a Nerello Mascalese, nas encostas do vulcão Etna, Sangiovese Grosso em Montalcino, Verdicchio em Jesi, Coda di Volpe na Irpinia, Schioppettino em Prepotto e...por aí vai.

Todos os viticultores sabem, por exemplo, que plantar vinhas em terrenos muito úmidos e muito férteis, é uma tremenda bobagem.



 Quando os vinhedos abundam nas encostas, mas desaparecem totalmente nas planícies, é claro sinal que na baixada há demasiada umidade, fertilidade e o terreno não é o mais apropriado para a viticultura.

O que esta conversa tem a ver com Bolgheri?

 Muito!

A “Bolgheri Vinícola” nunca existiu e não há notícia dela desde os tempos mais remotos.

A “Bolgheri-Vinícola” nasce, no ano 1930, quando o marquês Mario Incisa della Rocchetta se casa com a condessa Clarice della Gherardesca e o marquês Niccolò Antinori leva ao altar Carlotta della Gherardesca, irmã de Clarice.



Mario e Niccolò dividiram o dote das duas irmãs.

O dote?

A maior propriedade de Bolgheri (nobre unido, jamais será vencido…).

Terras de pouco valor, pantanosas, em que se produzia pouquíssimo vinho e, como se não bastasse, de péssima qualidade.

Não quero alongar uma história que já escrevi outras vezes, mas gostaria de recordar que, somente em 1945, milhares de anos depois dos etruscos, romanos e toscanos terem explorado toda a região, sem nunca terem conseguido produzir uma garrafa de boa qualidade, Incisa della Rocchetta, resolveu erradicar todas as vinhas de Sangiovese, que doavam “vino che fa cagare” (vinho de merda) e plantar castas francesas.



A Sangiovese, casta espetacular, mas complicada, de lenta maturação, que exige solos semiáridos, foi substituída pelas francesas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc etc.

Mesmo as castas francesas, que se adaptam em qualquer lugar, até nos cupinzeiros de Cocalzinho, não conseguiram revelar nada decente.

Resultado: até o final dos anos 1960 os vinhos do marquês torturavam apenas os paladares da família e dos amigos da família.



A grande jogada ocorreu quando, no ocaso dos anos 1960, Piero Antinori, filho de Niccolò Antinori e sobrinho de Mario Incisa della Rocchetta, sugeriu, ao tio Mario, a contratação do jovem enólogo, Giacomo Tachis, para, assim, tentar melhorar a qualidade de seus vinhos.



Giacomo Tachis, que à época já comandava os toneis dos Antinori, assumiu o posto, sumiu nas entranhas da adega dos Incisa della Rocchetta e, depois de inúmeras alquimias, em 1972, deu à luz ao primeiro “Sassicaia”.

Em 1974, Mario Incisa della Rocchetta, convenceu a caneta de seu amigo, Luigi Veronelli, na época o Parker italiano, a elogiar, sem trégua, nem pudor, o “Sassicaia”.



Veronelli, que naqueles anos era considerado uma sumidade ímpar, no mundo da eno-gastronomia italiana, em pouco tempo transformou o “Sassicaia” em um dos mais aclamados e desejados Cabernet Sauvignon do planeta.

A consagração final aconteceu, em 1985, quando Robert Parker, que deve ter recebido uma boa bolada, concedeu 100 ponto$ ao “Sassicaia”.

Era a primeira vez que Robert Parker concedia 100 ponto$ a um vinho italiano.



Começava, então, a invasão dos predadores na pequena e bucólica Bolgheri que em poucos anos se transformou na nova “Eldorado” vinícola italiana.

Em poucos anos, o território da Maremma toscana, que nunca produzira nada além de pernilongos e malária, viu todos os nobres da região: Ricasoli, Frescobaldi, Mazzei, Incisa della Rocchetta, Antinori etc. desembarcarem em suas terras e implantar vinhas e mais vinhas de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Syrah, Chardonnay etc.

O sucesso vinícola, dos “nobres toscanos”, atraiu os espertalhões de sempre e em pouco tempo os “Supertuscans” se transformaram nas garrafas italianas de maior sucesso….e preço.

Os eno-tontos, de plantão e de costume, não se assustavam e pagavam, prazerosamente, 300 Euros por um “Ornellaia Bianco”, 250 por um “Ornellaia Superiore DOC”, 350 por uma garrafa de “Solaia”, 450 por um “Matarocchio”, 350 por um ‘Sassicaia”, 1.200 por um “Masseto” “...e se mais Supertuscans houvera, lá chegara”.



Efetivamente chegaram dúzias a mais dúzias de “Supertuscans”, mas nenhum deles conseguiu, nem os do grande predador, Gaja, o mesmo sucesso alcançado pelos vinhos dos nobres toscanos.

A moda e o gosto são volúveis....

No começo dos anos 2000 o vinho parkeriano já não fazia tanto sucesso, os “Supertuscans, salvo raras exceções, mofavam nas prateleiras das enotecas e os consumidores voltavam suas atenções para os vinhos com “sabor” de território, cultura e tradição regional.

Os enófilos, depois da “traição” dos “Supertuscans”, retornavam às garrafas de Barolo, Barbaresco, Barbera, Brunello, Chianti, Taurasi, Nobile di Montepulciano, Amarone etc. e começavam a descobrir os vinhos  do Etna….

Os vinhos de Bolgheri, sempre mais e apenas, eram apreciados pelos chineses, americanos, russos, japoneses e.... brasileiros adoradores de etiquetas caras.



Bolgheri é, hoje, a Norma Desmond do “Crepúsculo dos Deuses” de Billy Wilder....

A única beleza original, que restou, da antiga e charmosa Bolgheri, continua sendo a magnifica avenida que, com seus milhares e seculares ciprestes, nos acompanha até a entrada da aldeia.



Ao passar pela porta, do castelo medieval, entramos na 25 de Março....

 Apenas duas ruas, três pequenas praças e algumas estreitas ruelas, recebem o turista que, estupefato, é quase sufocado por dezenas de bares e restaurantes de 3ª categoria, dúzias de enotecas, incontáveis lojinhas de souvenires que vendem até sabão e perfumes “Bolgheri” “Made in China”.



Bolgheri se transformou em uma Portofino piorada.

Piorada por quê?

Em Portofino, onde e pelo menos, ainda vivem 450 pessoas, é possível comprar tomate, pasta dental, absorvente, café ….

Em Bolgheri, dizem, “sobrevivem” ainda 33 moradores, mas eu não acredito: Todas as casas e apartamentos foram transformados em pequenos hotéis, B&B e Airbnb.



Quem fizer uso de Xenical deve tomar algumas precauções …em Bolgheri é impossível comprar até um simples rolo de papel higiênico. 



Para ilustrar a decadência, que imbecilidade humana impôs a Bolgheri, bastaria relatar o seguinte: Nos bares e restaurantes, que frequentei, não havia um italiano sequer.

Bolgheri, de hoje, visa apenas o turismo insano, predatório e especializado em eno-tontos....a Disneylândia dos vinhos.



Até a bela e charmosa “Bottega di Elena”, que me havia seduzido na primeira visita, hoje mais parece um boteco de subúrbio.

Não há nada de bom em Bolgheri, então?




Sim, há .... Campiglia Marittima (30 km)

Bacco.