“NA CONTRAMÃO”, a mais recente matéria de
Dionísio, me estimulou a escrever algo sobre a impressionante e irrefreável
crise que atinge o mundo vinícola
Vivi parte de minha infância cercado por garrafas de vinho, na
juventude apendi a conhece-lo e apreciá-lo, na maturidade resolvi aprofundar,
minha “eno-cultura”, percorrendo, inúmeras vezes, todas as regiões vinícolas
mais importantes da França e Itália, assim, creio poder afirmar, com segurança,
que durante 50 anos fui espectador, atento e privilegiado, da impressionante
ascensão e sucesso alcançados pelo vinho em todos os cantos do planeta.
Non recordo outra bebida alcoólica ter sido mais valorizada,
badalada, glamourizada e quase divinizada como foi, nas últimas décadas, o
vinho.
Exagero?
Bastaria lembrar quantos críticos, sommeliers, revistas, já classificaram,
sem o mínimo pudor, “obra de arte” uma simples garrafa de vinho.
Até o início dos anos 1970 as garrafas etiquetadas muito
raramente frequentavam mesas de bares e restaurantes e os produtores vendiam
quase a totalidade da produção em garrafões de 5-10-20 e até de 54 litros.
O vinho era o companheiro alegre e fiel nos almoços, jantares,
nas conversas nos bares, com amigos, promotor de risadas, descontração, mas nunca
protagonista ou objeto de quase liturgia.
Vinho, era vinho e somente vinho!
No início dos anos 1980, com o surgimento da crítica
especializada, o vinho inicia sua caminhada para se transformar em “Status Simbol”,
um vetor cultural, deixa de ser apenas uma bebida para se transformar em
refinado estilo de vida.
Surgem incontáveis cursos de sommeliers que “ensinam” como degustar
e encontrar, na taça, aromas de terra molhada, tabaco, flores vermelhas, flores
brancas, especiarias, verniz, brioche, café, couro etc., sabores de mirtilos,
framboesas, amoras, cerejas, frutas maduras, melão, maça verde, pêssego......
Eram dias em que se alguém não “descobrisse” complexidade,
frescor, taninos, mineralidade, salinidade, acidez, longo final, untuosidade
etc., em uma simples taça de vinho, era considerado “eno-pária”.
Nenhum exagero parecia absurdo, fantasioso, irreal e os
sommeliers, críticos, jornalistas, enólogos etc., com a maior cara de pau,
poderiam perceber, na taça, até aroma de unha encravada sem serem ridiculizados,
desacreditados
Exagero?
Releiam algumas matérias
https://baccoebocca-us.blogspot.com/search?q=manoel+beato
https://baccoebocca-us.blogspot.com/2013/12/cuidado-com-o-salame-do-gladston.html#comment-form
https://baccoebocca-us.blogspot.com/2017/07/o-irmao-do-beato-salu.html
Em 1987 o mundo da moda (LVMH) aporta nas vinhas e os enófilos começam a entrar pelo cano......
Era dada a partida para era do vinho ostentação: O vinho
abandonava o popular e tosco copo de vidro para repousar, definitivamente, nas
titilantes taças de cristal, se possível, Zalto.
A corrida para o estrelato já foi abordada diversas vezes em
B&B e não é preciso comentar mais uma vez, mas acredito que os produtores
já perceberam (tardiamente...) terem esticado demasiadamente a corda.
É chegada a hora de
abandonar, esquecer, os Parker’s Boys, as taças Zalto, vinhos ostentação, vinhos
“obra de arte” e todas as bobagens que elevaram, a popular bebida, a um
pedestal dourado.
É preciso voltar à terra,
repensar o vinho e tentar “conversar” com as novas gerações.
O comentário “anônimo”, que abaixo transcrevo, acerta na mosca
e antecipa a segunda parte da matéria
Anônimo8 de março de 2026 às 16:37
Quanto à matéria,
sempre atual, genial de Dionísio, tento no comentário manter-me ao tema. Álcool
será endemoniado em breve ( ou já está sendo?), meus filhos tem uma relação com
álcool bem diferente da que tive quando mais novo. O consumo despencou, terão que
fazer vinhos realmente bons, acessíveis e tranquilos, senão.. cemitério de
produção. Muitas novas vinícolas brasileiras “ já premiadas” vão voltar ao
pasto de braquiária com seus respectivos cupinzais
Bacco

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