Há vários anos percebo claros sinais de que o vinho avança,
irracionalmente, para uma longa e severa crise: é um jogo de cartas marcadas e
sem um final feliz.
Minha percepção foi crescendo na exata medida em que o
segmento, mais e mais, apostava no “Vinho Moda”, “Vinho Status”
As garrafas deixavam de frequentar as mesas das famílias, das
“trattorie” e dos botecos plebeus, para triunfarem nos brilhantes e cristalinas
taças dos restaurares e bares estrelados.
Que algo estava errado e que a conta um dia chegaria, já
sabia, mas os números, revelados por Bacco, em suas últimas matérias, me
surpreenderam: O vinho está, realmente, correndo ladeira abaixo e.....sai de
baixo!
Devo, todavia, confessar que, para mim, pouco ou quase nada
vai mudar, pois há muitos anos deixei de acreditar que etiquetas badaladas e
altos preços fossem sinônimos de insuperável qualidade.
Nenhum vinho deveria custar mais do que 50 Euros.
Antes que os eno-patriotas e eno-palermas, fãs incondicionais
de etiquetas famosas, enviem comentários, raivosos e ofensivos, contra minha
ascendente feminina, informo que no final dos anos 1970 uma garrafa de “Barolo Riserva Monfortino”, da premiada
vinícola, Giacomo
Conterno, custava 5.000 Liras que correspondem, aproximadamente, a 3 Euros nos dias atuais
Informo, ainda, que o mesmíssimo “Barolo Monfortino Riserva”, continua sendo vinificado com uvas colhidas nas colinas de Serralunga D’Alba, na mesmíssima vinha “Cantina Francia”, engarrafado na mesmíssima adega da mesmíssima família Conterno, mas hoje custa 900/1.200 Euros.
Monfortino Riserva Giacomo Conterno 2015
Taí, uma das razões que afastaram as garrafas das mesas das
famílias, dos bares e dos restaurantes em todos os cantos do mundo: O vinho se
transformou em artigo de luxo e luxo, mesmo falsificado, é caro....
Depois de anos e anos percorrendo a trilha do insano e irreal “eno-patetismo-vinícola”,
finalmente, me libertei dos sommeliers, enólogos, influenciadores, críticos,
modismos, tudo e todos que contribuíram para a mitificação do vinho, assim, hoje,
minhas garrafas mais caras muito raramente ultrapassam os 50 Euros.
Adeus às inúteis, dispensáveis e caríssimas garrafas de “vinho-modismo”....
Bem-vindos, finalmente e ainda bem, “vinhos-pobres”: Grignolino, Schiava,
Pelaverga, Coda di Volpe, Albarossa, Incrocio Manzoni, Bardolino, Lambrusco, Soave, Freisa etc. etc. etc.
“E por falar em saudade onde anda você…Freisa di Chieri? ”
Serpenteando pelas gôndolas, de um supermercado, à procura de
algumas garrafas para reabastecer minha “maranhense” adega, meus olhos encontraram,
quase escondidas, entre outras etiquetas mais importantes, “ampolas” de “Feisa di Chieri Frizzante” por 8,70 Euros”.
Pensei: “Freisa di Chieri, há quanto tempo a gente não se
vê.....”
Sem titubear e com um pueril sentimento de alegria, agarrei
três garrafas e as coloquei no carrinho.
Com o intenso calor, que há semanas castiga o continente
europeu e quase derrete o asfalto das ruas, somente “sommeliers
de bicicleta” ou outros palermas do mesmo naipe (há inúmeros...)
beberiam um vinho tinto muito alcoólico e mastigável.
Um bom branco, um belo espumante, ou um tinto leve, após
rápida passagem pelo refrigerador, refrescam e alegram até os mais “fervente”
coração.
Chieri, pequena, cidade distante apenas 20 km da
belíssima Torino, é uma válida opção para o turista que já não aguenta as
multidões que, parecendo hunos, invadem as mais badaladas cidades turísticas da
Europa.
O belo centro medieval, a majestosa catedral, o gueto hebraico
e o museu da indústria têxtil, são atrativos que a cidade oferece e merecem ser
visitados.
Para os enófilos, todavia, nada é mais a “atraente” do que um
ótimo vinho produzido na região: “Freisa di
Chieri”.
As vinhas de Freisa aparecem nas colinas de Chieri desde a era
romana, mas somente na idade média (1517) o vinho é devidamente reconhecido e
documentado.
Hoje a área cultivada é de aproximadamente 90 hectares e 9
produtores engarrafam três tipologias de Freisa: Seco, Frisante e Espumante.
Minha preferida, desde sempre é a versão frisante.
A bela cor rubi, a espuma fina, quase alegre, os perfumes delicados,
o paladar harmônico e elegante, do “Freisa Di Chieri
2024”, da vinícola Balbiano, doam ao enófilo, que quer fugir das mesmices dos
“vinhos moda”, uma agradável e alegre companhia para os aperitivos nos finais de
tarde, mesmo nos dias de intenso calor.
Um belíssimo vinho por menos de 10 Euros que recomendo com
prazer e entusiasmo
Dionísio



