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sábado, 8 de agosto de 2026

FREISA DI CHIERI

 


Há vários anos percebo claros sinais de que o vinho avança, irracionalmente, para uma longa e severa crise: é um jogo de cartas marcadas e sem um final feliz.

Minha percepção foi crescendo na exata medida em que o segmento, mais e mais, apostava no “Vinho Moda”, “Vinho Status”

As garrafas deixavam de frequentar as mesas das famílias, das “trattorie” e dos botecos plebeus, para triunfarem nos brilhantes e cristalinas taças dos restaurares e bares estrelados.



Que algo estava errado e que a conta um dia chegaria, já sabia, mas os números, revelados por Bacco, em suas últimas matérias, me surpreenderam: O vinho está, realmente, correndo ladeira abaixo e.....sai de baixo!

Devo, todavia, confessar que, para mim, pouco ou quase nada vai mudar, pois há muitos anos deixei de acreditar que etiquetas badaladas e altos preços fossem sinônimos de insuperável qualidade.

Nenhum vinho deveria custar mais do que 50 Euros.



Antes que os eno-patriotas e eno-palermas, fãs incondicionais de etiquetas famosas, enviem comentários, raivosos e ofensivos, contra minha ascendente feminina, informo que no final dos anos 1970 uma garrafa de “Barolo Riserva Monfortino”, da premiada vinícola, Giacomo Conterno, custava 5.000 Liras que correspondem, aproximadamente, a 3 Euros nos dias atuais

 Informo, ainda, que o mesmíssimo “Barolo Monfortino Riserva”, continua sendo vinificado com uvas colhidas nas colinas de Serralunga D’Alba, na mesmíssima vinha “Cantina Francia”, engarrafado na mesmíssima adega da mesmíssima família Conterno, mas hoje custa 900/1.200 Euros.



Monfortino Riserva Giacomo Conterno 2015

1300,00




Taí, uma das razões que afastaram as garrafas das mesas das famílias, dos bares e dos restaurantes em todos os cantos do mundo: O vinho se transformou em artigo de luxo e luxo, mesmo falsificado, é caro....

Depois de anos e anos percorrendo a trilha do insano e irreal “eno-patetismo-vinícola”, finalmente, me libertei dos sommeliers, enólogos, influenciadores, críticos, modismos, tudo e todos que contribuíram para a mitificação do vinho, assim, hoje, minhas garrafas mais caras muito raramente ultrapassam os 50 Euros.



Adeus às inúteis, dispensáveis e caríssimas garrafas de “vinho-modismo”.... Bem-vindos, finalmente e ainda bem, “vinhos-pobres”: Grignolino, Schiava, Pelaverga, Coda di Volpe, Albarossa, Incrocio Manzoni, Bardolino, Lambrusco, Soave, Freisa etc. etc. etc.



“E por falar em saudade onde anda você…Freisa di Chieri? ”

Serpenteando pelas gôndolas, de um supermercado, à procura de algumas garrafas para reabastecer minha “maranhense” adega, meus olhos encontraram, quase escondidas, entre outras etiquetas mais importantes, “ampolas” de “Feisa di Chieri Frizzante” por 8,70 Euros”.



Pensei: “Freisa di Chieri, há quanto tempo a gente não se vê.....”

Sem titubear e com um pueril sentimento de alegria, agarrei três garrafas e as coloquei no carrinho.

Com o intenso calor, que há semanas castiga o continente europeu e quase derrete o asfalto das ruas, somente “sommeliers de bicicleta” ou outros palermas do mesmo naipe (há inúmeros...) beberiam um vinho tinto muito alcoólico e mastigável.

Um bom branco, um belo espumante, ou um tinto leve, após rápida passagem pelo refrigerador, refrescam e alegram até os mais “fervente” coração.



Chieri, pequena, cidade distante apenas 20 km da belíssima Torino, é uma válida opção para o turista que já não aguenta as multidões que, parecendo hunos, invadem as mais badaladas cidades turísticas da Europa.

O belo centro medieval, a majestosa catedral, o gueto hebraico e o museu da indústria têxtil, são atrativos que a cidade oferece e merecem ser visitados.

Para os enófilos, todavia, nada é mais a “atraente” do que um ótimo vinho produzido na região: “Freisa di Chieri”.



As vinhas de Freisa aparecem nas colinas de Chieri desde a era romana, mas somente na idade média (1517) o vinho é devidamente reconhecido e documentado.

Hoje a área cultivada é de aproximadamente 90 hectares e 9 produtores engarrafam três tipologias de Freisa: Seco, Frisante e Espumante.

Minha preferida, desde sempre é a versão frisante.



A bela cor rubi, a espuma fina, quase alegre, os perfumes delicados, o paladar harmônico e elegante, do “Freisa Di Chieri 2024”, da vinícola Balbiano, doam ao enófilo, que quer fugir das mesmices dos “vinhos moda”, uma agradável e alegre companhia para os aperitivos nos finais de tarde, mesmo nos dias de intenso calor.



Um belíssimo vinho por menos de 10 Euros que recomendo com prazer e entusiasmo

 

Dionísio