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quarta-feira, 13 de junho de 2018

GAUDENSIUS


O consumo mundial de vinhos espumantes a cada ano bate recordes.
 

 Champagne Cava, Franciacorta e especialmente o Prosecco não param nas prateleiras.
 

O sucesso do Prosecco (660 milhões de garrafas) vai incentivar, ainda mais, o plantio de Glera (a casta usada na denominação) e, conhecendo a ganância dos produtores, em breve teremos Prosecco siciliano.
 
 
 

Deixando a brincadeira de lado..... Semana passada, na hora do meu aperitivo matutino, Enrico, sommelier e proprietário da tradicional "Vineria Macchiavello", de Santa Margherita Ligure, perguntou "Quer provar um espumante siciliano?"
 

Com um olhar que queria transmitir paciência e resignação resolvi concordar e decidi experimentar e beber um ou dois goles do espumante "Cosa Nostra"...... Faz uma semana que, no meu aperitivo das onze e meia,  somente bebo "Gaudensius Blanc de Noir" da Firriato.

O mais incrível é que a Firriato representa enologicamente, tudo aquilo que detesto: Grande produtora com 380 hectares de vinhedos de onde nascem, nada desprezíveis, 4,5 milhões de garrafas.

Uma Miolo-Galvão Bueno de pequeno porte.

O Nerello Mascalese, vinificado em "branco" e que dá vida ao "Gaudensius", nasce nas encostas do Etna e confirma que aquela é terra de grandes vinhos.

O "Gaudensius Blanc de Noir" não é um grandíssimo espumante, nem poderia em se tratando de um "Firriato", mas o Nerello Mascalese, o clima e o terreno vulcânico, doam um vinho muito agradável, boa acidez, fresco, aromas cítricos, um perlage finíssimo e na boca um final longo e impressionante.

O melhor de tudo: O "Gaudensius" custa, nas enotecas, 12/15 Euros.

O Brasil, quando deixar de lado as idiotices de marqueteiros de 5ª categoria (lembram do 2º melhor espumante do mundo?) e se dedicar com seriedade à produção de espumante, poderá, um dia, levar à nossas taças um bom espumante como o "Gaudensius".

É preciso, todavia, baixar os preços (se alguém falar mais uma vez em impostos, sinta-se mandado à merda).

Como aumentar um consumo ridículo de 1,7 litro/ano per - capita praticando preço de duas garrafas de Dom Perignon por uma garrafa de Cave Geisse?


caixa com 1 unidades

R$800.00
 

Como pretender que o enófilo brasileiro se empolgue ao ser insultado com os R$ 230 do "Maria Valduga"?
 


"Gaudensius" um bom e barato espumante que recomendo

Bacco

segunda-feira, 11 de junho de 2018

BRACHETTO


 
 
Um leitor de B&B escreveu o seguinte comentário na matéria "Gattinara Nervi"

1.   Sobre denominações não usuais, o que me diz da Brachetto, Bacco? Comprei recentemente uma garrafa pela curiosidade e sem nunca ter ouvido falar. Depois, percebi que a graduação alcóolica era bem fora dos padrões para um tinto (5,5%) e que a uva pode dar origem a vinhos tranquilos ou espumantes. Mais alguma informação relevante? Alguma indicação de produtor? Desde já agradeço.

Lembrei que em 2008, no antigo site, havia escrito uma matéria sobre o assunto.

Não creio que tenham ocorrido grandes mudanças com a denominação então.... Recordar é viver

O meu primeiro contato, com este belíssimo e pouco conhecido vinho, se deu na já longínqua década de 70.

Um adido (não sei de que) da embaixada da Itália, após uma estada de alguns anos em Brasília, estava de malas afiveladas e prontas para retornar ao Friuli, sua terra natal.
 

Como todo bom diplomata, ao deixar o país, só não vendeu as cuecas porque naquele tempo estas peças íntimas ainda não eram disputadas em leilão, mas vendeu carro, moveis, quadros, discos e, finalmente, as garrafas de vinhos que repousavam em sua adega nada modesta.

Quando tomei conhecimento, da venda dos vinhos, muitos compradores já me haviam antecipado e, logicamente, comprado os vinhos melhores e mais conhecidos.

Se por um lado tive azar, por outro tive muita sorte.

Sobraram muitas garrafas de "Spumante Brachetto" que ninguém, em Brasília, conhecia.
 

Por um preço quase simbólico arrematei duas caixas de Brachetto, que ninguém queria e passei muitos meses me deliciando com aquele ótimo espumante de uma vinícola cujo nome, confesso, não mais recordo.

Muitos anos se passaram sem que o Brachetto cruzasse novamente o meu caminho.

Foi em 1998, no ótimo restaurante “La Contea", do folclórico Tonino Ferro, em Neive, que o sommelier sugeriu ao meu filho, que pedira um dessert, um cálice de Brachetto.

Todas as memórias deste vinho, como de encanto, retornaram à minha mente e creio seja inútil dizer que o sommelier acabou por nos servir a inteira garrafa.

Já tinha ouvido comentários que o Brachetto, além das versões frisante e espumante doce, era produzido, em menor escala, na versão “fermo” e seco.

 Procurei o Brachetto seco em não sei quantas enotecas sempre sem sucesso e esta minha busca, quase obsessiva, me revelou que poucos italianos conheciam o Brachetto vinificado desta maneira.
 

Quase desisti de ser o Diógenes do Brachetto seco, até que num ensolarado final de manhã, sentado em uma das mesas ao ar livre num bar de Canelli, pedi distraidamente ao garçom um Brachetto.

O jovem que me atendia, indagou: “O senhor prefere espumante ou fermo seco?”. Quase pulei da cadeira e perguntei incrédulo “Você tem o Brachetto seco? Não acredito!”

 O garçom meio assustado com minha reação balbuciou um sim, entrou no bar e voltou com a garrafa.

 Inútil comentar o final, mas devo confessar que tive alguma dificuldade em encontra meu carro no estacionamento...

Deixemos as lembranças de lado e vamos falar desta belíssima uva que já deliciava os romanos que vinham até Acqui para aproveitar as águas termais desta bela cidade da província de Alessandria.

Diz a lenda (os vinhos são cheios de lendas) que Cleópatra recebera muitas ânforas de Brachetto e que nos jantares tentava enfeitiçar Julio Cesar ou Marco Antonio com taças e mais taças deste vinho.

 Lendas à parte o Brachetto já era um sucesso há 2.000 anos.

Com o passar do tempo o Brachetto deixou de ser um vinho da moda provavelmente ofuscado pelo sucesso do Moscato e ficou no ostracismo até o final do século 19.

O definitivo reencontro com a fama se deve, em grande parte, ao famoso viticultor Arturo Bersano que na década de 50 iniciou a vinificação do “Brachetto Spumante”

 Por seu frescor, seus aromas florais e baixo teor alcoólico, o Brachetto é sucesso entre os jovens e é consumido em taças ou em dezenas de cocktails.

Para variar, o mercado americano adotou o Brachetto como novo ícone de sucesso e grande parte da produção é exportada para os EUA. (tomara que mais um vinho não sucumba à ganância dos produtores).

Este vinho da moda se apresenta nas versões: Brachetto d’Acqui, Brachetto d’Acqui Spumante, Brachetto Passito e Brachetto Secco.

Somente as duas primeiras denominações podem ostentar a DOCG. As outras, devem obrigatoriamente adotar um nome fantasia.

O Brachetto d’Acqui (espumante ou não), que conseguiu sua DOC em 1969 e a DOCG em 1996, é produzido 100% com uvas homônimas plantadas e colhida nos quase 1000 hectares espalhados por 18 municípios da província de Asti e 8 da província de Alessandria.

O Brachetto deve ter obrigatoriamente 11,5º, apresentar cor rubi claro (quase rosada), aroma floral onde sobressaem a rosa e violeta e no paladar se apresenta doce, macio, muito delicado e fácil de beber.

È um vinho típico de sobremesa que se harmoniza perfeitamente com os doces piemonteses.

Falando de Brachetto, não podia deixar de apresentar alguns dados sobre as tipologias mais famosas e consumidas, mas meu objetivo principal é o extraordinário Brachetto, em sua versão “Secco”.

O Brachetto seco (bom) é produzido em quantidades mínimas e quase exclusivamente para os poucos que conhecem os raros produtores e que apreciam este quase desconhecido vinho.

Eu sou um destes raros admiradores, assim como sou do Gamba di Pernice,Carema, Pelaverga, Lessona, Sfursat, Incrocio Manzoni, Moscato di Scanzo, Rossese di Dolceaqua e muitos outros que bebedores de "vinhos internacionais" (Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay etc.), nem sonham ou procuram conhecer.

Indico, sem o menor receio de errar, o Liona da “Azienda Vinicola Marina Mangiarotti” de Strevi em Província de Alessandria

O “Rosso Eli” de Elisabetta Castellucci, no distrito de Moirano D’Acqui, é produzido com uvas colhidas em ½ hectare, que resultam, no final, em apenas 500 garrafas. O “Rosso Eli” se apresenta com uma bela cor cereja, aroma delicado, muito frutado e seu natural frescor esconde, facilmente, seus 13º de álcool.
 

O Brachetto La Tia, produzido por “Poderi Traversa” em Spigno Monferrato, é outro belo vinho que apresenta um aroma que evidencia especiarias, a rosa e com seus 12º, é ótimo para acompanhar os embutidos locais.

Quando, ou por acaso, o leitor passar por Acqui, há poucos metros da “Bollente”, famosa fonte de águas termais, bem no centro da principal praça da cidade, deve procurar a enoteca “La Curia” (procurar também na "Enoteca Regionale Acqui Terme")
 

 Neste belíssimo local, além de uma quantidade incrível de vinhos é possível conhecer o Brachetto Secco, é só pedir.

Bacco

sexta-feira, 8 de junho de 2018

JEFFERSON


 


"Prove este "amaro"

Fabio, proprietário do "Sabot", o bar mais badalado de Santa Margherita, despejou na taça um pouco de "Jefferson" e continuou: "Jefferson é um amaro da Calábria que ganhou medalha de ouro no concurso Word's Best Liqueur".

Não sou exatamente fã de concurso, mas de graça......

Olhei a taça, cheirei o líquido marrom claro, provei e.... "Onde você encontrou? Gostaria de comprar uma garrafa".

Percebendo o meu entusiasmo Fabio, gentilmente, me vendeu uma garrafa de seu estoque.
 

Uma pequena pausa.

O italiano costuma, depois das refeições, tomar um "espresso" ou beber um amaro para "ajudar a digestão".

Se ajuda, ou não, a digerir, não sei, mas sei que há uma enorme variedade de "amari" para todos os gostos.

Já provei dúzias e mais dúzias, mas devo confessar que nenhum é tão bom quanto o calabrês "Jefferson".
 

A lenda (italiano adora lendas...) conta que em 1871 um navio inglês naufragou perto da costa calabresa.

Do naufrágio salvaram-se os marinheiros Egidio, Gil, Roger e o capitão Jefferson.

Agarrados a um velho baú e quase sem forças, os quatro já não acreditavam que poderiam se salvar.

De repente Roger gritou "Estamos salvos. Toquei o fundo".

Estremados alcançar a praia e adormeceram.

 Jefferson, ao acordar, olhou para a maravilhosa praia da salvação e jurou que nunca mais sairia daquelas terras.

Andaram por um longo tempo até encontrar um velho armazém alfandegário onde foram acolhidos, carinhosamente, por um casal de velhos.

 
Os náufragos,  para retribuir a gentileza, começaram a ajudar o ancião que produzia licores em um alambique clandestino no velho armazém alfandegário.

Jefferson, bom conhecedor de botânica, começou a pesquisar frutas, ervas, raízes, flores etc. do território e finalmente deu vida ao "amaro" que hoje leva seu nome.

Egidio, em meados do século passado, deixou a família em Montaldo Uffugo e emigrou para o Rio de Janeiro.

Nunca mais voltou e ninguém teve notícias suas.
 

Seu neto, Ivano Trombino, revirando antigos papeis encontrou a fórmula secreta escrita por Mr. Jefferson e resolveu retomar a produção do "amaro".

Para homenagear seu "inventor" o batiza com o nome "Jefferson".

A realidade.

"Vecchio Magazzino Doganale" nasce na pequena cidade calabresa de Montaldo Uffugo (20 mil habitante) e produz, além do Jefferson, licores, um ótimo Gin e um belíssimo Bitter.
 

Quem gosta de imitar os italianos e aprecia um bom "amaro" depois (antes também....) das refeições, não pode deixar escapar o sensacional "Jefferson".

Confira

Bacco

quarta-feira, 6 de junho de 2018

PREDADORES TAMBÉM USAM KY...


Li a matéria, de Bacco, "Gattinara Nervi" e , assim como todos os que conhecem e gostam dos vinhos do "Alto Piemonte" , fiquei preocupado: Quando os "Caixas Altas" entram de sola em determinada área, especialidade, atividade etc... é sempre bom estocar boa quantidade de KY...... A enrabada é certa!
 
 
 

Poderia enumerar dezenas, centenas, de exemplos, mas já não tenho saco.

Nem sempre, todavia, o predador consegue ter sucesso e nessas raras ocasiões, é ele aquele que precisa a usar a famosa pomada.

Um caso típico ocorreu, há alguns anos, na mesma região (Alto Piemonte), mais exatamente em Lessona.

Os De Marchi , na década de 1950 , farejaram que a Toscana poderia se transformar em um novo "Eldorado" vinícola e trocaram Lessona por Barberino Val D'Elsa.
 

Na onda dos "Supertuscans", os De Marchi encheram as burras de dinheiro com seu "Isole Olena Cepparello".

O "Isole Olena Cepparello" é um Chianti que custa, nas enotecas, nada módicos 60/70 Euros.

Bem antes dos Conterno, De Marchi, ao perceber que os "Supertuscans" já haviam dado o que tinham que dar, farejaram que o Norte do Piemonte, com seus grandes vinhos, poderia "explodir".

Sem pensar muito voltaram para as antigas e semi-abandonadas terras, "Proprietà Sperino", em Lessona.

Com a fama, conseguida na Toscana, calcularam que poderiam repetir o mesmo sucesso do "Cepparello" com o Nebbiolo do Alto Piemonte.

 
Alguns erros estratégicos, canetas, provavelmente, não bem azeitadas, preço irreal.... Resultado o "Lessona Proprietà Sperino" de 60/65 Euros mofa, tranquilamente, nas prateleiras das enotecas.

O erro estratégico: A Toscana e Chianti, nomes de fama internacional, são regiões vinícolas conhecidas há séculos.

 A DOC Lessona é praticamente desconhecida na própria Itália e 80% dos italianos nem sabe do que se trata.

 A DOC Lessona é engarrafada por 4 produtores. 

A área plantada não atinge nem 15 hectares e o preço médio, de uma garrafa de Lessona, não supera os 20/30 Euros.

Nem com a ajuda de todas as canetas de vida fácil do planeta seria possível vender uma garrafa de Lessona "Propietà Sperino" por 60/70 Euros (Uma garrafa do ótimo Lessona "Colombera & Garella" custa 20/25 Euros e o não menos ótimo Lessona "Sella" custa 16/30 Euros)
 

Os De Marchi, que pretendiam encher, ainda mais, os bolsos de dinheiro, como fizeram com o "Cepparello Isole Olena", precisarão comprar um grande estoque de KY.

Angelo Gaja, o maior nome das "Langhe" , nos anos 1990, fareja, também, a Toscana e entra de sola na região central da Itália

O faz como de costume: em grande estilo, antes em Montalcino e mais tarde em Bolgheri.

Em Montalcino, Gaja, compra "La Restituta" e em Bolgheri implanta a "Ca' Marcanda".

No Piemonte, dos pequenos produtores, Gaja cantou de galo e fez imensa fortuna vendendo suas etiquetas por preços compatíveis e alcançáveis somente aos bolsos e bolsas de brasileiros envolvidos em diversas e conhecidas falcatruas.  
Barbaresco Sori Tildin 350 Euros, Chardonnay Gaja & Rey 175 Euros são apenas alguns exemplos.


       
 


Gaja, em Montalcino, é apenas mais um e em Bolgheri, nem isso.  

Na Toscana há famílias nobres que dominam o setor há séculos e os Antinori, Frescobaldi, Incisa della Rocchetta, Ricasoli etc. não temem ninguém.

Gaja ganhou e continua ganhando uma boa grana com seus "Supertuscans", mas nenhum de seus vinhos conseguiu alcançar a fama e os preços do Masseto, Solaia, Sassicaia, Ornellaia.
 

Tenho certeza que o "Gaja-Bolgheri" precisou usar KY.

O nosso Angelo Gaja já farejou novas vinhas, vinhos e grana nas encostas do Etna.

 Aguardemos.

Outro que tentou uma aventura vinícola, aproveitando seu "famoso" nome, foi Elio Altare.

Altare um dos pais do "Barolo moderno" acreditou que poderia "vencer", também, nas "Cinque Terre" e, em 2005, comprou algumas vinhas na região.

 
Doze anos depois o vinho branco do Altare é um ilustre desconhecido, inclusive na Ligúria.

Acreditar que o nome "Altare" possa justificar 35/40 Euros por uma garrafa de vinho produzido com Bosco e Albarola, duas variedades nada além de regulares, é chamar o consumidor de idiota.

Aliás, somente um idiota compraria um "Cinque Terre" por 35 Euros se pelo mesmo preço poderia beber um belíssimo Chablis "Les Vaillons" 1er Cru.

KY, também, para Elio Altare, em dose menor, mas sempre KY.
Aguardemos o que conseguirá Conterno com o Gattinara.

Dionísio