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terça-feira, 2 de janeiro de 2024

VIMBLANC - CELLER DE CAPÇANES

 


No Brasil comprar vinhos para consumo sem ser lesado demanda muita paciência e um pouco de sorte.

Para “ajudar” a sorte acesso as páginas dos principais vendedores, pelo menos uma vez por semana, para ver as novidades e as eventuais ofertas.

Em uma tarde de tédio, de um dia útil às portas do inútil Carnaval de 2020 (o da pandemia), entrei na página da Evino para verificar se haveria alguma promoção.



Não encontrei nada barato, mas o vinho “3/VB Blanc de Negres”, da vinícola catalã “Celler de Capçanes”, despertou minha atenção por três motivos.

1º: a vinícola declarava uma produção de, aproximadamente, duas mil garrafas, o que indicava se tratar de um vinho raro.

2º: Encontrei o mesmo vinho, em algumas enotecas estrangeiras por preço que rondava os 35 euros, assim, os R$ 250 da Evino pareceram razoáveis,

3º: As idiossincrasias: vinificado em branco com uva Grenache (Garnacha), proveniente de vinhas velhas e envelhecido em barrique por três anos.



Graças à vez em que provei um Viña Tondonia Reserva” 1999 na casa de Bacco, numa tarde de garrafas e pratos antológicos, fiquei fã de brancos espanhóis fora das normas habituais.

Desde então o “Tondonia Reserva” saltou de 30 para 60/70 euros (quando você consegue achá-lo), a Vega Sicilia começou a plantar uvas brancas, a moda de brancos barricados se alastrou pela Espanha e chegou até a Hungria, mas isso é assunto para outro texto.

Após quase quatro anos voltei ao Brasil para rever a familiares e amigos.



 Em uma das muitas manifestações de alegria pelo reencontro fui convidado, por um casal de amigos, para jantar

Mãos vazias? Nunca

 Procurei, na minha abandonada e poeirenta adega brasileira ,um vinho branco...  Só uma garrafa e justamente de “3/VB Blanc de Negres”.

Sem alternativa e ciente de que se tratava de um vinho incomum, liguei o modo “dane-se”, peguei a garrafa e fui para o jantar.

Lá chegando, abri a garrafa e os primeiros aromas já impressionaram: frutas secas, amêndoas, coco, baunilha.

Na taça uma cor âmbar que lembrava a de um Xerez Pedro Ximenez.



A ideia inicial previa deixar o vinho descansando na taça   pelo menos dez minutos antes de prová-lo, mas não resisti: que vinho interessante!

Complexo, estruturado e no ponto para beber (a garrafa era de 2013).

Consultando a página da vinícola “Celler de Capçanes”, constatei que o “3/VB” é chamado de Vimblanc (que imagino que seja “vinho branco” em catalão), produzido fora das regras de qualquer denominação de origem e que “3/VB” se refere ao fato ser o terceiro vinho vinificado nesse projeto experimental – já há um “4/VB” envelhecido em barriques por nada menos que OITO ANOS.



Em algumas enotecas europeias, como a Vinissimus, a Enterwine e a Kiedo, é possível encontrar o 3/VB, 4/VB e até do 2/VB, por preços que oscilam entre 35 e 40 euros.

No Brasil, nunca mais encontrei.



Tão saboroso, quanto inusitado, o “Vimblanc”, da Celler de Capçanes, é um vinho para raros e grandes momentos (não poderia ser diferente face a diminuta produção)

 Coisa de doido?

Sim!

 Mas são os loucos que movem o mundo...

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

DÃO MEIA ENCOSTA

 


As festas natalinas não enchem o saco somente dos Papais-Noéis espalhados pelas ruas, shoppings, lojas, supermercados etc.; as festas natalinas estouraram, também, o meu, já nos primeiros dias do mês de dezembro. In 😂



Venezuelanos, cheios de filhos, pedindo esmola em cada farol da cidade (alguns tem até pix...), invasão de “miseráveis-profissionais-natalinos” e seus barracos de lona preta em todos os cantos de Brasília, centenas de velhas vendendo panos de pratos nas portas dos supermercados, lixeiros pedindo cesta básica, meninos descalços com olhares doces e lacrimosos, dignos da “Actors Studio”, implorando caixinha de natal



 Um festival de horrores daqueles que, com a proximidade do natal, apostam na bondade e enternecimento dos corações para faturar alto  

É o espirito natalino derretendo corações e....esvaziando carteiras.



Eu aguardo, com ânsia, o primeiro dia de janeiro quando os quase 2,5 bilhões de cristãos voltarão à normalidade e recomeçarão a mentir, roubar, fingir, brutalizar, estuprar, prevaricar, trair, matar, guerrear etc.

Enquanto a “bondade” natalina impera e a “normalidade” não chega, resolvi passear pelas gondolas dos supermercados e me divertir observando o frenesi dos consumidores que, parecendo famintas formigas saúvas, tomam de assalto todos expositores de bacalhau, cerejas, nozes, panettoni, frutas, espumantes etc., que encontram em seus desesperados e apressados ziguezagues.



A frenética busca do desperdício....

Em um dos meus passeios levei um susto: Uma promotora quase me agrediu ao oferecer, insistentemente, uma degustação-amostra do espumante argentino “Terranostra” (melhor, seria, “Terrabosta”…)



Fígado em bom estado, paladar matutino quase ilibado, uma pitada de “bondade natalina” ..... Aceitei.

 Quase mandei a promotora à...., mas a mesma “bondade-natalina”, que me havia induzido a aceitar um gole do pavoroso espumante portenho, conteve meu primeiro e raivoso impulso



Agradeci e continuei minha caminhada à desesperada procura de uma garrafa de água com gás.

Encontrei-a, finalmente, em um refrigerador, peguei a primeira garrafa ao meu alcance, bebi um gole, para limpar a boca dos resíduos do “Terrabosta” e me perdi por entre as gondolas de vinho.

Dão Meia Encosta 2022 por R$ 44,99?

Não acreditei!

 Me aproximei e, ainda incrédulo, verifiquei que o preço era realmente R$ 44,99.



Sem pensar muito uma garrafa do vinho português foi fazer companhia à agua mineral.

Cansado de presenciar donas de casa lutando pelo peru maior e mais apetitoso, entrei no carro e ....tome jingle bells no rádio

Ao chegar em casa coloquei a garrafa no refrigerador, aguardei quase uma hora e finalmente abri e provei o vinho.

Sem frescuras, direto, na lata....Não há nenhum vinho nacional igual ou superior ao “Dão Meia Encosta” da Vinhos Borges.

Mesmo os caríssimos vinhos brancos nacionais levam uma surra quando e se honestamente comparados ao Dão Meia Encosta de R$ 44,99.

Vale da Pedra – Guaspari R$179

Viognier Terroir Exclusivo – Vaduga R$ 138

Dádivas - Lidio Carraro R$ 129

Duble Terroir – Valmarino R$ 171


 

Vinho Valmarino Double Terroir Chardonnay Branco Seco 750ml


R$ 189

em 12x 

O preço por litro é de


Cuvée Giuseppe – Miolo R$ 125

Atos – Salton R$ 100

Costero – Geisse R$ 124







Todo os vinhos elencados (há muitos mais) custam o triplo e não valem a metade dos R$ 45 que gastei para comprar o Dão Meia Encosta da Vinhos Borges.

Esta é mais uma prova de que o brasileiro bebe mal e é explorado despudorada e constantemente pelos predadores-produtores nacionais.

Um vinho português, de boa qualidade, viaja 7.000 km paga taxas e mais taxas e aparece nas gondolas brasiliense custando menos de 1/3 dos “renomados” nacionais?

Piada pronta e sacanagem de sempre.....

O Dão Meia Encosta, da Vinhos Borges, não é um grande vinho, é um vinho honesto.

Elegante, muito mineral, com incrível acidez e um longo e belo final.

Um vinho que vale cada centavo e mais até, daquilo que paguei e que recomendo com entusiasmo.

Mais uma coisa: No nariz, além dos cítricos, aparece claramente o aroma marcante da grande casta portuguesa: Encruzado.

Comprei o Dão Meia Encosta 2022, em Brasília, no supermercado Big Box no SMDB 12 do Lago Sul.



Aproveitando o “amolecimento” do meu natalino coração, mais uma dica: No mesmo supermercado, por R$ 32,90, é possível levar para casa ½ litro do ótimo azeite chileno, “Nova Oliva”, que pulveriza os espanhóis, italianos, portugueses etc. de 5ª categoria de R$ 45/48.

Confira.

No mais, aguardemos o retorno da normalidade que doa muitas emoções aos corações brasileiros.

Dionísio

 

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

AS RAPIDINHAS

 


Já ganhei um sem número de apostas de amigos que duvidaram da minha capacidade em realizar pratos, nada banais, diga-se, em poucos minutos.

Venci a última aposta quando realizei uma das minhas receitas prediletas, “Filé de Peixe ao Molho de Canela”, em exatos 5 minutos.



Cronometro na mão....Foi dada a partida!

 Após 5 exatos minutos servi o filé de truta ao molho de canela.

Meu genro, duvidou, apostou e.....perdeu.

Meu repertorio, de pratos “Speedy Gonzales” (alguém ainda lembra?), é bastante amplo, mas as minhas “rapidinhas” prediletas são as massas.



Quase sempre inicio a preparar o molho logo após jogar o macarrão na panela da água fervente.

 Os fabricantes recomendam, normalmente, 7/9 minutos para o perfeito cozimento da massa.

Os minutos recomendados são mais que suficientes para realizar alguns molhos que já estarão prontos quando o macarrão estiver “al dente”.


Não todos, claro, mas há uma meia dúzia deles que consigo realizar em menos de 10 minutos.

Exemplo?



"Fusilli Aglio Olio e Pomodori”, que certa vez comi em um restaurante da estupenda Camogli é uma das minhas rapidinhas.



Prato simples, interessante, saboroso e, o mais interessante, de baixíssimo custo.

Ingredientes para 4 pessoas

¾ de pacote de fusilli (se não tiver “preconceito” e gostar de comer o que sobrar, no jantar, pode cozinhar o pacote inteiro).

1 abundante xicaras (chá) de azeite de boa qualidade

300g de tomate-cereja bem maduros

2 dentes de alho

Manjericão (se não encontrar, vá de orégano) salsinha picada

Sal, pimenta malagueta fresca (opcional)

PREPARO

Coloque o azeite em uma travessa de porcelana que possa ir à mesa.



Pique finamente o alho , a salsinha e junte ao azeite.

Em seguida corte, ao meio, os tomates, adicione-os ao azeite e alho, junte um pouco de sal (se quiser pique uma pequena pimenta malagueta fresca) misture bem o todo e coloque a travessa sobre a panela onde está cozinhando o macarrão.



É sempre bom lembrar que o molho não deve cozinhar, mas apenas aquecer.

Quando o macarrão estiver “al dente”, coe, despeje na travessa, misture bem, amalgamado o todo e sirva.



Simples, fácil e...... Mediterrâneo

Vinho?

Bardolino, Grignolino ou um Chardonnay de boa estrutura.

Buon appetito

Bacco.

 P.S Se não tiver “pressa” pode deixar o molho na geladeira até o dia seguinte: Garanto que após 24 horas a salsa melhorará sensivelmente o sabor dos fussili

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

O GRANDE E ESQUECIDO GRIGNOLINO 2

 


O garçom despejou um pouco de vinho na taça, com olhar esperançoso aguardou minha aprovação, anotou os pratos de minha escolha e rapidamente desapareceu por entre as mesas.



 Olhei para o vinho, que girava em minha taça e finalmente pude saborear, com a tranquilidade merecida o “Grignolino del Monferrato CasaleseTenuta Migliavacca 2019”.



Ótimo vinho que parecia ainda melhor ao ser degustado admirando o fantástico panorama que a varanda do restaurante “Leon D’Oro” proporciona a seus afortunados clientes.



Enquanto girava a taça, admirava a linda cor rubi-claro (quase um rosé carregado) do Grignolino, me deliciava com seus aromas floreais e de especiarias, o paladar agradecia a fina harmonia de seus taninos, o retrogosto de amêndoas, o longo e refinado final, Umberto Eco invadiu minha mente.

Alguém perguntará: O que o autor de “O Nome Da Rosa” tem a ver com o Grignolino Tenuta Migliavacca? ”



Muito!

Na entrevista, de 2015, “Comunicazione e Cultura dei Media”, o grande semiólogo italiano comentou sobre a internet: “ ...as mídias sociais deram voz a uma legião de imbecis....é a invasão dos imbecis”.



Através da taça, do transparente e brilhante “Grignolino del Monferrato Casalese 2021” era possível admirar a calma e misteriosa “Isola del Silenzio”.

 Diante de tanta beleza a mente divagou, pelo passado e tentou lembrar quantos sommelliers, influenciadores, críticos, jornalistas, youtubers, ticktokers etc. etc. etc. do Brasil, haviam degustado, criticado, comentado, recomendado, qualquer coisa, enfim, sobre aquele vinho do Monferrato.



A resposta?

 Um zero total...

 Foi neste exato momento que Umberto Eco e “seus eno-imbecis” invadiram minha mente:

No Brasil, a imensa maioria dos que escrevem, comentam, recomendam e divulgam vinho, são os típicos imbecis a que Eco se referia, mas com uma atenuante: os que os seguem são, também, imbecis...é uma grande família.



Não é a primeira e não será a última vez, que escrevo uma matéria sobre o Grignolino, que, desde sempre, é um dos meus vinhos tintos piemonteses preferidos.

Quiser mais informações é só acessar o link abaixo.

https://baccoebocca-us.blogspot.com/2018/10/grignolino-2.html


Para conhecer realmente o Grignolino seria necessário percorrer, algumas vezes, o Monferrato, pátria da casta piemontesa.

O Monferrato, sub-região do Piemonte, se estende pelas províncias de Asti e Alessandria.

Confina, ao norte, com o rio Po e ao sul com a Ligúria.

O território do Monferrato, em sua quase totalidade, é coberto por colinas e a viticultura é mais importante atividade econômica.



Barbera, Moscato, Timorasso, Dolcetto, Freisa, Ruchè, Cortese (Gavi), Brachetto, Gamba di Pernice e naturalmente, Grignolino, são as variedades mais cultivadas e vinificadas no Monferrato.



As novas gerações de enófilos, que já não endeusam os mastigáveis “vinhões parkerianos”, não possuem muita grana para torrar, com as caras e manjadas etiquetas, estão aposentando antigos ícones vinícola e buscando vinhos bons, mais baratos e fáceis de beber…o Grignolino é exatamente um destes vinhos.



O “Grignolino del Monferrato Casalese Tenuta Migliavacca 2021” me impressionou a tal ponto que no meu retorno, para Santa Margherita, resolvi abandonar a rota principal, percorrer estradas secundárias, conhecer San Giorgio Monferrato e comprar algumas garrafas diretamente na vinícola “Tenuta Migliavacca”

Boa ideia!  

                                                           

Visitei a pequena aldeia, de pouco mais de mil habitantes, o belíssimo Castello di San Giorgio que, apesar de seus 1.200 anos, continua em boa forma e bem conservado.

....e por falar em castelo.... Para os abonados de plantão informo que o castelo, seus, 4.000 m²de superfície coberta, 17 quartos, 12 banheiros e mais 90 cômodos (salas, salinhas, salões, biblioteca, cozinhas, adegas, subterrâneos, torres etc.), 7.000 m² de terraço, 3,5 hectares de vinhedos etc., está à venda por 2.800.000 Euros.



Mais uma ótima oportunidade para um dos nossos intrépidos viticultores migrar e ensinar, aos italianos, como vender garrafa de Grignolino por 80 Euros.....

Três quilômetros separam o centro da aldeia da “Tenuta Migliavacca”.

Um bom papo como proprietário, Francesco Brezza, degustação de Grignolino 2021, 2022, de Barbera 2020, uma rápida negociação e ......54 Euros depois, 6 garrafas de “Grignolino del Monferrato Casalese Tenuta Migliavacca” 2021 foram para o porta-malas do meu carro.



Para quem gosta de vinho e não de etiquetas, recomendo, com entusiasmo, uma visita ao Monferrato, suas colinas, aldeias, castelos, sem esquecer a ótima gastronomia e lembrar, enfim, que algumas garrafas de Grignolino nunca fizeram mal a ninguém...

Confira

Bacco