Facebook


Pesquisar no blog

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

GAVI TUFFO

 

Uma rápida olhada e não menos rápida contagem, me convenceram que meu estoque de vinho branco precisava de reforço.

Consultei o céu e deduzi que a meteorologia, daquele dia, não reservaria grandes preocupações.



 Um belo passeio, pelas vinhas de Gavi, à procura de algumas boas garrafas, seria mais que oportuno e gratificante

Já comentei, várias vezes, que um dos meus vinhos prediletos, do dia-dia, é o Gavi “Minaia” da vinícola Nicola Bergaglio.



O “Minaia” é um dos melhores vinhos, custo-qualidade, que eu conheço e, quem quiser mais informações.......https://baccoebocca-us.blogspot.com/2013/09/gavi-minaia-bergaglio.html

Estrada tranquila, pouco trânsito, nenhum engarrafamento…

Às 10,30 estacionei o carro bem no portão de entrada da adega dos Bergaglio, em Pedaggeri, distrito de Gavi.

Um leve toque na campainha e quem atendeu, prontamente, foi Diego, filho de Gianluigi Bergaglio.



Diego não é exatamente um sujeito loquaz.

 Para extrair de sua boca algumas frases, além daquelas que ele considera estritamente necessárias, seria preciso usara uma tenaz......

Diego é o paradigma da loquacidade e simpatia piemontesa.... 

Algumas poucas informações sobre o tempo, safra, saúde e, como de costume, um total de 12 garrafas de “Minaia” 2021, 2019, 2017, foram acomodadas no porta-malas do meu carro.



“Tivemos que aumentar um pouco os preços para compensar a elevação dos custos do vidro e embalagem”.

Diego, quase mortificado, anunciou que o preço, da garrafa de “Minaia”, fora majorado em 0,50 centavos de Euro

Sem maiores problemas concordei em pagar 5,50 Euros e, após rápidas saudações, recomendar lembranças ao pai, fiz inversão de marcha e tomei o caminho de volta.

Caminho de volta, sim, mas não sem antes parar para beber algumas taças de Gavi no meu bar preferido da cidade: “Gelateria Bar Matteo”.



Bem na praça central da cidade, o “Bar Matteo” oferece uma boa e variada seleção de etiquetas locais por 3 Euros a taça que sempre vem acompanhada de petiscos (salame, presunto, queijo, batatinhas etc.).

Matteo, o proprietário, me ofereceu uma taça de “Villa Sparina” que prontamente recusei (o Gavi Villa Sparina, assim como o La Scolca, é “vinho-griffe” para os eno-tontos).



“Gostaria de beber um Gavi que ainda não conheço.... Algo novo?

Matteo, prontamente respondeu: “Novo no mercado, não, mas há um que recém adicionei à carta”

Rápida saída e o barman retornou com uma garrafa de “Tuffo” (mergulho, em italiano).



Nunca provara nem conhecia o “Tuffo” e confesso que estava curioso e ansioso para dar o primeiro gole.

Taça ao nariz e.. Explosão de aromas cítricos, ervas aromáticas e floreais.

Na boca muito equilibrado, fresco, elegante e um final surpreendente longo com toque de amêndoas.

Antes de terminar a taça já havia decidido que algumas garrafas de Gavi “Tuffo” fariam companhia ao “Minaia”, de Nicola Bergaglio, no porta-malas do carro



Matteo, feliz com minha aprovação e entusiasmo, prontamente forneceu o endereço e indicou o caminho mais rápido para alcançar a “Azienda Agricola Morgassi Superiore” produtora do belíssimo Gavi DOCG “Tuffo”.

Bebi mais uma taça, entrei no carro e antes do almoço já estava na porta da belíssima “Azienda Agricola Moragassi Superiore” onde fui recebido por Alessandro Rastero “capo cantiniere” (chefe da adega) da vinícola.



Alessandro me proporcionou uma breve visita pela adega e sala de degustação da “Morgassi”.

 Depois de uma alegre “briga’ por desconto, que Alessandro não concedeu, 12 garrafas, de “Tuffo” 2021, foram fazer companhia às de “Minaia” no porta-malas.

Alessandro, duro na queda, não baixou nem um centavo e acabei pagando 7 Euros pelo “Tuffo”,

 O “capo cantiniere” em um rasgo de generosidade resolveu me presentear com uma garrafa de “Volo” (Voo, em português)

“Volo”, o Gavi top da vinícola, diferentemente do “Tuffo”, que afina por 4 meses em garrafa, permanece em contato com leveduras por 9 meses e afina por outros 6 em garrafa.



Devo confessar que o “Volo”, que custa “salgados” 9 Euros, não me agradou.

Sem a frescor, a leveza e as belas notas cítricas do “Tuffo”, o “Volo” é vinificado para ser um vinho complexo, importante, mas não alcança o objetivo.

O “Volo” dá a nítida impressão de ser um vinho de um enólogo que adora adega e esquece as vinhas......



Apenas 8 km, percorríveis em menos de 15 minutos, separam Serravalle Scrivia e seu famoso “outlet”, de Gavi e seus ótimos vinhos.

Depois de gastar, uma grana preta, com sapatos, bolsas, camisas, tênis etc.de Dolce e Gabbana, Gucci, Prada, Armani, Nike, Versace, Hugo Boss etc., junte os raros Euros que sobraram, vá até Gavi e encha o porta-malas de “Minaia” e ‘Tuffo”....

A dica é grátis..... Não precisa agradecer



Bacco.

PS. É sempre bom lembrar que uma garrafa do ridículo vinho “Vale da Pedra”, da Guaspari, custa R$ 152.

 Os ótimos “Minaia” e “Tuffo” custam, respectivamente e apenas, R$ 31 e R$ 39.......

A vida, do enófilo brasileiro, é uma merda....

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

BARBARESCO GRIFFE

 


Sempre tive grandes reservas e desconfianças dos vinhos produzidos pelas cooperativas vinícolas.

Grande quantidade rima com baixa qualidade.

Uvas vindimadas sem o mínimo cuidado na seleção, cachos colhidos em diversos estágios de maturação, vinificação massificadas e a toque de caixa etc., são alguns dos problemas que contribuem para a produção de milhões de garrafas deploráveis.


A “Cooperativa de Vincho e Vaglio Serra” não apresenta os problemas acima elencados.

Apesar de algumas concessões, adotadas nos últimos anos, vinificando ridículos Pinot Noir, Chardonnay, Viognier, Sauvignon e outras castas francesas, a vinícola não abdicou da qualidade de seus Barbera.



O “I Tre Vescovi”, que pode ser encontrado, nas enotecas italianas, por 7/11 Euros, se apresenta com bela cor rubi, ao nariz revela aromas complexos e elegantes onde é facilmente perceptível a presença de especiarias, na boca é uma festa... muito equilíbrio, persistência e uma grande estrutura.

Recomendo com entusiasmo o Barbera “I Tre Vescovi” e, como de costume, abomino as tremendas bostas afrancesadas que a “Cooperativa Vinchio e Vaglio Serra” resolveu e teima vinificar.

Outra cooperativa, de grande respeito e que não se rendeu ao canto das sereias francesas (Chardonnay, Sauvignon, Pinot Noir, Merlot e cia.) é a “Produttori del Barbaresco”.



A “Produttori del Barbaresco” nasce no distante século XIX, fecha as portas em 1920 e as reabre, graças ao pároco da aldeia, Don Fiorino Marengo, em 1958.

Don Marengo ressuscita a cooperativa reunindo 19 viticultores locais, funda a “nova” Produttori del Barbaresco” e adota o lema “ ...pela qualificação e garantia do Barbaresco”.



Desde então e até hoje, a “Produttori del Barbaresco” vinifica apenas e somente uva Nebbiolo.

Os vinhos produzidos são: Nebbiolo Langhe DOC, Barbaresco DOCG e Barbaresco Riserva DOCG.

Todos os “Riserva” são vinificados com uvas provenientes dos Crus: Asili, Rabajà, Rio Sordo, Ovello, Montestefano, Pajé, Muncagota, Montefico, Pora.



Quem já teve, assim como eu, a oportunidade de beber um Montestefano, Rio Sordo, Pora, Asili, Rabajá, Orvello (não provei, ainda, o Pajé, Muncagota Montefico) não notará diferenças significativas nas taças dos “Barbaresco-Griffe” que ostentam preços 5-6 e até 10 vezes superiores.

Vamos simplificar.....

Exemplo 1:  Uma garrafa de “Barbaresco Riserva Asili” da “Produttori del Barbaresco” custa 45/50 Euros.



Exemplo 2: Uma garrafa de Barbaresco Pajé, da famosa vinícola Roagna, custa 200/270 Euros.



Exemplo 3: Uma garrafa de “Barbaresco Riserva Asili” Bruno Giacosa custa 400/500 Euros.



Exemplo 4: Uma garrafa de Barbaresco Gaja “San Lorenzo” custa de 450/600 Euros.



Algumas informações: 1 kg de uva Nebbiolo da Barbaresco oscila entre 2,74 a 3,40 Euros.

Será que o Bruno Giacosa, que já faleceu, conseguiu santificar suas vinhas e doar celestial qualidade a seus cachos a tal ponto que seu Barbaresco custe 1.000% a mais do que o “Asili” dos “Produttori del Barbaresco”?

O Cru Asili tem uma superfície total de 2,28 hectares (20.280 m²) É sempre bom lembrar que as parreiras do Giacosa distam apenas 30 metros das vinhas dos “Produttori del Barbaresco”.



Será que eno-tonto adora encher a carteira (o certo seria outro substantivo...) dos produtores famosos?



A resposta deverá ser enviada somente após a degustação e comparação honesta das duas etiquetas.

Bacco

 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

I TRE VESCOVI

 


Prometi uma matéria sobre o ótimo Barbera “I Tre Vescovi” (Três Bispos) de Vinchio e Vaglio Serra.

Se os leitores perguntarem para 99,99% dos nossos críticos vinícolas, sommeliers, enófilos, jornalistas do ramo etc., sem que eles possam acessar o Google, além de não saber responder não saberão nem pronunciar corretamente Vinchio e Vaglio Serra (Vínkio e Válhio Serra)



Vinchio e Vaglio Serra, duas aldeias da província de Asti, apesar de quase desconhecidas pela maioria dos enófilos, dão vida a um dos melhores Barbera da Itália e consequentemente do planeta.

Vinchio e Vaglio Serra, perdidas nas colinas do Monferrato e circundadas por um mar de vinhas, abrigam, juntas, menos de 1.000 habitantes que, em sua quase totalidade, se dedicam à viticultura.

O Barbera “I Tre Vescovi” é produzido pela “Cooperativa dei Viticoltori Associati di Vinchio e Vaglio Serra”.



A cooperativa nasce em 1959, quando 19 viticultores, esquecendo as tradicionais rivalidades entre as duas aldeias, se uniram.

Melhoraram os vinhedos, selecionaram clones, adotaram técnicas mais modernas de vinificação, mas conservaram a tradição e algumas velhas vinhas que sempre haviam produzido as melhores uvas.

 Em 1960 a cooperativa iniciava a produção de seu grande Barbera.

Hoje, a Cooperativa Vinchio e Vaglio Serra, conta com 192 associados, quase 500 hectares de vinhedos, sendo que 75% são reservados às vinhas de Barbera.



“Descobri” o Barbera “I Tre Vescovi” nos anos 1990 quando um amigo jornalista, durante um almoço, em Canelli, ordenou uma garrafa.

Eram os anos do ressurgimento dos vinhos piemonteses que, “despertando” de um longo letargo, começavam a rivalizar com o domínio absoluto dos toscanos Chianti Brunello e cia....



Eram, também, os anos do Barolo, dos “Barolo Boys” e suas garrafas “parkerianas” mais próximas às marmeladas de frutas, sabor madeira e baunilha, do que ao verdadeiro Barolo.

Todos queriam navegar na onda de Parker e suas preferências para conquistar o mercado internacional, faturar alto, mesmo que as “concessões” significassem a desnaturação dos vinhos.



Lembro que, “vítima” da intensa propaganda, certa vez, também, saí à procura de um Barbera da “Spinetta” que ganhara todos os elogios, prêmios em inúmeras degustações, citações favoráveis e entusiastas de guias, entre elas “3 Bicchieri”, “Slow Wine” etc.

Quando o amigo jornalista ordenou o “I Tre Vescovi” comentei minha frenética corrida para encontrar e comprar a Barbera da “Spinetta”.



O amigo ouviu o meu relato e ao final suspirou e..... “Mais um bebedor de etiquetas...... Prove esta Barbera que custa menos da metade e é muito melhor”.

Após o primeiro gole.... morria, ali e então, a crença nos “profetas” do vinho e nascia a independência do meu paladar.



Continua

Bacco

PS. A pronúncia correta: Tre Véscovi

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

CAMPO LIGURE II

 

Acredito que a mais importante atração de Campo Ligure seja o “Museu da Filigrana”.

A filigrana é uma antiguíssima técnica de ourivesaria, difundida no mundo todo, mas com características próprias de cada escola.

Na Itália, a filigrana, já estava presente entre os etruscos e também na Roma imperial onde se produziram as primeiras joias obtidas exclusivamente em filigrana.

Uma visita é obrigatória e se as joias enfeitiçarem os olhos, e coçarem os bolsos, recomendo um endereço: “Filigranart”.



Impossível visitar todas as igrejas da Itália (há quase 65.000), mas há as que merecem uma parada.

Das 6 igrejas, de Campo Ligure, uma merece particular atenção: “Oratorio N.S Assunta”.



Bem aos pês da escadaria que leva ao castelo, o “Oratorio N.S. Assunta” não atrai a atenção do turista que, ao ver sua “pobre” fachada, não pode imaginar que a pequena igreja guarda algumas obras de arte de rara beleza e valor.

Já ao entrar no “Oratorio” um enorme e belíssimo crucifixo, prateado e dourado, chama a tenção.



Estes preciosos crucifixos, na Itália, abrem as procissões mais importantes.

O interessante é que estas cruzes, durante todo o percurso da manifestação, são carregadas por vigorosos fieis que a cada 50-100 metros (mais seria impossível, pois o peso dos crucifixos supera os 100/130 kg) as repassam a um colega descansado



À direita, um belo conjunto de escultura em madeira representa a lapidação de Santo Estevão.




A mais impressionante obra de arte está um pouco mais adiante: Uma incrível escultura, em madeira, que representa o Cristo crucificado.

O interior da igreja é de deixar boquiaberto até o mais exigente turista.



Após do elevar o espírito é chegada a hora satisfazer o corpo, sentidos, paladar, estomago......

Depois de um calmo e relaxante passeio pela aldeia, percorrendo suas calmas ruelas medievais, desembocamos na praça principal bem na hora do aperitivo do meio dia.

Na esquina da praça, um endereço imperdível: “Bar Moderno”.

Incrível!

Em uma aldeia de 3.000 habitantes, perdida no meio dos Apeninos lígures, o bar bonito, elegante, acolhedor e com uma carta de vinhos de fazer cair o queixo, é a melhor escolha.



O “Bar Moderno” é o exemplo clássico da importância que se dá ao vinho na cultura italiana.

No “Bar Moderno” dezenas de etiquetas de tintos, brancos, rosés, espumantes, podem ser degustadas em taças

Difícil é decidir entre Barolo, Barbaresco, Brunello, Barbera, Gavi, Franciacorta, Alta Langa, Amarone, etc. etc.

Giorgia, proprietária e competente sommelier, com simpatia e profissionalismo chega para ajudar e..... “Dia frio, nublado, triste...Para alegrar recomendo um belo Barbera D’Asti da vinícola Scarpa”.



Sugestão perfeita e acatada com entusiasmo.

Uma taça da ótima Barbera, do tradicional produtor de Nizza Monferrato e um pratinho de tira-gostos (salame, presunto, queijo grissini) me aliviaram em 3,5 Euros.

A qualidade da Barbera Scarpa, o ambiente e o preço me “obrigaram” a repetir a dose.



Enquanto bebericava a segunda taça de Barbera e me divertia com as conversas dos clientes, peguei o celular e resolvi fazer algumas contas: Com seu salário mínimo (1.500 Euros), um trabalhador de Campo Ligure poderia beber, se conseguisse, 428 taças de Barbera Scarpa por mês.

O José Souza, bravo trabalhados e morador de Ceilândia (DF), com seus R$ 1.212, poderia beber, no máximo 81 taças da deplorável Barbera Perini.



Qual o cálculo?

Uma garrafa da quase-Barbera Perini custa R$ 70.

Cada garrafa equivale a seis taças.

Cada taça custa, para o dono do bar R$ 11,60

Para obter algum lucro o comerciante precisa vender, no mínimo, uma taça, da deplorável Barbera Perini por R$ 18.

Resultado: Se o paladar do José Souza for de epóxi ou engolidor de fogo, ele conseguirá beber 67 taças por mês.



 Utilizando os mesmos cálculos, aplicados ao quase-Barbera-Perini, o José Souza, com seu salário poderá entornar apenas e ainda bem, 25 taças “ Pireneus Bandeiras Barbera”.

Escrevi “apenas e ainda bem” por duas razoes:

 1ª- o “Pireneus Bandeiras Barbera” é um insulto à casta piemontesa.

 2ª – Barbera goiana com 16º é um insulto à inteligência de qualquer enófilo com mais de 4 neurônios.

Analisando os cálculos acima dá para perceber quando o Brasil será um importante mercado vinícola?

Hora de almoço pedi informação e Giorgia indicou um restaurante na mesma rua: “Vigos 2.0”.

Local simples, comida boa e preço mais que honesto.



Flan de espinafre com fondue, peito de peru recheado ao forno com ervilhas, ½ garrafa de Barbera “I Tre Vescovi” (Três Bispos) = Euro 20.



Campo Ligure, bela e cativante aldeia.... Não perca.

Na próxima matéria escreverei sobre a Barbera “I Tre Vescovi” de Vinchio e Vaglio Serra.

Bacco

 

 

 

 

 

 

.