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domingo, 16 de janeiro de 2022

SE FICAR O BICHO COME II

 


Bebi meu primeiro “Etna Bianco”, se não falha a memória, em 2006, como de costume, na casa de Bacco.

O “Etna”, na ocasião, era um “Pietramarina” da vinícola Benanti.

Bacco, comentou o Pietramarina

“O Marco, do Nanin, tirou da cartola uma garrafa como esta. Quando provei fiquei boquiaberto. Um grande vinho! Tão grande que comprei, apesar dos salgados 22 Euros, seis garrafas”.

Explicando: Marco é o proprietário, chef e sommelier, do restaurante Nanin de Chiavari.

Marco, um dos maiores entendedores de vinho que conheço, nunca erra uma e o “Pietramarina” era apenas mais uma de suas surpreendentes “descobertas”.

Bons tempos aqueles quando, ainda, podíamos levar para casa uma garrafa do “Etna Bianco” da Benanti por humanos e razoáveis 22 Euros.

Hoje a mesmíssima garrafa de “Pietramarina” somente entrega seus alcoólicos encantos por salgados 85/100 Euros.

O que aconteceu?

Os predadores-produtores chegaram!

Gaja, Farinetti (Eataly), Giovanni Rosso, Marco de Grazia (Tenuta dele Terre Nere), Planeta, San Gregorio, Donnafugata, Tasca D’Almerita, etc., farejaram as encostas do Etna e perceberam a possibilidade de um novo “Eldorado” vinícola.

 No Etna os predadores perceberam que poderiam produzir bons vinhos.

 As condições eram as melhores possíveis: terras baratas, os pequenos produtores eram facilmente “convencíveis” a vender suas vinhas e com a ajuda das costumeiras canetas de aluguel, críticos venais, influenciadores de plantão e um bom marketing, o investimento poderia retornar rapidamente.

Bingo!

Um hectare, de vinhas vulcânicas, que há 15 anos custava 10/15 mil Euros, graças aos investidores-predadores, em 2021 já ninguém o vendia por menos de 150/200 mil Euros.

A “invasão” começou...

Gaja, que entrou pelo cano com sua “aventura” Toscana, quer esquecer a “Ca’ Marcada” e faturar alto na Sicília produzindo o “Idda” em parceria com Alberto Aiello Graci.

Farinetti (Eataly) que já comprou, entre outras vinícolas, Fontanafredda, Borgogno, Vigne di Zamò, Serafini & Vidotto, Il Colombaio del Cencio, ataca na Sicília e entra de sócio com o produtor local, Francesco Tornatore e (a)funda a “Tenuta Carranco”.

Por falar em Farinetti o empresário conseguiu transformar uma ótima Barbera em tremenda bosta: A Barbera Borgogno

 A Barbera Borgogno-Farinetti só não é pior do que aquele insulto à casta que a Perini teima em comercializar.

Davide Rosso (Giovanni Rosso), modestíssimo produtor de Serralunga D’Alba que, graças a milhares de garrafas de Barolo, deixadas em herança, por seu primo em 2º grau, Tommaso Canale, que as vendia por 7/10 Euro e que ele vende por 350/500 Euros, virou uma promissora vedete vinícola e predador de primeira linha.

Davide sentiu o cheiro de bons e rápidos lucros e se mandou para a província de Catania.

 Marco de Grazia, que fez fortuna nos EUA importando vinhos, fundou a “Tenuta dele Terre Nere" e desponta como grande promessa no mundo dos predadores.


Quem entra, como de costume, pelo cano?

Nos, os consumidores

Alguns exemplos de preços praticados em 2007 e em 2021

“Etna Bianco Pietramarina Benanti” 23/30 Euros em 2007 – 80/100 Euros em 2021

“Etna Branco Graci” 20/26

 O mesmíssimo vinho, mas ostentando a etiqueta “Idda” custa 35/38 Euros.

Para quem não sabe, “Idda” é a etiqueta do vinho Gaja- Graci.

A etiqueta deve ter sido banhada nas águas de Lourdes, Ganges, Jordão ou em outras fontes milagrosas qualquer, pois no exato momento em que é colada na garrafa, que custava 20 Euros, voa para o paraíso dos predadores e seu preço, acrescido em não insignificantes 75%, passa para 35 Euros.

Não há saída? Não há escapatória?

Há!

Algumas delas: Mandar solenemente à merda grandes, renomados, badalados etc. produtores, mandar ao mesmíssimo endereço críticos, revistas, influenciadores, Vivino e similares, migrar para o Google, ou seguir algumas dicas de B&B.


Em rápida pesquisa, no Google, será fácil encontra pequenos e validos produtores.

As dicas de B&B:  Cantina Ayunta, Cantina Murgo, Cantina Vivera, Tenuta Monte Gorna, Azienda Falcone.

Bons produtores que não estuprarão seu cartão.

Mas é bom correr, pois os predadores não brincam em serviço e em poucos anos é bem provável que os preços, de todos os vinhos do Etna, alcancem a estratosfera.


Falando sério.... “Pietramarina Benanti” 85 /105 Euros?

Prefiro comprar um “Chablis Grand Cru les Blanchot” e com o que sobrar adquirir um estupendo Lessona Sella que nada deve aos melhores “Etna Rosso”.

Chablis Grand Cru Blanchot 2008 - Daniel-Etienne Defaix

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La bouteille

Boicotar os predadores é preciso, ser eno-tonto não é preciso

Dionísio

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

SE FICAR O BICHO COME....

 


....Se correr o bicho pega”

A vida do enófilo e do consumidor atento, não é fácil: Uma eterna luta entre nós, os apreciadores de vinho e os empresários-predadores-engarrafadores.

  Não estou incluindo, no rol dos predadores, os verdadeiros viticultores, aqueles que realmente vivem das vinhas e pelas vinhas, aqueles que se dedicam às parreiras desde o plantio até a vinificação.

Esta é a categoria responsável pelas boas e acessíveis garrafas que ainda podemos comprar e degustar.

Os predadores são aqueles que farejam e investem pesado em bons negócios, boas oportunidades e estão pouco se lixando com território, tradição, cultura, qualidade, originalidade, do vinho.

Para eles tanto faz investir em vinhos, fabricas de cuecas, restaurantes, hospitais, aviação, sardinhas em lata, perfumes etc. é tudo e somente uma questão de oportunismo, faturamento, lucro.

Deu grana?

Vou nessa!

O clássico exemplo é o grupo LVMH que estende seus tentáculos no mundo dos vinhos, alcoólicos, modas, joalherias, revistas, jornais, hotéis, shoppings e todos os segmentos em que se possa lucrar “abusivamente”.


Não concorda com o “abusivamente”?

 Vá, então, até ao “Le Bon Marché Rive Gauche” e não se sinta, ”abusado” quando lhe pedirem 990 Euros (quase R$ 6.500) por uma garrafa de “Cognac Hennessy Paradis”.

Cognac Hennessy Paradis

Hennessy

990,00 €

O grupo LVMH é apenas um entre as centenas de predadores que habitam o submundo do vinho e que atentos espreitam todas as oportunidades para tomar o dinheiro dos incautos.

Mais uma lengalenga sobre os preços dos vinhos?

Sim!

Depois das matérias “Os Zé Manés”, em que Bacco esculhamba os preços dos vinhos da toscana Maremma, chegou minha vez e hora de comentar e prever o que acontecerá com duas ótimas denominações sicilianas: “Etna Rosso” e “Etna Bianco”

Antes de dar os nomes, dos predadores de plantão, criticar e prever o que acontecerá nos próximos anos, com os vinhos do vulcão, é preciso conhecer um pouco do passado.  

A história do vinho, nas encostas do Etna, é muito antiga.

 Acredita-se que na Sicília já havia, muito antes da chegada dos gregos, videiras que cresciam espontaneamente.

Os helênicos, provavelmente no VIII século A.C, introduziram o plantio, a poda, a seleção de das variedades e revolucionaram o costume local de deixar que apenas a natureza cuidasse das vinhas.


Os gregos lançaram as bases da futura riqueza enológica da Sicília.

As uvas cultivadas, nas terras vulcânicas de Etna, doam vinhos (brancos e tintos) extraordinários que podem ser considerados os melhores da região e não temem comparações com os mais badalados de toda e Itália.

Os vinhos produzidos, nas encostas do maior (3.300 metros) e mais ativo vulcão de Europa, já eram conhecidos e reconhecidos, por seu de potencial de rara qualidade, em 1500.

Há anotações, de 1700, que documentam a extraordinária expansão da viticultura na região, mas foi somente em 1800 que o prestígio dos vinhos locais cresceu.

Nesta mesma época, nas encostas do Etna, a área de vinhedos cobria 8.000 hectares (hoje se limita a 1.200 hectares).

A filoxera se encarregou de “dizimar” os vinhedos que foram substituídos por plantações de limões e laranjas.

Apesar da qualidade e do potencial, durante muitos anos os vinhos sicilianos (e de outras regiões do Sul) foram utilizados, para “corrigir” safras ruins, doar mais corpo, estrutura e álcool aos vinhos da França e do Norte da Itália. 


Mas isso é passado…O presente é mais embaixo.

Os pouco mais de 140 produtores, das duas denominações, souberam aproveitar as raras condições climáticas e de solo, que o Etna lhes doou e alcançaram um quase milagre: Vinificando, as autóctones “Carricante”,Nerello Mascalese” e “Nerello Cappuccio”, conseguiram realizar vinhos que conquistaram os paladares mais exigentes, não só da Itália, mas do mundo todo.

Mas, há sempre um, “mas”.... A ascensão, dos vinhos do Etna, despertou do letargo os oportunistas e predadores de sempre que já iniciaram a corrida para as encostas do vulcão e …salve-se quem puder.

Continua

Dionísio

 

 

 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

LINGUADO COM CANELA

 

Santa Margherita não exatamente uma cidade que deve ser considerada um paraíso gastronômico.

Eminentemente turística, onde proprietários de bares e restaurantes sabem perfeitamente que 90%, ou mais, dos clientes, de hoje, não voltarão tão cedo, praticam preços estrelares, pratos nada originais, banais, redundantes.

“Trenette al Pesto”, “Fritto Misto”, Spaghetti alle Vongole”, “Pesce ala Ligure”, Insalata di Mare”, ”Pansoti in Salsa di Noci”, “Torta di Verdure”, “Torta Pasqualina” etc. são receitas presentes em todos os cardápios de todos os restaurantes ou “trattorie”.

Quem quiser “fugir” do óbvio será condenado a estuprar o cartão nos restaurantes da moda, cujas cozinhas nem sempre justificam os preços vitaminados.


Algumas exceções, há: “Reve Cafè”, “La Insolita Zuppa”, “Beppe Achilli” e “L’Approdo”.

De todos, os elencados, a cozinha mais elaborada, refinada é, sem dúvida aquela do “L’Approdo”.

No restaurante, de Felice Bianchi, não espere encontrar pratos que mais parecem pinturas de renomados artistas; Felice é um cozinheiro que sabe, como poucos e com rara maestria, preparar pratos clássicos da cozinha lígure e internacional.

Insuperáveis seus “Polpo e Patate”, “Lasagne al Pesto”, “Risotto all’Astice”, “Brodetto di Vongole ”, “Cozze Gratinate”, “Sogliola allo Champagne” e finalmente, “Sogliola al Burro e Cannella” (Polvo com Batatas, Lasanhas al Pesto, Risotto com Lagosta, Caldinho de Amêijoas, Mariscos Gratinados, Linguado ao Champagne, Linguado com manteiga e canela)

O ambiente é démodé, triste, quase fúnebre, mas a cozinha, de Felice, acorda até defuntos.

Um dos pratos, cuja extrema simplicidade sempre me impressionou e provei inúmeras vezes: “Sogliola al Burro e Cannella”.

 Uma, duas, três …. Depois da quarta prova, respirei fundo e lá fui para a cozinha enfrentar o peixe, a manteiga e a canela.

Bingo! Acertei em cheio.

A RECEITA PARA 4 PESSOAS

4 filés de linguados (se não encontrar não tenha receio em substitui-los pelas mais modestas tilápias ou trutas)

Manteiga, 4 colherinhas (café) de canela, ½ limão siciliano, ½ copo de vinho branco, farinha de trigo.

PREPARO

Enxugue bem os filés, passe-os na farinha de trigo e retire o excesso.

Em um frigideira adicione 3 colheres de manteiga e derreta em fogo baixo

Quando a manteiga estiver derretida adicione metade da canela e misture bem.

Em seguida comece a fritar, sempre em fogo baixo, os filés de peixe.

Após 2 minutos vire os filés, adicione o suco do limão, sal, vinho e o restante da canela.

Frite por mais alguns minutos, até a evaporação do vinho, regule o sal e sirva

Beber?

Se sobrou um belo espumante rosé, das festas de final de ano, não perca a ocasião e ..... Cin Cin.


Bacco



domingo, 2 de janeiro de 2022

A MASSAGEM DE 30 MINUTOS

 

Os jornalistas, nos últimos dias do ano e todos os anos, procuram desesperadamente assuntos interessantes para atrair a atenção dos leitores, mas o período de festas sempre é avaro em oferecer manchetes de impacto; parece que o mundo faz uma pausa e entra no “modo-bondade-natalina”.

 Faltam notícias impactantes.

 Há apenas fotos com cascatas de luzes, de gente sorridente e apressada entrando e saindo de lojas, de milhares de “Papais Noéis” com o saco cheio (o nosso também...) de inexistentes presentes e de pessoas com meigos olhares que tentam, inútil e falsamente, transmitir paz espiritual e natalina bondade; falsos sentimentos que se esgarçam pontualmente no dia 3 de janeiro.

 O que resta?

Notícias da pandemia, chuva na Bahia, calamidade que desperta a costumeira e bondosa solidariedade televisiva, esperanças de um novo ano melhor e ....encher linguiça, exatamente como estou fazendo.

No enfadonho marasmo, de final de ano, uma matéria no jornal italiano, “Il Giornale”, chamou minha atenção: Quanto custa um jantar, em 31 de dezembro, nos restaurantes estrelados da Itália?

Para a grande ocasião os renomados chefes da Bota abandonaram, por algumas horas, as câmeras televisivas e estão de volta às panelas.

“Volta às Panelas” é um eufemismo que encontrei para substituir os palavrões que gostaria de escrever sobre o que realmente penso dos “chefes-stars-tevê” que, ao retornarem esporadicamente para suas cozinhas, já nem recordam como preparar uma boa omelete.

Mas o mundo é cheio de idiotas abonados que não se importam, por exemplo, em viajar até Bolonha e sorridentes detonarem 130 Euros (R$ 832 sem vinho) para comer no bistrô “Fourghetti”, de Bruno Barbieri, um dos “juízes do “Master Chef” italiano.

Não sei como e quando Barbieri encontra tempo e se ainda recorda o endereço de seu “bistrô”, pois, além do “Master Chef”, ele pilota mais dois programas televisivos.

Carlo Cracco, colega de Barbieri, no “Master Chef”, também percorre a Itália, de norte a sul, com seu programa de televisão “Dinner Club”, comanda as panelas (será?) do restaurante “Pitosforo”, em Portofino e ainda encontra tempo (será) para “cozinhar” no “Bistrô” e no “Ristorante Cracco”, ambos na “Galeria Vittorio Emanuelle” no centro de Milão.

O jantar, de fim de ano, no “Bistrô” do Cracco, custa módicos 170 Euros (R$ 1.088 sem vinho).


Caso o cartão, do abonado-abobado, seja da  rara e exclusiva série “insensível à dor”, o gourmet poderá jantar, no restaurante “Cracco” e torrar módicos 450 Euros (R$ 2.880 sem vinho) ou 650 Euros (R$ 4.160) com vinhos escolhidos pelos sommeliers da casa.

Fugindo das grandes cidades, à procura de paz e preços mais humanos, os proprietários de “cartões-sem-traumas” podem visitar a belíssima aldeia piemontesa, Orta San Giulio, e se hospedar no hotel “Villa Crespi”.


No exclusivo “Villa Crespi”, traumatizante monumento estilo “mourisco-kitsch”, o abonado-abobado deverá desembolsar 1.348,50 Euros (R$ 8.630,40) por três noites de sonho ou pesadelo (depende da companhia...).

Caso o sortudo e recheado turista, no dia 31 de dezembro 2021, queira cear no restaurante 2* Michelin, do televisivo e rotundo chef, Antonino Cannavacciuolo, será aliviado em razoáveis 350 Euros (R$ 2.240 sem vinho) por pessoa.

Ia esquecendo: no preço da diária do hotel estão incluídos: café da manhã no quarto e uma massagem de 30 minutos.

Não há informação em qual parte do corpo é realizada a massagem de meia hora, mas pelos preços cobrados não é difícil imaginar o local mais traumatizado.


Para as carteiras afortunadas-recheadas-abastadas, mas que detestam “chefes-stars-tevê”, há, em Modena, uma opção interessante: O 3* Michelin “Osteria Francescana” de Massimo Bottura.

Bottura, que detesta televisão, mas adora cartões-alienados, somente entrega suas especialidades culinária por 1.000 Euros (R$ 6.400) vinhos, ainda bem, inclusos.


Se você acha que o cachê do Bottura é um pouco exagerado não deverá caminhar pela rua Alberto Cadiolo, em Roma.

Transitando, pela mencionada rua romana, quando encontrar o nº 101, você poderá sentir um incontrolável desejo de entrar no “Rome Cavalieri Waldorf Astoria”, pegar o elevador até o último andar e desembocar no “Pergola” o 3* Michelin do chef Heinz Beck.


Nosso teutônico cozinheiro não brinca em serviço e somente entrega seu menu, de final de ano, por hiperbólicos 1.300 Euros (R$ 8.320) vinho incluso.

Escrevi a matéria nos primeiros dias de 2022 para não despertar desejos incontroláveis nos cartões, sem limites e sem pudor, que flutuam diariamente, alegres e impunes, pela praça dos três poderes de Brasília.


Feliz 2022, mas sem brindar com os vinhos nacionais exportados para o Paraguai e Haiti ...... é caganeira na certa

 


Dionísio.