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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

......E O BAROLO VENCEU - 2

 

Continuo a matéria “ …. E o Barolo Venceu” afirmando que é sempre o dinheiro e não a melhoria da qualidade, que motiva os produtores a tentarem modificar este ou aquele disciplinar.

São sempre os vinhos importantes que sofrem os “ataques” dos predadores: Vinhos populares, baratos, do dia-dia, não dão “ibope” nem podem ser supervalorizados.



É sempre é bom lembrar que a mesma tentativa, de modificar a vinificação e modernizar o Barolo, ocorreu, em 2008, com o Brunello di Montalcino quando meia dúzia de picaretas foram pegos, pelos controles da província de Siena, ao adicionarem   Cabernet Sauvignon e Merlot ao Sangiovese Grosso.


Os nomes dos denunciados pelo MP italiano?

Antinori, Argiano, Banfi, Casanova di Neri e Frescobaldi

O motivo e desejo é o de sempre: Encurtar os tempos para que o vinho esteja “pronto” para beber, agradar os paladares “internacionais”, aumentar a produção e rentabilidade.

Brunello e Barolo precisam de “seus tempos” para poder revelar todo o potencial, alcançar toda a excelência de seus refinados aromas e revelar sua proverbial elegância.

Não são vinhos imediatos para imediatistas.

O tempo e a tradição venceram: os “modernistas”, atropelados pelas mudanças na preferência e gosto dos consumidores e com a aposentadoria da moda “parkeriana”, já não fazem sucesso.

Tive mais uma prova, de que o Barolo tradicional havia vencido, semana passada, quando, mais uma vez, visitei o incrível e ótimo wine bar e restaurante “Le Case Della Saracca” em Monforte D’Alba.


Visitar a região de Alba e não conhecer o centro medieval de Monforte, seu charme, seus bares e restaurantes, é um verdadeiro pecado.


Vielas estreitas e silenciosas, casas seculares, agrupadas em posição de vigília e defesa, ângulos surpreendentes, característicos e envolvidos por aura misteriosa…uma festa para os olhos e imaginação.

É neste ambiente fantástico que encontramos, a não menos fantástica, “Le Case Della Saracca”.


No começo da tarde, um aperitivo no bar do “Le Case...” é imperdível.

Incrível variedade de espumantes Alta Langa, Trento, Franciacorta, mais de trinta etiquetas de Champagne, vinhos brancos de todas as partes da Itália, dezenas de etiquetas francesa, uma soberba seleção de Barolo, Barbaresco, Nebbiolo, Barbera etc. chegam a confundir e inibir a escolha.

Antes do jantar optamos por beber duas taças de Champagne.

Ambiente alegre que “afoga” o COVID em taças e taças de bom vinho...

Mais duas taças de Champagne, mesa reservada, pratos escolhidos...


Chegou a hora do vinho.

Optamos por um Barolo e como de costume, pedi a indicação à garçonete recomendando: “um Barolo tradicional...”

 A moça pediu licença e retornou com Giulio Perin, proprietário do local, que trazia em sua mão duas garrafas.

Apresentações feitas, elogios ao local e .... “Pensei em recomendar estes dois Barolo tradicionais, de pequenos produtores, que reputo bem acima da média. Eu, particularmente, indicaria este, de 2015, que está pronto para beber”.

Quem sou eu para discordar de Giulio Perin!

A escolha recaiu sobre o “Barolo Briccolina” da vinícola Grasso Tiziano de Serralunga D’Alba



Garrafa aberta, taças ansiosas e..... lá fomos nos.

https://www.youtube.com/watch?v=F3EK7114mDM

Continua

Bacco





domingo, 5 de dezembro de 2021

......E O BAROLO VENCEU

 


Quem acredita que somente o Dolcetto tenha “penado”, na mão dos produtores piemonteses, está redondamente enganado.

 O Barolo foi outra “quase vítima” da ganância e estupidez de muitos “Barolistas” que optaram por se entregar, de corpo e barrique, à moda “internacional parkeriana” apostando que, ao modernizar o Barolo, fariam história .... e grana.

As tentativas não foram poucas, nem leves e os “modernistas” quase conseguiram soterrar a tradição do grande vinho italiano e atirá-lo aos tentáculos da “modernização”.

Já nos anos 1990, mais precisamente em 1996 e 1999, Gaja, acreditando que seu nome era mais importante, mais forte, do que as DOCG Barolo e Barbaresco, resolveu "abandonar" as duas denominações e “rebaixar” seus vinhos para a bem mais modesta “ DOC Langhe Nebbiolo”.

Pecado de soberba e erro de marketing.


Manteve, nas etiquetas, os nomes dos crus Sperss, Costa Russi, Sorì Tildin, Sorì San Lorenzo, mas abandonou a vinificação, demasiadamente rígida do Barolo e Barbaresco (100% Nebbiolo da Barolo) e resolveu adicionar as uvas “francesas” que há tempo e misteriosamente, habitavam alguns filares de suas vinhas.

Cabernet Sauvignon, Syrah, Merlot, Petit Verdot etc., além da Nebbiolo e Barbera, entraram gloriosas nas garrafas de Gaja e permaneceram até 2013 quando Gaja constatou que o peso das DOCG Barolo e Barbaresco era maior e mais importante do que suas etiquetas e seus vinhos “afrancesados”.

Vinhos, por sinal, que já não empolgavam, como antes, os enófilos abonados e abobados.

Gaja não se deu por vencido e continuo sua aventura “parkeriana” na Maremma.

Outra aventura azarada: lá encontrou os nobres e seculares viticultores toscanos que eram tão expertos, ou mais do que ele.

Resultado: e seus vinhos nunca conseguiram fazer sombra ao Ornellaia, Sassicaia, Solaia, Masseto etc.


A volta do “Gaja Arlindo-Orlando-Farol-Baixo-Para-Choque-Duro” sob as asas protetoras das denominações, Barolo e Barbaresco, sepultou todas as tentativas de modificar o disciplinar.

Sepultou?

 Nem pensar!

Quase dez anos antes, Elio Altare, começara mais uma “guerra” contra o Barolo tradicional: em 1983, destruiu, com uma motosserra, os toneis de carvalho de Eslavônia, da adega de seu pai e os substituiu pelas barriques francesa.


Nascia uma aventura, denominada “Barolo Boys”, que pretendia transformar o Barolo em um vinho francês, usando e abusando, entre outas coisas, da barrique, modificando radicalmente a maceração, fermentação e doando, ao vinho piemontês, sabores e aromas de baunilha, chocolate, café.... Barolo-Fruit-Bomb

Os “Barolo Boys” ou modernistas, como queiram, respondiam, entre outros, pelos nomes de Elio Altare, Chiara Boschis, Giorgio Rivetti, Luciano Sandrone, Roberto Voerzio, Domenico Clerico.


Fizeram barulho e durante algum tempo, obtiveram sucesso (grana), garças ao Parker, ao mercado americano, aos crtitico$ e aos que de Barolo nunca entenderam bosta nenhuma.

“O Barolo deve realçar o caráter do Nebbiolo e evoluir com elegância”

Palavras que soterram o Barolo superconcentrado, mais parecido com um sorvete, em casquina de madeira, sabor baunilha, café e chocolate.

A tradição e o bom senso venceram e salvaram o Barolo da tentativa de transformá-lo em um novo Frankenstein vinícola.

Continua

Bacco

 

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

A VOLTA DO VERDADEIRO DOLCETTO

 

 

Não deu outra!

A insanidade, de muitos, em querer usar a barrique (ou adicionar chips de madeira na vinificação), exagerar na gradação alcoólica, na concentração, tentar transformar, na marra, o Dolcetto em mais um “parkeriano” de meia tigela, em pouco tempo fez despencar as vendas do vinho piemontês.


Uma pequena pausa para informação: Muitos acreditam, assim como a “Gretina Cretina”, que a “mudança climática” é culpada pela alta gradação dos vinhos, mas o vetusto “concentrador” e a moderna “osmose reversa” são os reais “vilões” da história.


A crise chegou a tal ponto que o “Dolcetto di Dogliani”, para tentar “apagar” a má lembrança, da insana aventura “internacional”, retirou até “Dolcetto” da denominação.

Hoje as etiquetas ostentam apenas “DOGLIANI DOCG” e “DOGLIANI DOCG SUPERIORE”, mas apesar das inúmeras tentativas o Dolcetto não conseguiu retornar aos tempos áureos quando era, com o Barbera, o vinho mais consumido no Piemonte.


A crise foi tão grande que, há alguns anos, muitos produtores, para se livrarem dos estoques, para cada garrafa de Barolo ou Barbaresco vendida doavam uma de Dolcetto.

Eu mesmo deixei de beber Dolcetto e nem lembro quando pedi a última garrafa em um restaurante.

Porém, nem tudo está perdido.....

Semana passada, Enrico Valle, jovem e dinâmico proprietário da “Vineria Macchiavello”, em Santa Margherita, antes de servir a costumeira taça de Champagne “Jean Vesselle” me ofereceu um copo de tinto e “ordenou”: “Prove este Dolcetto”


Aleluia! Aleluia!

A cor, os aromas e o sabor, trouxeram imediatamente à minha memória o Dolcetto d’antan.

Pedi para ver a garrafa e.....

Milagre, milagre, milagre!

Apenas 12,5º

A razão havia voltado às mentes dos produtores.

O Dolcetto “Abrigo” é brilhante na cor, os aromas são caraterísticos, no paladar é limpo, aveludado, com uma interessante e agradável “veia” seca e doa longa permanência ao paladar.

Ao verificar a ficha técnica do Dolcetto Abrigo não pude esconder um franco sorriso:

 VINIFICAZIONE: Vinificazione in vasche di acciaio termo condizionate con macerazione della durata media di circa 5 giorni, a seconda del vigneto e dell’annata

(VINIFICAÇÃO: Vinificação em tanques de aço termo condicionados com maceração média de 5 dias, conforme o vinhedo e safra.)

E continuou....

AFFINAMENTO: Semplice sosta in vasche di acciaio fino alla primavera successiva alla vendemmia. Imbottigliato generalmente in primavera.

(AFINAMENTO: Simples permanência em tanques de aço até à primavera após a vindima. Engarrafado geralmente na primavera)

A razão voltou e o Dolcetto retornou às origens.


A escalada, para atingir o antigo sucesso, não será fácil, tranquila, mas é bom perceber que as picaretagens vinícolas não sobrevivem para sempre.

Parker se aposentou, ainda bem, e o Dolcetto retornou

Viva o Dolcetto


Bacco

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

DOLCETTO 3

 


Nunca escondi minha convicção de que crítico$, revista$, influenciadore$ e similare$, pouco, ou nada, contribuíram para indicar etiquetas com isenção e melhorar os conhecimentos dos enófilos.

Na realidade mais crua eles sempre visaram garantir os próprios interesses (grana) e dos grandes, renomados e estrelares produtores que, de uma forma ou outra, sempre os financiaram.


O maior “destruidor” de paladares, dos últimos 30 anos, foi, sem dúvida, Robert Parker.

Parker foi o direto responsável pela horrenda moda dos vinhos “internacionais”, moda, que durante quase três décadas, torturou narizes e paladares de milhões seguidores em todos os cantos do mundo.


Já sei, já sei... serei sepultado por um tsunami de impropérios escritos, ou apenas pensados, mas é minha convicção: Eu não consigo endeusar, venerar e crer em alguém ao ponto de me sentir “obrigado” a seguir suas indicações, seus “pontos” e confiar cegamente em seus julgamentos.

Resumindo.... Tenho meu olfato, meu paladar, minhas experiências, minhas preferências, meus conceitos de qualidade e eles me bastam

 Parker e “filhotes” podem ir à.....


Mas o que tem a ver Parker com o Dolcetto?

Muito!

É preciso voltar no tempo, mais precisamente nos anos 1980 quando Giacomo Bologna (Braida) farejou que o “estilo Parker” teria sucesso.

Depois de uma viagem pela Borgonha, Bologna retorna a Rocchetta Tanaro, introduz a barrique na vinificação e lança o famoso Barbera “Bricco dell’Uccellone”.


Ajudado pela caneta magica de Luigi Veronelli, em pouco tempo o “Bricco dell’Uccellone” cria fama e alcança preço estrelares (até hoje, uma garrafa, custa 50 Euros).

O sucesso do Bricco dell’ Uccellone não passa despercebido e não são poucos os “barberistas” que tentam encontrar e seguir a mesma estrada.

Coppo, Voerzio, Rivetti, Prunotto, Bava e muitos outros partem para o ataque e o mercado é invadidos por Barbera com excesso de álcool, madeira e $$$$, para ninguém botar defeito.

Ao perceber que as garrafas de Barbera, dos vivaldinos acima mencionados, eram vendidas mais caras do que as de Barolo e Barbaresco, todos correram para seguir a onda e vinificar à moda Parker

Em pouco tempo um mar de tremendas bostas invadiu as prateleiras das enotecas e supermercados.

Tremendas bostas, mas que vendiam.....

A loucura parecia ter tomado conta de todos e todos queriam vinificar produtos que mais pareciam geleias super-alcoólicas em garrafas de madeiras.

Os produtores de Dolcetto, percebendo o “sucesso” das Barbera vitaminadas, resolveram que também deveriam seguir os mesmos caminhos e ..... tome doses cavalares de álcool, madeiras, concentração, cores impenetráveis etc. etc. etc.


Para que se tenha uma ideia, no final dos anos 1990, quando ainda acreditava que a Slow Food fosse coisa séria, viajei até Alba para participar de um dos primeiros “Cheese”.

O “Cheese” era um evento que pretendia apresentar queijos de diversas nações produtoras e, também, um festival eno-gastronômico onde era possível reservar jantares, pagos e bem pagos, em diversos restaurantes da região.

Cada restaurante apresentava seu cardápio e apenas um vinho para acompanha-lo.

Eu optei por um jantar, no finado restaurante “Belvedere” em La Morra, onde o Dolcetto era “estrela” do noite.

Mesa para oito pessoas de diversas nações: 4 japonese, 3 canadenses e eu.

Os vinhos, todos Dolcetto e de vários produtores, enfeitavam as mesas dos sempre mais alegres convivas.

Com os canadenses conseguia me comunicar através de meu macarrônico inglês, mas com os japoneses…Bem, deles aprendi que saúde, cin cin, cheers etc., em japonês, se pronuncia “kampai”.


A alegria e as vozes atingiram altíssimo decibéis em pouco tempo.

Desconfiado com o volume excessivo das vozes, verifiquei a etiqueta do Dolcetto di Dogliani, da vinícola Marziano Abbona, que estávamos bebendo.

Quase caí da cadeira....15º de álcool!

Assustado, incrédulo olhei as etiquetas das outras garrafas que havíamos esvaziado.

Nenhuma delas apresentava gradação menor do que 14,5º.

Percebi, naquele instante, que os “pakerianos” haviam iniciado o funeral do Dolcetto.



Não deu outra...

Continua na próxima matéria. Mesa

Bacco