Nas décadas de 1970/80 o setor vinícola, através de propagandas
e marketings sofisticados, inteligentes e muito bem direcionados, conseguiu
convencer, os enófilos, de todos os cantos do planeta, que o vinho deveria
deixar ser o bom, simples e alegre companheiro dos almoços, jantares, das
festas, nos bares, com os amigos, para ingressar no refinado exclusivo mundo do
glamour, da moda.
O vinho deveria esquecer seu lado, simples, bonachão e barato,
para subir os degraus da fama, alcançar os olímpicos altares, onde deveria ser
reverenciado, idolatrado e respeitado, como nenhuma outra bebida jamais fora.
Nascia, então, o vinho-etiqueta, o vinho moda, o vinho status
e.....o vinho nunca mais seria o mesmo (será?).
Todos os enófilos foram “escravizados” por estrutura, corpo, acidez,
longo final, frutas maduras, cítricos, frutas vermelhas, framboesas, mirtilos,
amoras, flores brancas, vermelhas, do campo, camomila e centenas de outros
aromas que somente um cão de caça poderia identificar (o Beato Salu, um dos
maiores canastrôes do Brasil vinícola, conseguiu,
certa vez , encontrar, em uma taça de Haut-Brion “sabor de mel de estrebaria, ou seja,
geléias e licores de frutas em meio fumaça de charuto num fim de tarde ao lado
de um estábulo.”)
Sommeliers, enólogos e críticos, saiam do mais
escuro anonimato e em poucos anos começaram a ser reverenciados quase como se estelas
hollywoodianas fossem.
Ai de quem não cheirasse a rolha antes de servir o
precioso líquido
Ai de quem não girasse o copo inúmeras vezes para
verificar os arcos e gotas de “glicerina”.
Ai de quem não farejasse, demoradamente, a taça antes
de beber o vinho.
Ai de quem não encontrasse, logo após o primeiro gole,
os onipresentes, corpo, estrutura, acidez, taninos, aromas primários,
secundários, terciários, mineralidade, etc. etc. etc.
Éramos um bando de alienados e ridículos atores
mambembes que tentavam impressionar a plateia interpretando uma patética pantomima.
Eu, também, já fui um deles, mas, após longos anos
de alienação vinícola, três episódios me convenceram que já havia navegado
muito e “....lá chegara”.
Os três episódios?
Uma conversa com Massimo Martinelli
O preço de um Panda e de uma Ferrari.
A degustação de um Barolo e um Piagentini.
Bacco










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