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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

CHARDONNAY X PELAVERGA




"Vou erradicar as videiras de Chardonnay e plantar "Pelaverga"

A afirmação de Gian Alessandria me surpreendeu, afinal, é raro um viticultor se desfazer de vinhas produtivas e substituí-las por outras que somente serão economicamente viáveis após 4/5 anos.

Gian continuou: "Produzo pouco mais de 3.000 garrafas de Chardonnay e não vale a pena".

Fiquei quieto, mas achei que o Gian escondia o real motivo.
 

Antes de continuar quero lembrar que, outro grande viticultor, Josko Gravner, erradicou as castas "internacionais" de suas terras e implantou vinhedos com uvas autóctones.

Na ocasião um crítico feroz e contumaz escreveu um comentário sugerindo que Gravner estivesse se transformando em um bom velhinho gagá.
 

Não acredito que o Gravner "seja um bom velhinho e gagá", mas tenho certeza que Gian Alessandria, de gagá, nada tem.....

Se alguém, no final de 2016, quiser comprar algumas garrafas de Pelaverga 2015, do Alessandria, vai ter que rebolar: Gian já está com e estoque praticamente esgotado.

O outro lado da moeda..... Na adega do Gian repousam tranqüilas e poeirentas, caixas e caixas de Chardonnay 2013.
 

Um raciocínio simples e fácil: Para que insistir com Chardonnay, que ninguém quer, quando não consigue atender todos os pedidos de Pelaverga?

Bem vindo, Pelaverga....... Adeus, Chardonnay!

Aos poucos os viticultores das "Langhe" estão percebendo que as castas "internacionais" nada têm a ver com o território, ninguém as quer e nem por decreto conseguem alcançar preços que justifiquem sua presença nas colinas de Verduno, Castiglione Falletto, La Morra, Monforte, Serralunga, Barolo, Novello.........
 

Qual turista, sentado em um bar de Alba, pediria um Langhe Chardonnay?

Somente um retardado mental que, provavelmente, ordenaria, em um bar de Nuits Saint George, uma taça de Barbera.

Uma região, que produz alguns dos melhores tintos do planeta, Barolo e Barbaresco, não precisaria passar vergonha vinificando Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Merlot etc. de quinta categoria e que ninguém quer.
 

Há mais de 500 restaurantes no território, 15 dos quais ostentam estrelas Michelin.

 A gastronomia do Piemonte é uma das melhores da Itália e as cozinhas locais trabalham com pratos que "pedem" Barolo, Dolcetto, Barbaresco, Barolo, Nebbiolo e outros tintos locais.

 Que turista quadrúpede pediria um "Langhe Merlot" ou um "Langhe Chardonnay" no "Dai Bercau", "L'Antica Corona Reale", "La Cantinetta"...?
 
 

Alguém perguntaria, provavelmente quem chamou Gravner de "Velhinho Gagá": "Se os vinhos "internacionais" são tão ruins assim por que muitos viticultores implantaram vinhas?"

Minha opinião: 1º) Havia um movimento, "modernista", que pretendia tornar o Barolo mais "internacional".

 Nada melhor, então, do que um percentual de Merlot, Cabernet Sauvignon e muita barrique para conquistar o mercado parkeriano.

2º) Nem todo terreno é apto e nem obtém a permissão para o implante de vinhas de Nebbiolo da Barolo.

 Nada melhor, então, que, naquele terreno úmido, na parte mais baixa da colina, com exposição solar pouco adequada (norte), onde se plantavam batata, colocar algumas vinhas de Chardonnay, Merlot, Sauvignon.....
 

Resultado: Os Chardonnay & Cia, das Langhe, "fan cagare"!

Alguém dirá: "Mas o Gaja produz o Gaja e Rey que é ótimo"

Como o Gaja consegue é, para mim, um mistério (tenho minha tese...), mas o "Gaja e Ray" custa 150/180 Euros e leva pau de um Chablis Grand Cru que custa 1/4.
 

Antes que alguém argumente o contrário vou contar uma das minhas historinhas.

 Há alguns anos, o bar "La Brasilera", em Alba, estava servindo "Gaja e Rey" pelo "módico" preço de 12 Euros a taça.

Eram os dias em que os brasileiros acreditavam ter encontrado o paraíso, os dias do "Nunca antes na historia desse país....".
 

Meus Euros eram fáceis, baratos..... Bebi duas taças.

Bom vinho, mas não excepcional e... caro, muito caro.

No dia seguinte, já em Chamonix, a caminho da Borgonha, em um bar ordenei uma taça de Chablis Premier Cru (não lembro qual).

A lembrança do Gaja e Rey estava fresca na memória e enquanto bebericava o Chablis de 4 Euros eu sorria maliciosamente: Aquele Chablis era muito superior ao Gaja e Rey.
 

O Gian Alessandria faz muitíssimo bem em erradicar o Chardonnay e implantar o Pelaverga, afinal, Chardonnay todos tem (até o Brasil).
 

 O Pelaverga é produzido somente em Verduno, La Morra e Roddi, por apenas 10 viticultores e num total de pouco mais de 100 mil garrafas.

Viva o Pelaverga.

Bacco

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

BARBERA E CHAMPAGNE



 
 
 
 
Amanhã e domingo estarei em Agliano Terme para acompanhar o "Festival Barbera e Champagne".

O inusitado "casamento" reunirá, na pequena, cidade produtores de Barbera e pequenos viticultores de Champagne.

Degustações, almoços e jantares prometem.

Depois eu conto
Bacco

PERNO E SEUS RESTAURANTES





O Trick Advisor coloca Napa Valley como meta turística mais desejada e apreciada pelos eno-turistas.

Em segundo lugar, o Trick Advisor, premia as colinas do Chianti, na Toscana, como território vinícola mais interessante.

Eu sinto pelo Trick Advisor a mesma náusea que me provoca o Robert Parker, os parkerzinhos e seus pontos.
 
 

Mandei o Trick Advisor para a......  Napa Valley e resolvi passar alguns dias nas Langhe para acompanhar a vindima e rever amigos.

O hotel em que me hospedei durante muitos anos fechou as portas e precisei encontrar novo refúgio.

Perno!

Perno, pequeno distrito de Monforte d'Alba, localizado bem no cume da colina, é rodeado por um mar de vinhas.

As vinhas são famosas (Gramolere é uma delas), mas Perno, habitado por 80 pessoas e 800 cachorros, que não param de latir, não é conhecido por sua agitada vida noturna.
 

O outono, nas Langhe, encurta os dias e alongas as noites frias e enevoadas.

 As ruas de Perno, depois do escurecer e envoltas pela neblina, são tão animadas como às de um cemitério da Transilvânia.

Mas apesar da aparente desânimo há, na aldeia, cinco agroturismos, de razoável qualidade e dois restaurantes de indiscutível interesse: "La Repubblica di Perno" e "Arco dei Nobili".

A escolha de Perno, para pernoitar, se deveu, em grande parte, à "Repubblica di Perno".
 

O proprietário e chef do restaurante é um velho conhecido que comandava as panelas do "La Libera" de Alba e depois as caçarolas do premiado e estrelado "Il Boscareto" em Serralunga D'Alba.

Marco resolveu se "esconder" em Perno e tentar a sorte com seu "La Repubblica di Perno".

Parece que deu certo..... Tentei duas vezes reservar, mas sem sucesso; sempre lotado.

A terceira vez, quarta feira 28 de setembro, minha sorte não mudou: o restaurante não abre nas quartas e quintas feiras.

Sem outra opção caminhei, sem nenhum entusiasmo, pelas silenciosas ruas de Perno e me dirigi até o "Arco dei Nobili".
 

Incrivel!!!!

O restaurante é charme puro.

Localizado em um beco atrás do castelo de Perno (como tem castelo nas Langhe...), já na entrada, o "Arco dei Nobili" seduz o cliente.
 

A ruela charmosa e quieta é um convite às fotografias.

Pequeno, oito mesas, o "Arco dei Nobili" nos dias de calor e bom tempo, aumenta sua capacidade com uma varanda de onde se deslumbra um belo panorama das vinhas de Perno.
 

A cozinha é o ponto forte.

Os antepastos, que variam todos os dias, são ótimos, as massas primorosas, e o "Brasato al Barolo", que me foi servido como segundo prato, perfeito.
 

Elogiei tanto a cozinha que o proprietário, Gilberto, resolveu chamar a responsável pelos pratos.

Surpresa! A chef é minha amiga Dora que trabalhou por 15 anos no mítico "Dai Bercau" assessorando o grande Gianni Cauda.
 

Abraços, sorrisos, bom papo... Resultado voltei no dia seguinte para degustar os pratos da ótima cozinha do "Arco dei Nobili".
 

O "Arco dei Nobili" vale um desvio

Confira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

BAROLO MONVIGLIERO CONTINUA O MESMO



 


"Ainda não terminei a colheita da "Favorita". Meu filho está lhe esperando na adega e a gente se encontra no Bercau".
 
 

O telefonema de Gian Alessandria confirmava que visitar viticultores, em setembro e outubro, não é decisão muito inteligente.
 
 
 

Havia combinado encontrar o Gian em, sua vinícola, para comprar algumas garrafas de Pelaverga e de Barolo, bater um papo, tomar uma ou duas taças e depois almoçar.

A "Favorita" estragou meus planos.

Para quem não sabe, a "Favorita" é uma das três castas brancas autóctones do território (as outras são a Arneis e Nascetta).

Encontrei o Vittore Alessandria trabalhando na adega.
 

Apesar de atarefado, à espera da Favorita, me atendeu cordialmente.

"Quero seis garrafas de Pelaverga e dois magnum de Barolo Gramolere"

Vittore me olhou com ar intrigado e respondeu: "Não vai querer uma de Monvigliero? Você sempre preferiu o Monvigliero.....".

Era a minha oportunidade para perguntar ao Vittore qual a mudança que ele havia introduzido na vinificação do Monvigliero.

Duas explicações......

Primeira:

O Gian toma conta das vinhas, o irmão, Alessandro e o filho, Vittore, da adega e comercialização.

Gian relutou muito, mas acabou concordando em soltar as rédeas e deixar para a juventude (Vittore e Alessandro) a continuação do trabalho que ele havia implantado.
 

Vittore é igual ao pai. É apenas mais moderno e preparado para os novos tempos.

Vittore fala perfeitamente inglês, entende espanhol e francês, viaja, com desenvoltura, pelo mundo para "vender" suas garrafas.

 Gian fala piemontês e, quando estritamente necessário, o italiano, não gosta muito de viajar e prefere passear por suas vinhas.

Segunda:

O Monvigliero parece ser um dos Barolo preferidos do Robert Parker que não para de pontuá-lo e cada vez mais alto (e o Vittore não para de aumentar o preço.......)
 

O Parker lascou 96 pontos para o Monvigliero 2010 e os Alessandria viram seus estoques sumirem com velocidade meteórica.

Ano passado, Gian abriu uma garrafa de Monvigliero 2010 para acompanhar nosso papo e algumas fatias de salame.

Achei o Barolo muito "americano", meio adocicado, bem ao gosto do Parker.

 Não comentei o fato com o Alessandria, mas pensei: "Com o Monvigliero "sabor chocolate" Vittore começou a abrir as pernas para os americanos......" 
 

Voltando ao assunto....

Aproveitei o gancho e disparei: "Você mudou a vinificação do Monvigliero?"

Vittore me olhou com surpresa, respondeu negativamente e perguntou de onde eu havia tirado aquela idéia.

Comentei, então, o que acontecera quando bebi o Monvigliero 2010 com seu pai.

"Alguma coisa está errada..... talvez uma garrafa com problema..... Não mudamos uma vírgula na vinificação".

Inconformado Vittore insistiu e me ofereceu uma taça de Monvigliero 2012 que abrira para uma degustação na noite anterior.

Grande vinho!
 
 

Era o velho e bom Monvigliero com todas suas importantes características, seus taninos elegantes, seus perfumes complexos e seu final interminável.
 

No final da conversa e da degustação, uma das magnum de Gramolere foi substituída por outra de Monvigliero.

Os Alessandria continuam, ainda bem, trilhando o mesmo e tradicional caminho e produzindo grandes Barolo, Barbera, Dolcetto, Pelaverga, Nebbiolo......

Na próxima tem mais Piemonte

Bacco