Facebook


Pesquisar no blog

terça-feira, 10 de setembro de 2013

DENT DE CHIEN - FINAL


 


 Refeito e descansado abri a janela....Dia esplendoroso.

Uma rápida taça de café com leite, um suco, uma fruta e já estava pronto para “caçar” meu “Dent de Chien”.

Algumas centenas de metros, apenas, separam o B&B de Maria Adão dos Grands Crus.

 Decidi esquecer o carro e percorrer, caminhando, as estradas que atravessam os míticos vinhedos, conhecer o “Dent de Chien” e almoçar em Chassagne-Montrachet.
 

  Saindo do B&B em menos de 200 metros alcancei uma pequena praça.

Bem no meio da pracinha uma placa com desenhos de todos os Premiers e Grands Crus de Puligny Montrachet, é a primeira etapa que merece uma parada demorada.

Quem não domina bem a região deve obrigatoriamente parar no local, consultar demoradamente os mapas para se familiarizar com o território (algumas fotos serão uteis....).

Continuei meu passeio passando pelos premiers crus Les Perrières, Clavaillon, Clos de La Garenne, Au Chaniot, Les Pucelles, Le Cailleret e, diminuindo o ritmo das passadas, quase triunfante e finalmente, caminhar entre os Grands Crus “Montrachet” e “Bâtard-Montrachet”.
 

São apenas algumas centenas de metros de percurso, mas despertam emoção e respeito.....

A divisa que separa Puligny de Chassagne não interrompe as denominações “Montrachet” e “Bâtard-Montrachet”.

 A estrada continua percorrendo os dois vinhedos até encontrar, pelo lado esquerdo, o soberbo Grand Cru “Criots-Bâtard-Montrachet” e à direita o ótimo premier cru “Blanchot Dessus”.
 

A estradinha que sobe pela colina margeando o “Blanchot Dessus” deságua exatamente nos quase 7.000 m² de vinhas do “Dent de Chien”.

Com todas as paradas para apreciar o panorama, bater fotos e descansar, em menos de uma hora, finalmente, entrei no minúsculo “Dent de Chien”.

Quando resolvo procurar denominações e garrafas raras devo confessar que, com frequência, a busca se transforma quase em obsessão.

Foi assim com o “Gamba di Pernice”, “Loazzolo”, ”Carica L’Asino”, “Timorasso”, Picolit etc. e não iria ser diferente com o “Dent de Chien” e “Montrachet”.

Sim caríssimos, o “Montrachet”.

Quem acredita ser fácil encontrar o “Montrachet”, sem estuprar o cartão de crédito, está redondamente enganado.

Quando Remy Pillot, após o intervento de Massimo Martinelli, me vendeu duas garrafas de Montrachet, por um preço razoável, lhe fiz uma pergunta: “Senhor Pillot o Dent de Chien é um dos poucos premiers crus que confinam com o Montrachet daí a qualidade de seus vinhos?”. 
  


“O terreno do Dent de Chien é cheio de pedras que afloram e se parecem com dentes de cachorro. Daí a origem do nome. A composição de solo exige muitíssimo das vinhas que são obrigadas a buscar alimento lutando contra um verdadeiro mar de pedras. A qualidade do vinho do Dent de Chien depende muito, como em nenhum outro lugar, das condições climáticas. Muita ou pouca chuva, muito calor ou muito frio na hora errada, são fatores que influem negativa e decididamente no Dent de Chien. Quando, porém, as condições são normais, favoráveis, os vinhos são soberbos, excelentes”.

Parado e olhando para o Dent de Chien me lembrei das palavras do viticultor e tive que concordar: A vida das vinhas, naquele morro, não é nada fácil.

Faltava, agora e apenas, encontrar algumas garrafas do raro vinho.  

Os produtores que vinificam as uvas, daqueles menos de 7.000 metros quadrados, são seis: Conffinet-Duvernay, Olivier Leflaive, Chateau de La Maltroye, Thomas Morey, Morey Conffinet, Philippe Colin (pode haver outros, mas, por causa da produção tão diminuta, nem se declaram produtores).

Deduzi, então, que nenhum deles poderia produzir mais do que 1.000 garrafas por ano e seria difícil encontrar quem tivesse algumas unidades ainda no estoque.

Retomei a caminhada e em menos de meia hora já estava consultando o espesso catálogo da Caveau de Chassagne Montrachet”.
 

Centenas de vinhos, dezenas de safras, inúmeros produtores, mas do “Dent de Chien”, nem sombra.

O solicito vendedor, que me conhece (já me vendeu várias garrafas), ofereceu ajuda: “Algum vinho em especial?”.

“Dent de Chien”, respondi.

“O senhor não quer vinhos especiais... Quer vinhos raros”.

O vendedor continuou: “O Dent de Chien tem apreciadores fieis e quando chega ao mercado se esgota rapidamente. Mas talvez hoje seja seu dia de sorte. O Thomas Morey me ligou dizendo que um cliente habitual não apareceu para retirar as seis garrafas que havia reservado e que mais tarde passaria aqui para deixá-las. Até agora Thomas não apareceu. É provável, então, que ainda estejam na vinícola”.

Pedi o endereço e sem demora me dirigi para a “Domaine Thomas Morey”.


Demorei exatos três minutos para percorrer os poucos metros que separam a adega da vinícola e ingressar na sala de degustação do casal Sylvie e Thomas Morey.

Atenciosos, os jovens que começaram a carreira solo em 2006 (Thomas pertence a uma família de viticultores locais que operam na cidade desde o século XVII), ficaram surpresos quando revelei o desejo de comprar algumas garrafas de seu “Les Dents de Chien”.
 

Após a costumeira negociação e provar alguns vinhos da casa, comprei 4 garrafas de "Les Dents de Chien” 2011 (Thomas não quis vender as 6 do estoque nem sob tortura....) e outras 6 de “Chassagne-Montrachet Les Embrazèes”, também, 2011.

No final da tarde voltei com o carro e retirei a preciosa mercadoria não sem antes reservar mais 4 garrafas de “Les Dents de Chien” para novembro.

Novembro é o mês em que o vinho de 2012 começará a ser comercializado.

Aliás, em novembro já tenho reservadas 4 garrafas do incrível “Bâtard-Montrachet” e 4 de estupendo “Blanchot-Dessus” de outro grande viticultor: Jean Claude Bachelet.

2011 não foi uma vindima excepcional para o “Dent de Chien”; boa, mas não excepcional.

Mesmo assim o vinho não decepciona.

Quando se abre a garrafa a madeira ainda está muito presente, mas em poucos minutos uma explosão de aromas prevalece e se sobrepõe.

Quanto mais complexo, o vinho, mais difícil descrevê-lo.

Os aromas mudam constantemente, novos aparecem, os anteriores retornam, agora aparece um leve toque fumê..... Difícil!

Perceptíveis: Pera, avelãs tostadas, brioche e manteiga.

Na boca o “Le Dents de Chien” de Thomas Morey é quente, envolve totalmente o paladar com um final interminável onde cítricos, pão torrado e manteiga formam uma harmonia delicada.

Grande vinho!

Preço?

Você esta sentado, tranquilo, relaxado?

O “Les Dents de Chien” me custou 50 Euro.
 

Você, ao ler quanto desembolsei por um vinho excepcional e raro, não se sinta um grande idiota por ter pago R$ 750 por um Tannat 2002 do Bettu; você não é grande idiota... Você é apenas um idiota.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Cortese , um bom branco piemontês




Uma feliz coincidência!

Esper, enófilo e amigo, comentou que as “Langhe” produziam, também, bons brancos.

Discordei.
 

As colinas de Barolo, La Morra, Monforte, Serralunga, Castiglione Falletto, Barbaresco, Neive, Treiso etc. foram e são, desde sempre, terras de grandes tintos.

Barolo, Barbaresco, Barbera, Dolcetto atingem, nesta região, seu ponto máximo de qualidade.

Brancos?

Apenas o Moscato, já na divisa de Mango e o “Astigiano”, merece ser citado como grande uva.

 Arneis, Favorita nunca superaram a condição de medianas e as castas francesas (Chardonnay, Sauvignon, Viogner etc.), presentes (nunca entendi porque) nas “Langhe”, são plantadas, em sua esmagadora maioria, em terrenos fracos e não apropriados para doar grandeza aos tintos; terrenos mais indicados para cultivo de batatas.

O Piemonte produz alguns bons vinhos brancos, mas nenhum excepcional.

Os bons brancos são provenientes das castas  Cortese e Timorasso da província de Alessandria e Erbaluce da província de Torino.

Enquanto o Chardonnay é vinificado há quase 1.000 anos na Borgonha as castas brancas piemontesas somente em tempos recentes mereceram uma atenção maior por parte dos viticultores regionais que sempre privilegiaram as tintas.

Não viverei o suficiente para acompanhar a evolução, por exemplo, do Timorasso, mas posso prever que esta casta terá um futuro promissor.
 

O Cortese, que se adaptou maravilhosamente em Gavi e nos outros 10 municípios que fazem parte da DOCG (desde 1998), é outra casta que poderá fazer história.

Quando afirmo que as castas italianas são “recentes” me refiro apenas à descoberta de suas reais potencialidades.

O Cortese, por exemplo, era conhecido já na idade média, mas somente no século XVII há notícias concretas sobre sua presença e qualidades.

O “BOOM” do Gavi se deu no início dos anos 90 quando este  vinho conheceu, finalmente, a fama.

A fama , como sempre acontece, trouxe, também, a ganância.

Animados, com o sucesso mundial do Gavi, os vinicultores privilegiaram preço (um “Gavi di Gavi La Scolca”, nos anos 90, custava mais do que um bom Barolo) e quantidade relegando a qualidade a um segundo plano.

Resultado?

O Gavi deixou de ser o vinho da moda e voltou a um injusto quase esquecimento.

Restou a lição: Não é fácil, em 10-20 anos, transformar um bom vinho branco em um, por exemplo, “Bâtard-Montrachet”.

Uma rápida, meteórica e fulminante ascensão é apenas privilégio dos os vinhos de Marcos Danielle.

Marcos Danielle e seu fiel Sancho Pança Didu-Bilu-Tetéia, com um Pinot Noir gaúcho, conseguem, em apenas três anos, superar a qualidade dos consagrados primos da Côte D’Or.
 

Os normais e mortais viticultores precisam percorrer um longo e nem sempre róseo caminho.
 

Na próxima matéria revelarei a descoberta de dois incríveis vinhos produzidos com a uva “Cortese”: Ciapon” e “Fornaci di Tassarolo”

Bacco

 

sábado, 7 de setembro de 2013

CORRIGINDO O ESPER




Leio, com prazer e alguma preocupação, que meu amigo Esper Chacur (não o vejo há anos, mas continua amigo) há alguns meses, através da Rádio Jovem Pan, está divulgando um programa sobre vinhos.

Esper, esperto enófilo, conhece vinhos como poucos e, de maneira fácil, leve, compreensiva revela boa dicas aos ouvintes da estação.

Mas, Esper, comete algumas imprecisões quando comenta vinhos do Piemonte.

Falar sobre grandes variedades de vinhos, de uma infinidade de países e zonas produtivas é normal que o enófilo se perca no labirinto das vinhas.  

 Esper percorre, com rara agilidade, Champanhe, Borgonha, Piemonte, Toscana, Chile, Argentina, Austrália, África do Sul...

Quem “viaja”, assim, acaba se perdendo pelo caminho e esse é exatamente seu primeiro erro.
 

Quando insisto em afirmar que para se falar de vinhos é preciso conhecer, real e profundamente, a região na qual são produzidos, não é exagero meu.

Esper, ao falar e comentar vinhos do Piemonte, comete alguns deslizes típicos de quem não tem intimidade com a região.

O primeiro deslize fica por conta, então, da localização.

O Piemonte, na visão de Esper, está logo abaixo de Milão.

Ledo engano!

 Milão é a capital da Lombardia, não tem nenhuma afinidade vinícola com o Piemonte e não pode ser referencia geográfica de outra região.

O Piemonte se situa ao oeste da capital lombarda e se estende até a França, ao norte confina com a Suíça e ao sul com a Ligúria.

Milão, então, deveria ser urgentemente substituída por Torino.

Torino, sim, é a capital piemontesa.

Esper fala de “Os Barolos”

Barolo é uma pequena aldeia que empresta o seu nome para uma das mais prestigiosas denominações italianas e não pode ser escrita no plural.

Não há Barolos assim como não existem Santos Paulos, Milãos, Lisboas, Vienas, Berlins etc.

Esper, em minha opinião, não deveria citar o Freisa (Freisa é um vinho que é quase impossível de ser encontrada no Brasil), deveria informar, isto sim, que o Piemonte é pátria de quase 40 variedades de uvas autóctones, entre as quais se destacam Barolo, Barbera, Barbaresco, Dolcetto etc. etc. etc.

Último e terceira falha de Esper: Colocar as “Langhe” como bom produtor de vinhos brancos.

O único vinho branco, digno de nota, produzido nas Langhe é o Moscato, o resto é o resto...... .
 

Os bons vinhos brancos do Piemonte são produzidos na província de Alessandria (Timorasso e Cortese di Gavi) e na província de Torino (Erbaluce di Caluso).
 

Pode aparecer um ou outro bom vinho deste ou daquele produtor, mas os bons brancos piemonteses, definitivamente, não nascem nas Langhe.



Ao Esper desejo sucesso e um pouco mais de cuidado ao comentar.

Bacco

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

DENT DE CHIEN II




Puligny e Chassagne: Algumas dicas

Sempre defendi a tese que para falar de um vinho, com seriedade, é preciso conhecer e não apenas superficialmente, a região em que é produzido.

Para comentar o “Dent de Chien” bastaria,então,  minha experiência na “Antica Osteria Del Mosto” , pois     percorri a Cot D’Or dezenas de vezes e não seria  necessária uma nova incursão na Borgonha.

Mas como resistir à Borgonha?

“Comprar algumas garrafas de Dent de Chien” foi essa a desculpa (esfarrapada) que encontrei para enfrentar os 600 km que separam Chiavari de Beaune pela quarta vez somente em 2013.

Há quatro regiões vinícolas que me fascinam : Piemonte , Borgonha, Toscana , Alsácia e não escondo minhas preferências  de ninguém .

Basta um aceno, um convite ou uma boa companhia...

Sem pensar duas vezes entro no carro e..... Viva a Borgonha!

Nada mais gratificante do que reencontrar pessoas, rever locais, vinhas, paisagens e caminhos que literalmente me fascinam.

O “Dent de Chien” foi uma ótima desculpa para rever Julien Wallerand  e Maria Adão em Puligny, Marc e Pierre Antoine em Pierreclos, Julie em Solutrè, Jean Raphet em Morey-Saint-Denis e muitos outros amigos que nem a barreira do idioma consegue distanciar.

Reencontrar os amigos foi fácil, já o “Dent de Chien”......

Normalmente, quando chego à Côte D’Or, me hospedo em Bouze-Les-Beaune ou Puligny-Montrachet.

 Puligny-Montrachet, nessa última viagem, foi a aldeia que escolhi para passar alguns dias e “caçar” o Dent de Chien.

No B&B da Maria Adão já sou de casa.

  Além de graciosa a localização da pousada é invejável: Não há nada mais excitante do que abrir a janela do quarto e quase poder tocar as vinhas de Chardonnay que doam o Puligny-Montrachet.

Após descansar alguns minutos (não se pode perder muito tempo...) basta percorrer uma centena de metros, alcançar o ótimo wine bar “Le Caveau de Puligny Montrachet” para ser recebido com um sorriso e um aperto de mão caloroso do amigo Julien Wallerand e degustar renomadas etiquetas que, sem a menor cerimônia e generosamente, Julien serve em taças de cristal.

Um Puligny? Um Chassagne? Talvez um Mersault ou, quem sabe, um Saint Aubin?

O único problema é a escolha.....

Os grandes vinhos servidos na temperatura exata, em taças decentes (coisa rara na França), e num ambiente de raro aconchego e sofisticação.

 Esparramado em poltronas confortáveis e admirando o monumento aos viticultores, na pequena praça em frente, não tenho duvidas em eleger o “Le Caveau de Puligny Montrachet” como meu bar preferido de toda a Borgonha.

Uma rodada oferecida por Julien, mais uma oferecida por um viticultor amigo (Bzikot), outra mais paga por um colega de Bzikot e finalmente (ainda bem...) uma oferecida por mim.

O ótimo restaurante “Le Pelugney”, por sorte, se localiza a menos de 200 metros da “Le Caveau”.

 Recusando gentilmente mais uma rodada (É a última!! É a última!!) me esforçando para parecer mais sobrio, do que na realidade estava, deixei meus amigos, que continuaram enchendo copos e mais copos (como bebem bem os franceses.....) e caminhei ereto, ma non troppo, para reencontrar Beatrice e Jean Louis no “Le Pelugney”.

“Le Pelugney” é a melhor e mais racional escolha gastronômica em Puligny.

A pior? “La Table de Olivier Leflaive”.

Fuja, mas fuja mesmo: O “La Table” tem forte conotação turística, caríssimo e previsível.

Quase pelo mesmo preço, mas com muito mais requinte, classe e um serviço impecável, opte pelo estrelado “Le Montrachet”.

 

Mais alguns endereços válidos?

 “La Garaudière” em Levernois, “Le Chateau De Cîteaux La Cueillette” em Meursault, “La Bouzerotte” em Bouze-Les-Baune e se tiver com Euro sobrando um 3 estrelas sensacional: “Maison Lameloise” em Chagny.

Para beber, além do excepcional “La Caveau de Puligny Montrachet”, o “66” na Place Cardot.

O  "66”, estrategicamente localizado, abandonou, recentemente, os horrendos copos de vidro, mais apropriados para servir licores e adotou belas taças para servir grande variedade de vinhos tintos e brancos além de várias etiquetas de Champagne.

 "66” é o melhor wine bar de Beaune.

Após beber algumas taças é provável que a fome marque presença.

Se isso acontecer fuja, igual deputado da cassação, do restaurante “Bistrot De L’Hotel”. O “Bistrot” é um local pretensioso, caro e dispensável.

Cansado ,  alegre e andando nao muito firme, voltei para o B&B da Maria Adão decidido em percorrer, na manhã seguinte, os caminhos dos “Grands Crus” até alcançar o “Dent de Chien”.

Até a próxima.

Bacco