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segunda-feira, 16 de maio de 2016

MARINDA, O TOMATE




Nas frescas manhãs primaveris adoro passear pelas quotidianas feiras, das aldeias italianas e serpentear por entre os bancos de frutas e verduras.

Todos os dias há, pelo menos, uma feira tomando conta da praça principal das cidades italianas.
 

Verduras frescas, incontáveis variedades de legumes, frutas de todos os cantos do planeta, queijos, presuntos, salames, peixes, conservas ......Uma verdadeira festa para os olhos, nariz e paladar.

Difícil resistir!
 

Como escapar daqueles belos aspargos, das cerejas que apesar de caras começam a aparecer, dos damascos que já invadem todas as bancas, das berinjelas, alcachofras, cenouras, pimentões, salsões e, finalmente, como fugir da verdadeira tentação provocada por aqueles tomates que, com seu vermelho vivo, alegram a vista.

Não quero exagerar, mas nunca há menos de uma dúzia de variedades de tomates expostas nas bancas dos mercados.
 

O tomate foi trazido, do México para a Europa, pelos conquistadores espanhóis, no século XVI

Dizem que há 1.700 variedades espalhadas pelo mundo sendo que, somente na Itália, há catalogadas 300 e comercializadas 60 delas.
 

"Coração de Boi", "San Marzano", "Cereja", "Camone", "De Belmonte" (chega a pesar mais de1 kg), "Sardo", "Lucinda", "Fiorentino", "Marinda"......
 

"MARINDA"!

O "Marinda" é o tomate mais espetacular que já provei.
 

O "Marinda", de origem francesa, foi introduzido na Itália, mais precisamente em Pachino, na Sicilia, nos anos 1990.

 Esta variedade encontrou, no território de Pachino, seu perfeito habitat e com o passar dos anos, o "Marinda", se transformou em um tomate "cult".

O "Marinda" é achatado, redondo, nunca possui menos de 10 "gomos", na parte superior é esverdeado e pesa 100/150 gramas.

O sabor inconfundível, adocicado e salgado ao mesmo tempo, sua pele resistente, sua consistência crocante e compacta e sua incrível durabilidade o tornam único.
 

O "Marinda", todavia, apresenta alguns problemas: 1º) O preço.

O "Marinda" nunca custa menos de 4 Euros (16R$) o quilo.

(2º) O "Marinda" é um tomate invernal (europeu) colhido e comercializado somente de janeiro a maio.

(3º) Depois de provar o "Marinda" você olhará para outros tomates com total desprezo.

Em sua próxima viagem procure uma feira e se encontrar o "Marinda" não o deixe escapar.

Bacco

 

segunda-feira, 9 de maio de 2016

PINOCCHIO




 


 
 
 
 
 
 
O Alto Piemonte vive momentos de visível abandono.

Quem não conhece o alto Piemonte, poderá, através do mapa anexo, tirar suas duvidas.
 
 

As aldeias, que emprestam seus nomes aos grandes vinhos regionais, parecem mais cemitérios do que cidades do vinho.

Em Boca, Cavallirio, Lessona, Fara, Sizzano etc. não há uma enoteca, sequer,  onde se possa beber uma taça dos ótimos vinhos locais.

Uma tristeza.....

 
 
 
 
 
 
 
Em compensação a região é "rica" de estrelas Michelin.

Em Soriso, Orta San Giulio, Ranco, Invorio, há seis estrelados de boa qualidade.

Em Borgomanero, "Pinocchio", o mais antigo "Michelin" da região perdeu, merecidamente e depois de 36 anos consecutivos, a prestigiosa estrela francesa.

Chateado por não encontrar um mísero local para beber um bom copo de vinho, resolvi acalmar a sede e apetite no meu restaurante preferido da região: "Ori Pari" em Boca.

Cheio de entusiasmo e alegria já pensava nos pratos originais do cardápio e qual vinho o experiente Francesco sugeriria.

Francesco, proprietário do "Ori Pari", em outras ocasiões me surpreendera com ótimas garrafas das vinícolas Monsecco, Ioppa, Le Piane.
 
 

Minha alegria durou até alcançar Boca e constatar que o único endereço, que ainda colocava a aldeia em meu "GPS", havia fechado as portas: O "Ori Pari" já não existe.

Quem permanece com as portas escancaradas, em Boca, é o descomunal santuário, mas igrejas não são minhas metas prediletas na hora do almoço....
 

Chateado, faminto e "sedento" percebi que se continuasse nas cercanias morreria de fome, sede, tristeza e solidão.

Sem mais delongas rumei rapidamente para Borgomanero e resolvido, decidi revisitar o tradicional "Pinocchio".

Deveria ter procurado uma pizzeria.......

O "Pinocchio" é um perfeito retrado da decadência.

O antigo esplendor do ambiente já não brilha, perdeu o charme e cheira a mofo.

 No exato momento que ingressei na sala me identifiquei com Joe Gills (William Holden) quando, já morto,  descrevia a casa de Norma Desmond (Gloria Swanson) em "Crepúscul o  dos Deuses".
 

Entrada mais parecida como a de um mausoléu, piso precisando de um trato, decoração antiga e cansada, taças de vidro espesso compradas em lojas de 1,99, toalhas tentando esconder  feridas de centenas lutas travadas na lavanderia, cardápio imutável, previsível e sem imaginação......Perfeito crepúsculo de um ex estrelado Michelin.

As únicas lembranças que restaram da estrela Michelin e do antigo brilho, são os preços.

Antepasto de salmão, defumado pelo chef (será?), que pode ser encontrado em centenas de restaurantes e custando a metade, as piores costeletas de carneiro dos últimos tempos e duas taças de um tinto, que nada devia aos nossos gaúchos, me aliviaram em 70 Euros.
 

Paguei e corri para a porta que nunca mais me verá nas cercanias.

Restaurante "Pinocchio" em Borgomanero: Fuja sem olhar pra trás!!!!

Bacco

sábado, 7 de maio de 2016

OBSCURANTISMO MEDIEVAL




 

O mundo, em alguns momentos, parece passar por um período, uma fase, diria..... Dicotômica: Progresso científico e tecnológico X obscurantismo religioso.
 
 
 
 

Quem acha que apenas os islâmicos são fanáticos não tem observado o crescente radicalismo religioso que, também, cresce, assustadoramente, em nossa sociedade.

Admitir o ateísmo, em público, é quase uma temeridade.

O ateu, confesso, é considerado, pela esmagadora maioria dos interlocutores, como um perigoso idiota.

Nunca tive medo de declarar meu ateísmo, mas, nos últimos tempos, somente o declaro em rodas restritas: Há demasiado e perigoso patrulhamento....

Cheiro de inquisição no ar!

Em minha última matéria, "O Milagre do Vinho Cinque Terre", inseri a foto de um quadro em que Jesus realizava seu primeiro milagre transformando a água em vinho.  
Denunciado ao administrador
 
vejam
 

 

Nunca pensei que o quadro atingisse a sensibilidade ou ofendesse a crença de quem quer que seja e muito menos de alguém que me acompanha no Facebook.

No Face há tremendas montagens, fotos ridículas, agressivas, chocantes.

Há vídeos de brigas, assaltos, mortes etc. que retratam violência inaudita e sem fronteiras.

Pois bem, a foto, que inseri na matéria "O Milagre do Vinho Cinque Terre". foi denunciada ao  administrador do Facebook.

Ao denunciante não envio, como seria natural, um sonoro

 "FODA-SE",  

Recomendo apenas, que deixe de acessar minha pagina e procure uma recomendada por Tomás de Torquemada.
 

terça-feira, 3 de maio de 2016

O MILAGRE DO VINHO "CINQUE TERRE"




 

A Ligúria é famosa, entre outras coisas, por sua Riviera, cozinha, azeite, paisagens, bosques.....

A Ligúria, certamente, não é lembrada por seus vinhos.

Alguns razoáveis (Rossese di Dolceacqua, Ormeasco, Pigato), mas nada além de razoáveis.
 
 
 

O território muito acidentado, quase roubado ao mar, não permite grande produção e os vinhos lígures, raramente, ultrapassam as fronteiras regionais.

De todos os vinhos da Ligúria apenas um não tem problema de venda: O "Cinque Terre".

O "Cinque Terre", com uma produção de 300.000 garrafas (um pouco mais / um pouco menos), não dá nem para molhar as gargantas dos milhões de turistas que tomam de assalto a minúscula zona turística.

Vamos fazer algumas contas?
 

Imaginemos que apenas 20%, dos 3 milhões de visitantes das "Cinque Terre", tomem duas taças de vinho local.

Numa conta rápida é fácil perceber que algo como 600 mil copos de vinho "Cinque Terre", todos os anos, escorrem pelas goelas sedentas de chineses, alemães, brasileiros, japoneses, americanos etc.

600 mil taças correspondem a 150.000 garrafas.

 Os turistas adoram "souvenirs".
 

Qual melhor souvenir do que uma garrafa de vinho local?

Imaginemos que 2% dos turistas comprem, como lembrança, pelo menos uma garrafa.

Teríamos, então, mais 150.000 unidades, que somada às 150.000 consumidas em taças, revelariam um total de 300.000 garrafas de "Vino delle Cinque Terre".

Pois bem, em quase todos os de bares, restaurantes, supermercados, enotecas etc. da Ligúria é facílimo encontrar o vinho "Cinque Terre".

A pergunta: Se a produção vinícola total é de apenas 300.000 garrafas qual o milagre?
 
O milagre  viaja em caminhões-tanques cheios de Trebbiano, Vermentino Toscano e outros vinhos baratos que, sabiamente adicionados, se transformarão no caríssimo DOC "Cinque Terre".

Ao visitar a região, antes de pedir um "Cinque Terre", tome muito cuidada para não pagar 15/20 Euros por um Trebbiano de terceira categoria.
Bacco