Nas adegas italianas, até a semana passada, repousavam e
mofavam mais de 53 milhões de hectolitros, de vinho, à espera de sempre mais
raros, compradores.
Se o leitor não tiver muita intimidade com números vinícolas,
informo que 53 milhões de hectolitros são superiores à
produção anual italiana e quase 20 vezes o que o Brasil produziu na última
safra.
A crise vinícola italiana não é a única, pois todos os grandes
produtores mundiais lamentam e não sabem (ou fingem não saber...) como estancar
o contínuo declínio no consumo do vinho
Todos os produtores?
Não!
O Brasil, sempre na contramão, continua aumentado seu
parreiral....Para que e para quem, é um segredo muito bem guardado....
Há vários anos percorro o europeu mundo do vinho e há mais de
uma década percebi que, no reino das taças “Zalto”, silenciosa e lentamente, alguns
sinais de alarme estavam aparecendo: Os preços não
paravam de subir e algumas renomadas garrafas atingiam valores estratosféricos,
irreais.
O mais interessante é que os “barões” do setor, talvez,
acometidos por um misterioso vírus, não perceberam que o otimismo e a euforia
exagerada estavam chegando ao limite do razoável e que, no horizonte, já
apareciam inegáveis sinais de mudanças no gosto e preferência dos consumidores.
Romanée Conti 2012
As parkerianas garrafas, que custam 20.000 Euros (preço de
um carro O KM), continuam vendendo normalmente, pois não é difícil encontrar, no
planeta, algumas dezenas de milhares de ricaços, que nada entendem de vinhos,
mas que pagariam até mais para poder “instagramar” suas riquezas, exclusividades
e imbecis vaidades.
Para os “barões”
vinícolas o ciclo das vacas gordas parecia não ter fim e ninguém sequer
imaginava em frear a contínua e exagerada elevação dos pecos... O céu era o
limite.
Atores, cantores, esportistas, estilistas, grupos financeiros,
etc.... todos queriam ingressar no glamoroso e altamente rentável mundo do
vinho para ter “Uma Vinha Para Chamar De Minha”.
Resultado?
O gentil leitor sabe quanto custava, nas “Langhe”, um hectare
de vinhas “Nebbiolo da Barolo” nos anos 1980?
Caso não saiba, informo: Naqueles anos era possível comprar, o
prestigioso hectare, desembolsando 30/50 milhões das velhas Liras, valores que correspondem
aos atuais 15/25 mil Euros.
O leitor, curioso, sabe quanto custa o mesmíssimo hectare nos dias
atuais? 1,5/3,5
milhões de Euros.
Em pouco mais de 40 anos, Parker& Cia, que dominaram o
mundo da crítica e do marketing, conseguiram, através de seus discursos
elitistas, complexos, áulicos, complicadas, vendida$ pontuações$ etc. dominar e
estandardizar a produção vinícola mundial.
Incontáveis produtores, para “agradar” o crítico americano,
passaram a produzir vinhos muito alcoólicos, musculosos, pesados, com excesso
de madeira, aveludados, quase mastigáveis, etc., mandando às favas a natural
tipicidade, frescor e identidade de muitíssimas castas.
Mas algo mudou e.....Parker, sensível, inteligente e sagaz,
percebeu que as novas gerações já não seguiam cegamente seu velho, esnobe, elitista
discurso e que seu reinado, lenta, mas inexoravelmente, perdia brilho.
As novas gerações não
mais se entusiasmavam com pontos, concursos, medalhas, teatrais degustações.
As novas gerações estavam mandando à merda aromas primários,
secundários, terciários, frutas vermelhas, especiaria, cassis, mirtilos,
cerejas, terra molhada etc. etc. etc.
etc. etc. etc. etc. As novas gerações
queriam beber barato e em paz.
Parker, há alguns anos, aposentou seus ponto$ deixando uma
herança vazia e pesada para os eno-palermas que cegamente e durante 40 anos, o
seguiram e endeusaram.
Muitos produtores vinícolas ganharam rios de dinheiro com a “Doutrina
Parker”, mas chegou a hora e a vez de encarar a nova
realidade.
Qual realidade? Aposentar
as garrafas parkerianas e voltar a produzir vinhos mais simples por preços mais
leves.
Finalmente voltaremos a beber em paz, sem sommelier$,
enólogo$, crítico$, influencer$, Parker & Cia e outros enchedores de saco
Continua
Bacco

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