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domingo, 23 de agosto de 2015

NÚMEROS



O calor intenso, que atingiu a Itália e toda a Europa, antecipou em semanas o início da colheita.


As condições climáticas aceleraram a maturação das uvas consagrando a safra 2015 como a segunda mais precoce desde o fim da segunda guerra mundial perdendo apenas para a de 2003.



Estima-se que a produção de vinho superará os 45 milhões de hectolitros e deverá gerar cerca de 10 bilhões de Euros de faturamento.

Como sempre os espumantes farão a festa: A Itália exportou, no ano passado, 320 milhões de garrafas de “bollicine”


A classificação: 1º Prosecco
2º Asti
3º Franciacorta



Na produção vinícola operam 1,25 milhão de pessoas e cada cacho colhido ativa 18 setores da economia desde a indústria de transformação, comércio, transporte etc.

Números que impressionam…. Vamos aguardar a qualidade dos vinhos.


Dionísio



quinta-feira, 20 de agosto de 2015

BIO-ILÓGICO


Ha alguns anos, quando visitava Alba e arredores, costumava me hospedar na belíssima “Tenuta Montanello” em Castiglione Falletto.



Castiglione Falletto é uma das históricas cidades produtoras de Barolo. Suas vinhas de Nebbiolo, com as de Monforte, La Morra, Serralunga e Barolo revelam ao mundo os Barolo top.

Uma bela manhã, enquanto me barbeava, um barulho de helicóptero chamou a minha atenção.






Corri para a janela e presenciei uma cena rara: O aparelho, voando a baixa altitude, despejava uma nuvem de defensivos sobre as vinhas do vizinho.

As vinhas, em questão, pertenciam e ainda pertencem, à rica família Boroli que, entre outras atividades industriais, produz vinhos na região.

O Piemonte vinícola é muito símil à Borgonha: Milhares de pequenas propriedades dividem o mesmo território, os confins nunca são claros, perceptíveis e apenas os proprietários conhecem, com exatidão, os próprios limites.


As vinhas dos Boroli limitam com as da Tenuta Montanello e nem meio metro as separam.

Enquanto o helicóptero despejava uma nuvem enxofre, sobre os vinhedos dos Boroli, o vento se encarregava de transportar o pó amarelo sobre as parreiras dos vizinhos Cavallotto, Sobrero, Montanello e de um sem número de outros pequenos viticultores.

Naquele instante, sorrido, me perguntava como continuar a crer no sonho dos vinhos naturais e para onde estava indo a agricultura biológica.
Por uma questão de educação não vou revelar o exato lugar que me veio à mente…….

Vamos exemplificar: Se os Montanello, Cavalotto, Sobrero etc. estivessem investindo na viticultura biológica, como poderiam defender seus vinhedos da nuvem de enxofre (é bom lembrar que 90% do enxofre utilizado nas vinhas provém do petróleo), do Roundup e outros defensivos que, eventualmente, os Boroli viessem a utilizar em sua propriedade?


Quem souber, por favor, responda.

Cético, já duvidava, naqueles anos (início dos anos 2000) na viabilidade da agricultura biológica em regiões vinícolas similares ao Piemonte.

Puligny Montrachet, julho de 2015.

Bela manhã de segunda feira.
Sol, calor e eu vagando, outra vez, pelas vinhas do Chardonnay.

Procurei o cavalo, o arado, o trailer, o agricultor e …..nada.
Lembrei das palavras do Antônio e percebi que segunda feira não é dia de muitos turistas e nada justificaria a picaretagem equina.

Estava terminando a caminhada quando, mais uma vez, uma surpresa me chocou: Dois trabalhadores vestiam macacões brancos, máscaras, luvas, óculos especiais e, bem protegidos, se preparavam para pulverizar, as vinhas, com enxofre.


A nuvem amarelada, levada pelo vento (vejam a foto), se espalhou rapidamente atingindo as fileiras dos vizinhos.

Temendo ser envolvido pela nuvem acelerei o passo para fugir do “banho” de enxofre.

Inútil!


Mais lavradores pulverizavam vinhas próximas .
Impossível fugir e impossível acreditar, também, que na Borgonha possa existir uma viticultura 100% biológica.



Cada produtor tem métodos próprios de cultivo e não existe lei específica que proíba este ou aquele produto que muitas vezes é utilizado, mesmo quando não permitido, na cultura biológica.

Cuidado, então, com mais uma balela marqueteira


Se em regiões tradicionais, importantes e controladas, o “vinho biológico” e quase uma quimera, imagine aqueles líquidos “naturebas” produzidos no “Rio do descontrole do Sul”.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

PICARETAGEM À FRANCESA


Eu, que nunca acreditei na “macumba biodinâmica” de cultivo das vinhas, estou começando a me convencer que o “vinho biológico” é, com muito mais frequência do que se possa acreditar, uma tremenda picaretagem.
Antes de ser eliminado, com um AK-47, leiam, com calma, a matéria até o fim.



Quando visito a Borgonha (3 ou 4 vezes por ano) me hospedo em Puligny-Montrachet ou Bouze-les-Beaune.
As duas aldeias são, há anos, meus endereços prediletos.

Em Bouze-les-Beaune nem sempre, mas em Puligny faça sol, chuva ou neve, todas as manhãs, caminho pelas estradinhas que saem da aldeia serpenteando pelos crus.

Se o tempo é bom a caminhada se alonga por vários quilômetros, se há chuva, neve ou frio, o passeio é mais curto e mais rápido.

As longas caminhadas me ajudaram a conhecer as vinhas, a exposição solar, o tipo de solo, de poda, cultivo e, consequentemente, o porquê da qualidade dos vinhos.

Em minha última viagem, numa bela, luminosa e ensolarada manhã de julho, retornava do passeio matinal caminhando pela estradinha que margeia a vinha, dos pouco mais de 7 hectares, do Bâtard-Montrachet.
Um enorme cavalo, conduzido habilmente por um lavrador, puxava o arado que ia revolvendo o terreno por entre os filares.
Parei, pedi permissão e bati a foto.

Feliz por ter presenciado uma belíssima cena de amor às tradições vinícolas da Borgonha, voltei para o B&B em Puligny.

Durante o café comentei o fato com Antônio.
Antônio, marido da proprietária do local, português, radicado há décadas na região, trabalha em uma vinícola em Meursault.
Antônio opera diretamente nas vinhas da vinícola e cuida, pessoalmente, desde a poda invernal até a vindima, de todas as operações nas parreiras.
Antônio é o responsável técnico, então, de um vinhedo.
O meu amigo luso sabe tudo e mais um pouco de Borgonha….
Entre uma garfada e outra o viticultor disparou:
Era de se esperar….
Hoje é sábado, o tempo está bom, há muitos turistas passeando pelas vinhas e os produtores aproveitam para fazer um pouco de marketing”

As palavras de Antônio dissiparam imediatamente, o sorriso “giocondiano” do meu rosto.

De que marketing está falando, Antônio?”

Os turistas são trazidos pelas operadoras nos dias e horas marcados, se impressionam com os cavalos arando, acreditam na volta e na felicidade do passado, na agricultura” natural”, batem um monte de fotografia e saem saltitando contentes por terem presenciado um momento mágico, raro e quase lúdico. O que os bobos não sabem é que tudo é falso: O cavalo, o arado, o lavrador, o trailer pertencem às empresas espacializadas e são alugados, exatamente, para estas ocasiões”.

Antônio falava e eu, a cada palavra, me sentia mais e mais pateta.
Onde teria perdido, afinal, meu espírito crítico, minha desconfiança, a recusa em aceitar aparências?

Estava me transformando em mais um eno-tonto na versão “Borgonha” ?
De repente, como um raio, em minha mente uma lembrança: A foto de outro marqueteiro, desta feita italiano, que arava as vinhas com a ajuda de um cavalo.

Giorgio Rivetti, que naqueles anos, já proprietário de 100 hectares de vinhas, veiculou, nas revistas especializadas, uma foto patética: O empresário em manga de camisa empurrava um arado por entre os filares.

É bom salientar que os Rivetti são proprietários da vinhas, não somente no Piemonte, mas, também, na Toscana e sempre produziram vinhos “parkerianos” que exalam mais adega que vinhedos.
A singela “naturalidade” equina, era imediatamente trocada, após a foto, pela tropa de centenas de cavalos do SUV de propriedade do Rivetti.

A picaretagem vinícola, então, não é uma exclusividade francesa, italiana, portuguesa, espanhola etc.
A picaretagem está presente em todos os rincões (Rio Grande do Sul e Santa Catarina, exclusos) e pronta para nos fazer de palhaços.

Antônio, embalado, me contou outras “sacanagens” vinícolas que revelarei, aos poucos, em outras matérias.

Por enquanto não banque o entusiasta, o tonto.
Quando vir alguém arando nas vinhas, com a ajuda de um cavalo, lembre-se: Você está sendo, apenas, mais uma vítima de apelação marqueteira.
De marqueteiros, creio, já estamos de saco cheio.













sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A VOLTA

Adoro Lisboa!


Gastronomia, vinhos, história, calor humano, tranquilidade, o moderno “antigo” …..Uma infinidade de razões.

Quando, porém, penso no aeroporto de capital portuguesa sinto arrepios: É o mais “nonsense”, absurdo e grotesco que conheço.

Querem um exemplo?

Você chega ao controle de bagagem com o frasco de perfume do seu dia-dia, espuma de barbear, uma garrafinha de água pela metade, qualquer líquido, enfim, nada passa pela revista e imediatamente confiscado.

Mas, se comprar, por um Euro, um saquinho plástico, em uma maquininha, estrategicamente instalada ao lado da entrada da revista de bagagens e nele acondicionar seus perigosos pertences(perfume, desodorante, espuma de barbear, água etc), os perigosos líquidos já podem ser transportados, com toda segurança e tranquilidade, em sua bagagem de mão.

É a primeira imbecilidade.


A segunda: Você embarca em um aeroporto brasileiro, sua bagagem de mão, respeitando normas internacionais em vigor, é meticulosamente verificada através máquinas de raios-X e, caso haja presença de frascos, contendo mais de 50ml de líquido, os mesmos são retirados e sequestrados.

Controle efetuado, o embarque é autorizado.

Ao chegar, em Lisboa, você passa pela imigração onde o controle dos passaportes é efetuado.

Caso você precise pegar uma conexão, imediatamente após o controle de imigração (30 metros adiante), ha um novo controle da bagagem de mão.
A mesmíssima bagagem que foi controlada no embarque brasileiro e que acabou de deixar o avião.

Certa vez questionei o procedimento.


O funcionário, nem um pouco gentil, com enfado e aquele ar de superioridade europeia, respondeu: “em Portugal as normas de segurança são mais rígidas e um novo controle se faz necessário”.

Imbecilidade ao quadrado.

Atrasado, para minha conexão, agitado, cansado e apresentando sinais de velho já esclerosado, após o controle português, não recoloquei o notebook na bagagem.

Em Arona, no hotel, o “desespero”.

Telefonei para o amigo Pedro, da Garrafeira Alfaia, que, apesar de todo empenho, não conseguiu localizar e recuperar o objeto.

Com o notebook se foram todas as minhas fotos, matérias prontas para serem publicadas, músicas (mais de 9.000), senhas, documentos etc.

Dionísio, alguns dias depois, me alcançou em Santa Margherita.

Seu computador poderia substituir, momentaneamente, o meu, mas resolvi tirar férias e não escrever nada.

Volto agora.

Perdi matérias sobre Mantova, Colares, Les Mugers des Dents de Chien e outras mais, mas o recesso foi agradável.

Hoje, o quase jornal “Correio Braziliense”, leio que, no 5º congresso da Abrasel, a colunista Liana Szabo é homenageada e glorificada pelos “chefes blefes” da Brasília.

Se não glorificarem levam ferro…..


A homenageada, não deixa por menos: endeusa, rasga elogios e baba com a presença, no congresso, do “mago” das vinhas: Wilmar Bettu.

O Brasil continua o de sempre: Picareta e despreparado.

Acho que vou perder o notebook novamente.