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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A MINHA PALAVRA É UMA SÓ


O nosso “melhor sommelier espaguete”, eleito por aclamação pelos ricaços paulistas, deixou França, Itália, Portugal, Espanha etc. para trás e encontrou seu novo paraí$o vinícola no planalto central.

O planalto central está se caracterizando e confirmando como um lugar sedutor e mágico para os nossos olímpicos sommeliers.

Agora é a vez e hora de um dos melhores (assim dizem) “professores”, do “Almanaque do Biotônico Fontoura W$ET”, render-se ao charme, misticismo (e grana?) de Brasília e arredores

Uma pequena pausa para recordar....

Durante um curso WSET (des) nível 2, em Brasília, e diante de uma plateia de 15 pagantes, o pedante “professor” foi categórico ao afirmar que considerava “…sub-vinhos as garrafas produzidas na América do Sul e que não bebia vinho nacional”.

Até aí nenhuma novidade e confesso que, em parte, comungo o mesmo pensamento e somente tento beber vinho nacional quando e se me é oferecido gratuitamente.

 Mas, há algumas diferenças....

Declaro, há anos e continuo declarando, que o vinho nacional é apenas sofrível e incompreensivelmente caro.

Nada ocorreu, de extraordinário, que me fizesse mudar de opinião, nem mesmo $$$.

O nosso soberbo “professor”, ainda não esclareceu porque abandonou, de repente, sua radical convicção e aparece, agora, no cartaz da “XIª Vinum Brasilis”.......Adivinhem fazendo o que?

 Ministrará uma palestra sobre “Harmonizando com Vinhos Brasileiro”.

1)   O nosso palestrante teve um súbito e brutal ataque de amnésia

2)   Fez um curso relâmpago e durante um mês encheu a cara com garrafas nacionais

3)   É mais um que topa tudo por dinheiro.

Fico com a terceira opção ......

Será que nosso eno-catedrático terá a coragem de repetir e declarar, no próximo curso do “Almanaque do Biotônico Fontoura WSET”, sua total aversão ao vinho nacional?

Vamos aguardar, pois este pessoal é capaz de tudo.... Bastam alguns $$$
Dionísio

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

UMA ABERRAÇÃO DE TÃO BOM


Nas últimas semanas há, nos meios de comunicação, site e blogs especializados, uma verdadeira Blitzkrieg exaltando a grande qualidade dos vinhos nacionais.

 Notícias eno-ufanistas por todo lado e ad nauseam.
 
 

Quando isso acontece é porque há algo, nada róseo, acontecendo nas vinhas verde-amarelas.

São sintomas que denunciam novos problemas no pobre e capenga cenário vinícola nacional.

Há tempos não se via tamanha investida.

Uma das primeiras, sem dúvida a mais ridícula, foi aquela do “O espumante nacional é o segundo melhor do mundo”.
 

Depois veio a fase das “merdalhas”.

 Concursos caça-níqueis que premiavam (continuam premiando) todos os vinhos do planeta, inclusive os quase-vinhos nacionais.

Um tsunami de merdalhas de ouro e prata invadiu a Serra Gaúcha.
 

Mais algumas tentativas, sem grande importância e agora é a vez e a hora dos nossos mais premiados sommeliers reconhecerem a grande qualidade de nossos vinhos.

Vinícola como a Guaspari, Salton, Perini, Pireneus, Tormentas Bueno etc. foram e continuam sendo exaltadas por grandes nomes (nem tanto) de nossa crítica e$specializada.

Nomes consagrados que, diga-se de passagem, até agora, simplesmente, ignoravam os vinhos nacionais.

Será que perdi o trem que da Serra Gaúcha, passa por São Roque e segue intrépido até Cocalzinho?
 

Será que não percebi as grandes mudanças que ocorreram nas vinhas nacionais?

Até ontem os vinhos nacionais eram classificados como purgantes e agora são elogiados por nossos mais experiente$ formadore$ de opinião?

Querem alguns exemplos?

O nosso “melhor sommelier” e grande escalador de cruzeiros medievais, deixa para traz os Romanée-Conti, Château-Pétrus &Cia para rolar, ladeira abaixo, até Cocalzinho onde encontra seu novo éden vinícola: A Pireneus Vinhos e Vinhedos e o “Intrépido”.
 

Em sua nova realidade, que poderíamos chamar de “Feliz o Tempo Que Passou”, nosso exterminador de fundos de garrafas preciosas, deixados como gorjetas pelos poderosos e abonados paulistas, foi obrigado a classificar aquela tremenda bosta de Goiás:  “Uma aberração de tão bom”.

Ao ler tamanha imbecilidade lembrei das palavras de Ariano Suassuna ao criticar um artigo em que o jornalista considerava o Chimbinha um guitarrista genial.

Ariano ,brilhante, comentou :”.....eu sou um escritor brasileiro , a língua portuguesa é o meu material de trabalho... se eu gasto um adjetivo , como genial, com Chimbinha, o que vou dizer de Beethoven?”

 
Sem mais comentários, mas acho que as pragas dos franceses, revoltados com o escalador de cruzeiros medievais, estão surtindo efeito.

 Pelo andar da carruagem e da crise, é bem provável que nosso               sommelier-espaguete, em breve, precisará encontrar outra “Aberração de tão bom”.

Quem pensou, maliciosamente, no “Sangue de Boi” não está tão longe da realidade.
 

Mas, creiam, nosso sommelier-espaguete não está sozinho.

Aguarde a continuação.

Dionísio

 

 

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

CHIANTI RUFFINO


Lembram daquele frasco empalhado que simbolizou o Chianti como vinho mais "italiano" de todos os tempos?

Pois é, estamos falando do "Chianti Ruffino".

Os esnobes certamente torcerão o nariz e me colocarão no mesmo nível do decadente Beato Salu.
 

Uma pequena informação

O nosso “melhor sommelier”, em tempos de Lava Jato, perdeu grande parte da clientela abonada.

Clientes (corruptos?) que não tinham nenhum pudor e nem denotavam pruridos morais ao torrar somas estratosféricas enquanto desarrolhavam icônicas garrafas no Fasano & Cia.

Para se adaptar aos novos tempos, de gorjetas ralas e raras, nosso escalador de cruzeiros medievais foi "obrigado" a elogiar, pasmem, um quase-vinho "uma aberração de tão bom" de Cocalzinho (GO).

Vou elogiar o Chianti Ruffino, mas garanto que não fui subornado e não ganhei nem meia garrafa do famoso vinho toscano que nasce em Pontassieve, cidade próxima a Firenze, no distante 1877.

Os primos Ilario e Leopoldo Ruffino, de apurado faro comercial, perceberam que seu vinho, largamente consumido em Pontassieve, poderia agradar, também, aos moradores das cidades vizinhas.

 
O sucesso foi imediato e o "Chianti Ruffino" se transformou rapidamente em um sucesso popular e agradou, também, os paladares de gente famosa.

Na sede da “Ruffino” há uma carta assinada por Giuseppe Verdi na qual o grande compositor se queixava da demora na entrega de seu vinho preferido.

Os primos Ruffino, com problemas de saúde e sem herdeiros, em 1913 venderam a vinícola à família Follonari.

Os Follonari, empresários de grande dinamismo e capacidade comercial, impulsionaram, ainda mais, as vendas.

É bom lembrar que nos anos 20 o “Chianti Ruffino", com sua garrafa empalhada, foi um dos primeiros vinhos a desembarcar na América onde se tornou símbolo da "italianidade".

 
Conta a lenda que, durante a lei seca, o "Chianti Ruffino" era vendido nas farmácias como "remédio anti-stress”.

A Ruffino, de hoje, produz perto de 15 milhões de garrafas e possui mais de 1.500 hectares espalhados pela Itália sendo que 600 são para o cultivo de vinhas.

A Ruffino não é exatamente uma vinícola artesanal, mas.....

Semana passada entrei na minha esquálida adega à procura de uma garrafa de tinto para beber enquanto assistia a um jogo de futebol.
Brunello, Barolo, Meursault-Blagny......Garrafas importantes (caras) e não exatamente indicadas para uma tarde futebolística.

Uma corrida ao supermercado mais próximo, uma rápida pesquisa na gondola do tinto e....por que não um "Chianti Ruffino"?

Bingo!

Aquela garrafa, de R$ 69, me acompanhou por toda a tarde, parte do dia seguinte e me fez lembrar como estava certo o conde Ricasoli quando elaborou o primeiro disciplinar do Chianti.

O Chianti Ruffino, vinificado com 70% de Sangiovese 30% de Canaiolo e Malvasia, apresenta razoável estrutura, aromas floreais, frutados e com ligeiro toque de especiarias.

Leve fácil de beber o Chianti Ruffino vale todos os R$ 69 gastos na aquisição.

É bom lembrar que, pelo mesmo valor, não há garrafa nacional que chegue aos pês do vinho toscano

Confira

Dionísio

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

9.430 II


 


Já ouviu falar da Basilicata?

Provavelmente não, mas a Basilicata, pequena região do sul da Itália, merece atenção especial no "Almanaque Biotônico Fontoura Nível 3 WSET".
 

Apesar de seu ótimo "Aglianico del Vulture", no panorama vinícola italiano, a Basilicata é de limitada importância e não pode ser comparada à Lombardia, Emilia-Romagna e Sardenha.
 
 

A Lombardia, região mundialmente conhecida por seus espumantes "Franciacorta" e "Oltrepò Pavese", por seus grandes vinhos da Valtellina (Sfursat, Grumello, Sassella, Inferno), não merece uma linha sequer no livro do "Biotônico Fontoura Nível 3 WSET".
 

O que dizer, então, da "esquecida" Emilia-Romagna e de seus 7,9 milhões de hectolitros de vinho?

O Lambrusco, um dos vinhos mais populares do planeta, não merece uma palavra sequer?

O ótimo Sangiovese di Romagna, idem?

A milenar viticultura da Sardenha, com seus Cannonau, Vermentino, Carignano, Vernaccia, não existe?
 

Para nós existe, mas a WSET só pensa na Basilicata.

Mais algumas perolas do "Almanaque Biotônico Fontoura Nível 3 WSET"

"A região de Barbaresco, mais pequena (sic) do que Barolo, também é conhecida pela Nebbiolo. Tem encostas com orientação sul, mas a menores altitudes do que as de Barolo (200 - 400 metros). A menor altitude e a influencia de um rio local fazem com que a Nebbiolo emadureça mais cedo aqui do que em Barolo...."

Já vi afirmações imbecis, mas essa é "hors concours"; típica afirmação de quem pescou informações no Google e pescou errado.

 
O rio da região é o Tanaro (pronuncie Tánaro).

O Tanaro é um rio que passa mais bem mais próximo das vinhas de Nebbiolo, em Roddi e Verduno, aldeias da DOCG "Barolo", do que as da DOCG Barbaresco (Barbaresco, Treiso e Neive).

O Tanaro não influencia em nada as vinhas de Nebbiolo de Barbaresco e de Barolo.

A composição do solo, esta sim, é a grande responsável pela diferença entre as duas DOCG.

A composição do solo das onze aldeias onde nasce a DOCG "Barolo" é prevalentemente argilosa.

O solo nas quatro cidades da DOCG Barbaresco apresenta exatamente o contrário: maior presença arenosa.

Nada mais simples, nada mais revelador: O terreno, somente o terreno, determina as pequenas diferenças que distinguem os vinhos das duas DOCG

Querem mais uma idiotice do "Almanaque Biotônico Fontoura Nível 3 WSET"?
 

O curso informa, erradamente, que a menor altitude das colinas, da DOCG Barbaresco (200 - 400 metros), faz emadurecer a Nebbiolo antes que cachos da DOCG Barolo.

No disciplinar do Barbaresco a altitude máxima permitida, para o plantio das vinhas, é de 550 metros.

No disciplinar "Barolo" os vinhedos não podem ultrapassar os 540 metros.

É fácil perceber que as colinas de Barbaresco são tão elevadas quanto às de Barolo.

O "Almanaque Biotônico Fontoura Nível 3 WSET" nem consultou o disciplinar das duas DOCG para perceber que não há diferença de altitude nas colinas das duas denominações.
 

A mais bela pérola do "Almanaque do Biotônico Fontoura Nível 3 WSET" foi reservada à DOC Soave.

Os mestres, da renomada escola inglesa, escrevem: "A região de Soave fica a leste de Verona e abrange duas partes distintas: o sopé das montanhas, no norte e a planície rasa perto do rio Pò"

Erro 1: Não há montanhas em Soave. Há apenas colinas cuja altitude não ultrapassa os 500 metros.

Erro 2: O rio, próximo da planície de Soave, é o Adige. As águas do rio Pò correm, alegremente, 70 quilômetros mais ao sul.
 

 Meus parabéns..... Você, que desembolsou R$ 9.430 para "compreender o vinho", vai receber o título de eno-palerma WSET.

Há muitíssimas outras bobagens, mas gastaria muito tempo para enumerá-las e meu saco não aguentaria.

Minha crítica se limita apenas (nem todas) às bobagens "italianas", mas uma pequena incursão pela Borgonha revelou mais uma idiotice.

O "Almanaque Biotônico Fontoura Nível 3 WSET" comete mais dois inacreditáveis erros: "Existem várias denominações village na região do Mâconnais, de entre as quais, as duas mais famosas são Pouilly-Fuissé e Saint-Veran....... As videiras estão implantadas nas encostas calcárias da Roche de Solutré e gozam de exposição este e sudeste".

Ok, tudo bem, mas as vinhas da AOC não estão implantadas, também, na pouco distante (1,2 km) encosta da Roche de Vergisson?

Os "professores" do "Almanaque do Biotônico Fontoura WSET" nunca foram a Puilly-Fuissé.
 

Comentar as vinhas da Roche de Solutré e "esquecer" de mencionar aquelas da Roche de Vergisson é uma colossal piada, tão colossal quanto à imponente Roche de Vergisson.

Se os alunos brasileiros tivessem feito um curso "nível 3" no Google teriam obtido melhor resultado e economizado R$ 9.430 que poderiam ter sido gastos na compra de ótimos vinhos.

Mais uma informação: Se você quiser cursar o nível 1-2-3 na "Accademia del Vino WSET" em Milão, Viale Monza nº 8, gastará 1.860 Euros (R$ 8.370).

Um pequeno detalhe: A renda per capita de 2016, no Brasil, foi de R$ 30.407.

 
Na Lombardia (Milão) 37.258 Euros (R$ 172.160)

Dionísio.