Todas as sextas quando leio, no suplementodo
Correio Braziliense, “Favas (mal) Contadas”, sempre
assusto: As matérias da vetusta Liana me transportam imediatamente para as séries
cinematográficas “Sexta Feira 13” ou “A Hora do Espanto”.
É inacreditável: Nos longos anos, de existência da coluna,
nunca li algo que não fosse matéria elogiosa e “plantada” por donos de restaurantes,
bares, vinícolas, importadoras etc.
A Liana é o maior exemplo de redundância jornalística.
Elogiar, para faturar, é preciso.....
Na última “Sexta Feira
13” a coluna, mais oportunista que nunca, entrevista a enóloga que criou o “Faces”.
Para quem não sabe e não bebeu (ainda bem), “Faces” é aquele quase vinho que a Carraro lançou aproveitando
a a copa do mundo de futebol.
A matéria é cheia de pérolas.
Veja:
Esta coluna não se cansa de lembrar: foi uma empresa familiar
gaúcha, a Lidio Carraro, no estilo vinícola-boutique, com produção de apenas
300 mil garrafas/ano, quem desbancou a poderosa bodega chilena Concha Y Toro na
escalação para produzir o vinho oficial do campeonato mundial. Lançado na Copa
das Confederações, o tinto Faces (tem ainda branco e rosé) já correu o mundo.
Antes mesmo de ser servido nos
camarotes VIPs das arenas, vem sendo vendido na rede francesa Monoprix.
O vinho traduz a homenagem de sua
criadora, a enóloga Mônica Rossetti (foto), de 30 anos, ao futebol. Ela buscou
inspiração nos 11 jogadores que formam um time para elaborar com o mesmo número
de
castas o delicioso líquido 100% brasileiro.
1)
A Carraro não desbancou ninguém, apenas pagou mais
do que a rival chilena.
2)
Produção de apenas 300.000 garrafas? Gian
Alessandria produz 40.000 e não é “vinícola-boutique”
3)
Os coitados VIP são obrigados a beber o “Faces”? Maldade,
pura maldade....
Depois da melosa introdução a nossa
degustadora de “....delicioso líquido 100% brasileiro” entrevista a enóloga culpada
pela elaboração do “Faces”
A pergunta: Como foi o processo de inspiração e seleção das 11 castas que entraram
na elaboração do vinho da Copa?
“A inspiração nasceu assistindo a uma partida de futebol com meu
pai. Estávamos conversando sobre o desafio de elaborar um vinho tinto com o
mesmo êxito que eu havia tido no corte do vinho branco, então no fim do jogo
ele comentou: “Não te preocupas que amanhã Deus te abençoará na escalação do
teu time”. Foi dessa indicação que eu pensei em escalar realmente um time de
uvas em homenagem ao futebol. Para definir quais uvas escalar e em qual proporção,
pensei em usar um esquema tático do futebol e fazer uma analogia entre as uvas
e a função de cada jogador em campo. Então escolhi o 4-4-2, em que teríamos 2
uvas atacantes (Merlot e Cabernet Sauvignon), 4 no meio de campo, com a função
de complexidade aromática e volume de boca (Tempranillo, Teroldego, Touriga
Nacional e Pinot Noir), 4 na defesa com função de conferir corpo ao vinho
(Tannat, Nebbiolo, Alicante Bouschet e Ancellotta) e um goleiro (Malbec),
responsável pelo retrogosto.
A enóloga, de 30 anos, afirma que Se inspirou nos 11 jogadores para
elaborar com o mesmo número de castas o delicioso líquido 100% brasileiro.
O liquido 100% brasileiro é obtido com 100% de castas
importadas, mas tudo bem...
O momento mais meloso, terno e fofo da entrevista, atinge
nossos amolecidos corações quando a “Rolanda Lero” gaúcha confessa
ao pai suas apreensões para elaborar mais um quase vinho da Carraro.
O momento é sublime e lembra a pureza de “A Noviça
Rebelde”
O
pai: ”Não te preocupas (gauchês puro) que amanhã Deus te abençoará na escalação do teu
time”.
Ainda bem que o Deus invocado não se lembrou dos reservas e da
comissão técnica, caso contrário nossa enóloga teria lascado mais de 40 castas na
produção e ganharia o Guinness por ter realizado a maior “suruba” vinícola do
planeta.
Por uma questão de bom senso e para preservar o estomago dos
leitores, deixo de reproduzir o restante da matéria.
Apenas um comentário: Uma enóloga de 30
anos, já contaminada pelo marketing barato e oportunista, tenta transmitir que
o vinho Faces foi realizado após inspiração divina.
Balela!
Palhaçada!
Picaretagem!
Numa atitude mais séria e mais profissional, nossa jovem
enóloga, deveria dizer: “A Carraro,
aproveitando a copa do mundo, lançou um produto com 11 castas. Eu apenas
assinei esse vinho suruba que está sendo comprado por um monte de trouxas”.
Coitados dos VIP que são obrigados a beber aquela......
Dionísio





















