Facebook


Pesquisar no blog

terça-feira, 27 de julho de 2021

NOSSA HERANÇA CULTURAL

 


Sorrio, “monalisticamente”, quando leio nas revistas, blogs, redes sociais etc., as pagas e patéticas reportagens que “endeusam” os vinhos nacionais na tentativa de impô-los, finalmente, às mentes e taça de nossos consumidores e enófilos.

Luta inglória!

Já não lembro quantas críticas B&B publicou sobre o tema e não posso prever quantas ainda publicará: Nossos empresários do setor não param de veicular propagandas mentirosas e nós continuaremos a denunciar.

A luta é quixotesca, mas nossa pele e grossa….


Todas as semanas há, na mídia, uma, duas ou até mais, notícias alvissareiras que exaltam a qualidade de nossos vinhos, das medalhas conquistadas em concursos picaretas, da excelência de nossos espumantes e do crescimento “impressionante” do consumo.

Belas balelas.

Nada há de verdadeiro, sério, crível, nas propagandas pagas que navegam nos jornais, revistas, redes sociais, blogs etc. e os consumidores aos poucos vão percebendo a malandragem e sempre mais, se afastam buscando os vinhos importados.


Minha opinião: O Brasil, nas próximas décadas, não será um produtor importante, respeitado (ninguém respeita quem vinifica 80% de seus quase-vinhos com uvas não viníferas) e o consumo continuará beirando o ridículo.

Nunca me preocupei em apontar “os meus porquês” pois é notório que a qualidade medíocre e os preços franceses são barreiras que nossos produtores (e importadores) não conseguem, ou não querem, enxergar e derrubar.

Com a idade avançando perde-se força, reflexos, desejos, paciência, cabelos, dentes, memória etc., mas alguns ganhos, há: Barriga, rugas, dores etc.


 Neste cenário, nada animador, devo confessar que com a idade algo melhorou:  observação mais apurada e análise mais profunda.



Sentado em um wine-bar, na maravilhosa Arezzo (esta cidade merece uma matéria que prometo escrever, breve), consultei, como de costume, a carta de vinhos em taça e pude notar que havia mais de vinte opções entre as quais nada menos que cinco etiquetas de Champagne.


Até aí nada de extraordinário, pois todos os wine-bares italianos exibem listas interessantes, mas poucos locais propõem 5 etiquetas de Champagne.

Aproveitando da “fartura francesa” ordenei uma taça de Champagne 1er Cru e iniciei minhas costumeiras observações do local e das pessoas que me circundavam.

O wine-bar, “Barberia”, se localiza bem no centro histórico, da medieval Arezzo, na pracinha “San Francesco”.

A pequena praça, guarda, orgulhosa, a basílica edificada no XIII século em homenagem a São Francisco de Assis um dos mais icônicos santos da igreja católica.



Pois bem, na praça, com aproximadamente 1.000 m², há sete wine-bares e dois restaurantes.

O bar mais famoso (não o melhor) é o multicentenário   “Caffè dei Costanti”.

O “Caffè dei Costanti” nasce em 1804, aparece em algumas cenas do filme, do toscano Roberto Benigni, “La Vita è Bella”, mas nos últimos anos perdeu sua proverbial qualidade e já não é o que mais frequento.


Prefiro os ótimos “Casa di Piero”, “Barberia” e “Sottopiazza”, onde a há extensas e bem elaboradas listas de vinhos em taças além de várias etiquetas de Champanhe que os garçons não relutam em abrir.

18,30 horas......Bares lotados, burburinho, alegria contagiante pela quase liberdade pos-covid, taças sendo esvaziadas e reabastecidas…ambiente alegre, mas não barulhento, regado a vinho.


Um detalhe chamou minha atenção: A grande presença de mulheres elegantes, desacompanhadas e não tão jovens (viúvas?) bebendo seus Prosecco, Franciacorta, Champagne, vinhos brancos e spritz (no verão somente turistas chineses e russos bebem vinho tinto) na maior tranquilidade e alegria.

Cenário improvável, inimaginável, diria, nos bares de nossas, nem sempre tranquilas, cidades.

Não pense que as balzaquianas se limitam a beber apenas uma taça: As senhorinhas esvaziam copos e mais copos com inusitado entusiasmo.

Enquanto ordenava minha segunda taça de Champagne pensei se e quando, no Brasil, seria possível encontrar algo parecido.

Minha resposta, após longa meditação, nunca!

Além da baixa qualidade e dos preços absurdos de nossos vinhos, ainda há o fator cultural: No Brasil há cultura de cachaça e cerveja, mas não de vinho.

Exemplo?

Quantas canções de sucesso, mencionando cerveja e pinga, você conhece?


Quer uma ajuda?

 Camisa Amarela - Marvada Pinga – Um Chope Prá Distrair, Cachaça Não é Água – Mudando de Conversa – Cachaça Mecânica- Pinga Ni Mim – Mulher Patrão e Cachaça.....


Se pesquisar, um pouco, encontro mais 50.

Tente, agora, lembrar alguma música de sucesso mencionando vinho...

Difícil, né?

Não há cultura, tradição e nem grana para beber vinho em taça no Brasil.

Não acredita?

Abra um wine-bar na sua cidade e depois me conte.


Bacco

PS. Estava terminando a matéria quando um leitor de B&B me enviou a foto da carta de vinhos de um hotel em Gramados.



  Mais uma prova que não há remota possibilidade de democratizar o consumo de vinho no Brasil

Mais uma coisa: Gostaria de conhecer pelo menos um eno-palerma que teve a coragem de gastar meio salário mínimo para beber um quase-vinho nacional e entregar-lhe o Oscar de enoloide do século.

     

11 comentários:

  1. Sempre me perguntei a razão dos locais no Brasil não servirem taças fartas (e baratas) do "segundo melhor espumante" do mundo. Já que dizem isso, por que não difundir e fazer as pessoas beberem a bons preços? Mas não. Preferem vender a preços absurdos, como aqueles da carta de vinho do hotel que você mostrou, que é um completo disparate.
    Salu2

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É a cultura da picaretagem , escárnio e desrespeito ao enófilo e não vai melhorar , creia.

      Excluir
    2. A razão é simples, se o cliente beber uma taça, ele não vira vítima da garrafa!

      Excluir
  2. Estimado pestis emeritvs: Continuando na parte cultural: Quantas horas por semana o homo bananicus devota a televisao e quantas horas a leitura? Quantas horas por dia o homo bananicus escuta musica classica, opera, jazz, boa mpb (rara, mas existiu), bom rock and roll (ingles) e quantas horas por semana o HB escuta funk, anita, jojo todinho, mc nao sei o que? Quantas refeicoes caseiras bem feitas tipicas da cozinha regional local (ainda que baratas) sao consumidas para cada big mcfezes (caro)? Quantos filmes otimos (nao ha limite agora com streaming de todo tipo) foram assistidos para cada bbb ou qualquer outro reality show? Quantas horas se gasta num shopping center caro, esteril, descartavel e quantas horas gastamos num museu (ainda que sejam mal conservados e pobres, esses existem em varias cidades)?

    Chega de comparacoes ruins. Hoje acordei com Ciro Nogueira de quase-primeiro ministro. Essa era a boa noticia.

    Ja perdi todas as esperancas ha tempos.

    ResponderExcluir
  3. Caro anônimo"ma non troppo" não perca as esperanças. Li que a UNESCO declarou o Aziz e o Calheiros patrimônios da imoralidade. È um avanço kkkkkkkk

    ResponderExcluir
  4. O que esperar de um povo que agora tem como principal prioridade estraçalhar com a língua portuguesa? Agore, todes teremes que falar o lingue neutre.

    ResponderExcluir
  5. Caro Bacco, quem sou eu para recomendar alguma coisa para quem tem uma história no mundo do vinho como você, mas não pude deixar de perceber que na carta de vinhos do winebar que você esteve em Arezzo estava disponível o Rosato A Vita, que chega no Brasil pelo trabalho da Wines4U por honestos 116 reais. Um tinto leve e muito agradável. E sim, não é publipost não: apenas um registro de reconhecimento para quem tenta trazer alguma coisa para o Brasil em preços minimamente razoaveis. Saúde!

    ResponderExcluir
  6. Há , sim, muitos importados com preços razoáveis, justos, mas há , também, incontáveis predadores. O Rosato A Vita por R$ 116 é barato, pois na Itália custa + ou- 15 Euros.

    ResponderExcluir