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quarta-feira, 20 de junho de 2018

ADIEU BORDEAUX


Já tive, na vida, o grato prazer de tomar ótimos Bordeaux tintos, brancos e passando por Sauternes.
 

Alguns deles, nem nos sonhos mais eróticos, eu imaginaria serem tão bons.
 
 
 

Acho bonitinha toda aquela classificação dos "Grands Cru Classés" de 1855 (não sou apto a dizer se a seleção foi tão isenta e correta como uma licitação da Petrobras).

 Empolgante, também, toda a tradição e história, o porto que salvou a França, a proximidade com Inglaterra (ingleses sedentos salvaram Porto e Bordeaux seguramente), as lojas que orgulhosamente anunciam um “depuis 1700 e bolinha” etc. etc.

Os vinhos de Bordeaux constam em mercados de derivativos, movem a economia, dão pilares às pragas-pagas críticas bem remuneradas, publicações mil, filmes e documentários que emocionam até quem tem Alzheimer.

Tudo seria lindo se os preços cobrados pelos Bordeaux refletissem a realidade do que há na garrafa.

 
Francês há tempos finge (bem, até) ser bobo, mas eles cobram sempre exageradamente pelo que apresenta na garrafa, na taça, no prato, na roupa, cinema (quanto diretor blefe há por lá)... Francês adora contar historinhas sobre terroir de manteiga, sobre terroir de queijo, sobre o imperador tal e tal que abençoou o produto e....... nós pagamos.

Falando em terroir, outra coisa curiosa, em relação à Bordeaux, é o fato que o mundo do vinho tende, hoje, a valorizar o terroir.

O "terroir" dificilmente pode ser defendido em Bordeaux.

Bordeaux é o paraíso dos blends e dos laboratórios onde muitas mágicas tecnológicas acontecem.

 
Diferentemente do que pensam os enófilos, doutrinados à base de blogs especialistas em vinho chileno ou da "Serra Santa", no mundo civilizado há escolhas.

Pelo mesmo preço, ou bem menos do que os bordoleses “pedem” pelos "Grands Crus Classés" básicos, temos portugueses, italianos, espanhóis e até franceses, de sonho (dos melhores sonhos).

Só na França há um caminhão (época difícil para falar em caminhões.....) de apelações que produzem super vinhos com preços melhores.

Se entrarmos em Itália, a conversa não tem fim.

O que há para justificar os preços de Bordeaux?

 Longevidade na garrafa, classe, reputação, certeza de boa qualidade, exclusividade?
 

Ok, mas nem mesmo sendo torturado com um discurso do Suplício-Suplicy, pagaria $ 200, ou bem mais, por uma garrafa de "Grand Cru Classé" somente pelo prazer de parecer “especial” fazendo cara de expert e alardear que comprei um vinho realmente espetacular.

 
Vou viver muitíssimo bem sem Bordeaux.

B&B há anos implora os felizardos a buscarem alta qualidade (quase todo mês há alguma dica de uva ou vinhos desconhecidos) fora das regiões adoradas pela massa brega e preguiçosa.

Creio ter aprendido bastante coisa com eles, além de vinhos que podem conter aroma de ouriço, peixe de rio, esparadrapo (saudades) e outras sandices.
 

Que tremam os mercados, que soprem as cornetas das falências, quero que o Luisque e todos os políticos corruptos brasileiros morram na cadeia se eu comprar mais um Bordeaux famoso ou um grand-cru-classé-da-vida, novamente.

Goodbye, Bordeaux!

Hora de gastar meus bolivares com Portugal, Espanha, França, Itália e, se entrar na pauta dos caminhoneiros, até vinhos da "Serra Santa".

 
Bonzo

 

terça-feira, 19 de junho de 2018

MEA CULPA.....MEA MAXIMA CULPA


Há pouco mais de um mês critiquei, severamente, um vinho de Bruno Colin: Chassagne-Montrachet 1er Cru "La Boudriotte" 2014.
 

Na ocasião, o excesso de madeira, manteiga, baunilha etc., me haviam impressionado negativamente e comparei o vinho do Colin aos Chardonnay californianos.
 
 


Ontem, decidido em acabar o estoque de garrafas, do Bruno, resolvi abrir uma de Chassagne-Montrachet 1er Cru "Les Chaumées".

Enquanto derramava, um pouco de vinho na taça, já me preparava para ser soterrado por um tsunami de manteiga, madeira, álcool etc..

Sem nenhum entusiasmo levei "estoicamente" a taca ao nariz.

O que se apresentou ao olfato foi uma onda de elegantes e sofisticados aromas florais, cítricos e uma leve e contida nota amanteigada.

Por um segundo pensei ter aberto a garrafa errada, mas ao verificar a etiqueta constatei que aquela era, sim, uma garrafa de Chassagne-Montrachet 1er Cru "Les Chaumées" de Bruno Colin.

Pude perceber claramente o aroma de "biancospino" (espinheiro branco) que agora, na primavera européia, invade minhas narinas.

 
Os outros aromas, tantos e tão elegantes, mudavam a cada instantes, se confundiam e seria impossível, pelo menos para meu olfato, conseguir reconhecê-los em sua totalidade.

Para decifrar todos os "odores e olores" seria necessário um nariz privilegiado, olímpico, como o de nosso escalador de cruzes medievais: Beato Salu.

 
Beato, "o escalador", é o único ser humano com capacidade e coragem para encontrar até "aromas de ouriço do mar" em uma taça de vinho.

Na boca a surpresa foi maior.

A opulência, típica dos Chassagne-Montrachet, a "californização", o excesso de manteiga, madeira, baunilha etc., presentes no "La Boudriotte" do Colin, que eu criticara e detestara, sumiram e apareceu a rara fineza, elegância, equilíbrio e muita classe.

Não tenho receio em classificar o Chassagne-Montrachet 1 er Cru "Les Chaumées" de Bruno Colin como um dos melhores brancos provados em 2018.

 
Uma nota negativa: 56 Euros são muitos.

Uma garrafa, como esta, no Brasil, dos enófilos estuprados, custaria hiperbólicos R$ 1.000/1.200.

Bacco

 

 

 

 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

PICOLIT 2º


 
 
 

 
 
Bacco dando uma verdadeira aula de Picolit e ainda há alguns críticos que afirmam não ser necessário conhecer o território para poder falar de vinho.

 






Na manhã seguinte, após um belo descanso no “La Sorgente”, agro-turismo bem na entrada do "Valle Cialla", saí à procura do Picolit dos tempos perdidos.

Não precisei me deslocar muito: já sabia, perfeitamente, onde procurar.

Subindo as colinas do vale Cialla, alguns quilômetros e muitas curvas depois, encontrei a vinícola "Ronchi di Cialla".

A Ronchi di Cialla era a minha meta da DOCG Picolit Cialla. (“ronchi” é a versão italianizada de “roncs” que em dialeto Friulano significa: colinas)

 
Os cônjuges, Paolo e Dina Rapuzzi, me receberam, em sua bela propriedade, com rara gentileza e simpatia e ministraram uma verdadeira aula de Picolit e de outros vinhos do Friuli.

Havia reencontrar o verdadeiro Picolit.

No vídeo anexo mesmo aqueles que não entendem o italiano não terão grandes dificuldades em perceber o que aconteceu com o Picolit.

 Na entrevista, Paolo explica com clareza e objetividade quais foram os erros que quase acabaram com o Picolit e como este grande vinho foi salvo.

Quem não possui grandes conhecimentos da língua poderá acompanhar, mais facilmente, lendo meus comentários.
https://www.youtube.com/watch?v=JxBKqeMldWM

Iniciei perguntando sobre o Tocai e Paulo me surpreendeu ao me declarar que o Tocai é uma sub-variedade do Sauvignon é foi implantado no Friuli após a primeira guerra mundial.

Quando o provoquei, perguntando o que havia acontecido com o Picolit, Paolo deu uma risadinha e me mostrou o caminho das pedras.

 
Comentou que, a verdadeira uva Picolit, sofre um aborto floreal e acabava produzindo cachos com pouquíssimos bagos.

Este “defeito” é, na realidade, a razão da grande qualidade deste vinho maravilhoso e raro.

Em seguida o viticultor me mostrou dois cachos de uva Picolit que ilustram perfeitamente o porquê do vinho ser tão raro e... tão caro.

Como sempre ocorre, a ganância, o ganho fácil, a falta de seriedade e o pouco caso com a tradição, falaram mais alto.

 Nas décadas de 50/60 foi selecionado e plantado um clone chamado “Picolit R3” que não sofria o aborto floreal.

A produção aumentou, mas a qualidade foi para o espaço.

Paolo, apesar de odiar o “Picolit R3”, não encontrando mais mudas da casta original, o plantou, assim como fizeram todos os outros viticultores e vagarosamente, mas de modo inexorável, o verdadeiro Picolit foi desaparecendo.

Nos anos 80 Paolo recebeu um telefonema, do centro de experimentação agrária da região, informando que haviam encontrado quase uma centena de velhas videiras Picolit na propriedade de um viticultor mais que octogenário.

Os técnicos estavam preocupados com o estado físico do viticultor e temiam que , quando não mais pudesse cuidar delas , a vinha poderia desaparecer.

Paolo tinha acabado de comprar um hectare com vinhas de Tocai, mas não estava interessado em produzir aquele vinho.

O Tocai não estava nos planos  do viticultor e queria extirpá-lo para plantar, em seu lugar, Ribolla Gialla.

Quando surgiu a oportunidade, dos enxertos “Picolit", Paolo não pensou duas vezes e  , naquele hectare de Tocai, começou a produção de seu “Picolit Cialla”.
 

Nos primeiros seis anos o fracasso foi total.

Os cachos doavam dois ou três bagos, no máximo, e acabavam sendo misturados com as uvas provenientes da variedade Picolit R3.

No décimo ano as vinhas começaram a dar um pouco mais de si.

Neste ponto, Paolo, separa os dois cachos e os mostra.

Continua dizendo que para fazer uma garrafa, de 500 ml de Picolit Ronchi di Cialla, são necessárias uvas colhidas em seis videiras.

Com o sucesso do seu vinho, apesar da baixa produtividade, Paolo erradicou todas as vinhas de Picolit R3 e hoje, em sua propriedade , há 3,5 hectares de Picolit que proporcionam, pasmem, uma produção de 2.000 garrafas de 500 ml. (na verdade são produzidas 2.800 de meio litro)

A vinificação é igual àquela relatada pelo conde Asquini que, no século XVII, produzia o Picolit com 50% de uvas frescas e 50% de uvas-passa.

Neste ponto a esposa, Dina, abre uma garrafa de um belíssimo Schioppettino di Cialla.
 

Salute e..... como faço para voltar a Cividale del Friuli?

Bacco

 

quinta-feira, 14 de junho de 2018

PICOLIT 1º


 


Mais uma matéria, escrita, por Bacco, há mais de 10 anos, que merece ser reeditada ainda mais agora que nossos sommeliers retornaram do Canadá com zero medalha e tentarão melhor sorte (hahahahaha) no campeonato mundial.

É bem provável que o Picolit não faça parte dos itens de um concurso que só interessa a quem dele participa.

 O campeonato "dos pavões das taças de cristal" (Riedel?) se interessa mais pelas regiões vinícolas da Bélgica (hahahaha) e uvas autóctones da Etiópia (hahahahahahahahahaha), mas sempre e melhor prevenir que se ferrar.
 

Nenhuma importadora patrocinará, uma viagem ao Friuli para que nossos sommeliers possam conhecer o Picolit.

  B&B, sempre presente e interessado em aumentar o consumo de vinho de ridículos 1,7 litros-ano para 1,74 litros-ano, traz, gratuitamente, o Picolit ao Brasil
 

Bom proveito

Dionísio

Nos, agora quase esquecidos, anos 1970, eu considerava o Picolit um dos grandes vinhos italianos.

Não um entre os 50 – 60 -100, mas um entre os 10 melhores e, felizmente, bebi naquela década algumas garrafas extraordinárias.

Com o passar dos anos, não sei qual a razão, a qualidade do Picolit foi diminuindo vertiginosamente e atualmente não é nem a sombra daquele vinho que permanece armazenado na parte mais recôndita e exclusiva da minha memória vinícola.

O Picolit dos tempos modernos deixa saudade do Picolit d’antan.

Não quero ser leviano, mas tenho a impressão que o Picolit de hoje é um vinho produzido com cachos não tão “Picolit”.

Há um, ou vários, estranho no ninho...

O estranho, entre outros, tem um nome: Ramandolo.

O Ramandolo não é certamente uma casta qualquer, mas não pode ser comparado, em qualidade e nobreza, ao Picolit.

Infelizmente o Picolit é uma uva atacada por um aborto floreal que limita cachos em apenas 10 ou 15 bagos.

Esta “pão-duragem” resulta em uma produção que não ultrapassa os 500 hectolitros de vinho obtidos em, aproximadamente, 70 hectares de vinhas espalhadas por um pequeno território quase na divida da Itália e Eslovênia.

É fácil perceber, então, que o Picolit é raro, caro e, por esta razão, nem sempre 100% honesto...

O disciplinar DOCG determina que 85% das uvas, com as quais é produzido, sejam de Picolit e, os 15% restantes, uvas brancas locais com a exclusão do Traminer Aromatico.

Apenas um pequeno cru, denominado “Cialla”, localizado no município de Prepotto, é autorizado pode vinificar o Picolit com 100% de uvas homônimas.

Sou da opinião que não se deve falar de vinho sem conhecer sua história, o povo que o produz, a geografia da região, a cultura local, como é vinificado etc.

Em meados de outubro iniciarei uma viajem para redescobrir o Picolit e, como sempre, estou certo que encontrarei ,assim como ocorreu com o Verdicchio,quem produz com seriedade e paixão o grande vinho friulano.

 
Em Cividale del Friuli montarei minha base logística dando maior importância ao território que circunda esta belíssima cidade medieval.

Aguardem

Bacco