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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

UM BAGO = 20 EUROS



 

Procurando informações, que me ajudassem a descobrir o quanto são otários os “Conti-Otários”, encontrei um excelente artigo, no site da Slowine, que revela, em detalhes, até onde pode chegar a vaidade insana de alguns enófilos.

A Slowine inicia a matéria perguntando se alguém já parou para pensarine quanto custa um único bago de Pinot Noir proveniente do Grand Cru Romanée-Conti.

Aos poucos a Slow Food vai revelando interessantes dados do estudo.

Tomei a liberdade de corrigir os números da Slowine em 25%, pois, com o aparecimento dos chineses no mercado comprador, a garrafa de Romanée-Conti sofreu uma valorização de exatos 25%.

A Slow Food, após pesquisar e calcular com cuidado, chegou à conclusão que um simples, um singular bago de Pinot Noir, proveniente do Grand Cru Romanée-Conti, custa, insanos, 20 Euros!!!!!!!

Não estou revelando o valor de um cacho, estou me referido a um único bago de uva!

O estudo foi realizado tendo como base o preço médio de uma garrafa de Romanée-Conti (10.000 Euros) e o peso médio de um bago de Pinot Noir (2 gramas).

O mesmo estudo revela que um bago de uva Barbera DOC, no Piemonte, custa 0,0016 Euros.

Quase 12.500 vezes menos!

O assustador é que estamos falando da mesma coisa: Uva.

Caro turista brasileiro, tome muito cuidado ao visitar o mítico Grand Cru.

No momento da imprescindível foto, para postar no instagram e matar de inveja os amigos, não sucumba à tentação de provar dois ou três bagos daquele cacho próximo da mureta.

 Caso for flagrado ...... multa de 60 Euros.
 

Mais um comparativo: 3 bagos de Romanée-Conti = 1 de Clos De La Roche Grand Cru 2008
 
Sempre é bom lembrar que uma garrafa de Romanée-Conti, indicada para amenizar a sede e a vaidade do novo rico, ou velho trambiqueiro, custa tanto quanto um Peugeot


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

VIVA OS ENO-OTÁRIOS


 




Qual o vinho mais caro que já comprei?

Os 16 obstinados leitores que ainda nos acompanham na quixotesca jornada de desmistificar os “críticos-bocas-livres”, que surgem como cogumelos no mundo do vinho nacional, sabem perfeitamente que meu teto atinge, no máximo, 100 Euros por uma garrafa prestigiosa. 
 
100 Euros é meu limite porque não acredito que uma garrafa possa custar mais do que isso, aliás, 100 Euros já é um exagero.

Não deveria nem poderia, mas quando até no Brasil são produzidos “quase vinhos” que custam mais de 100 Euros é natural que eno-otários, bebedores de etiquetas, não hesitem, nem um segundo, em desembolsar qualquer quantia para obter garrafas premiadas com 90 –95-98 -100 “pakerianos-pontos”.
 

Uma única vez gastei 200 Euros por uma garrafa (comprei duas) de Montrachet e quase implorei para comprar.

Porque gastei tanto assim?

Seria uma falha enorme se eu não me familiarizasse com o vinho considerado o top da casta.

O preço pago foi “barato” graças à interferência do Massimo Martinelli.

O Montrachet, nas lojas, custa 350/550 Euros.

200 Euros por um Montrachet não é uma loucura especialmente se levarmos em conta o seguinte: O Grand Cru Montrachet é uma área de 7 hectares,99 ares e 80 centiares localizada em Puligny-Montrachet e Chassagne-Montrachet.
 

O terreno pertence a 18 viticultores e 26 são os engarrafadores.

Os números não batem?

Acontece que vários proprietários arrendam suas propriedades para vinícolas que cuidam das vinhas desde a poda até a vinificação e recebem, como pagamento, parte do vinho já pronto e etiquetado.

A percentagem de cada um é um mistério.

 50% das vinhas do Montrachet estão na mão de três proprietários: Marquês de Laguiche abocanha quase 2 hectares (as uvas são colhidas e vinificadas pela vinícola Drouhin).
 

A Domaine Baron Thénard é dona de pouco mais de um hectare.
 

A Maison Bouchard Père & Fils possui um pouco menos de um hectare.


A última transação imobiliária, de que se tem notícia, foi realizada em 1993 quando o Château de Puligny comprou 428 m² de vinhas no Montrachet pela bagatela de 540 milhões de francos (533 mil Euros atuais).

O preço das 40/48 mil garrafas anuais de Montrachet são disputadas por centenas de milhares de apreciadores, daí seu preço exorbitante.

A pergunta que quero fazer é a seguinte: Quem é o maior eno-asno?
 

Aquele que compra uma garrafa de Romanée-Conti por 15.000 Euros ou aquele que adquire uma de Montrachet, da mesma vinícola, por 4.500 Euros?

Para mim, ambos merecem o prêmio de eno-toupeiras do ano, mas o mais idiota é, sem dúvida, o eno-anta que comprou o Montrachet de 4.500 Euros.

Explicando: O Romanée-Conti, é um “monopole” (LaTâche também é), ou seja, pertence, em sua totalidade, à Domaine de La Romanée-Conti e não tem “concorrentes”.

O viticultor vizinho (2 metros) vinifica um vinho tão bom quanto, mas não conseguiria, jamais, vender seu Vosne-Romanée pelo preço de uma garrafa de Romanée-Conti.

No Montrachet a realidade é outra.

Um dos vizinhos (mesma fileira) da Domaine de La Romanée-Conti é a Domaine Marc Colin et Fils
 

Marc Colin é um excepcional viticultor de Saint-Aubin e seu renomado Montrachet pode ser encontrado, nas lojas, custando um décimo do irmão vinificado pela Domaine de La Romanée-Conti.
 

É bom salientar que 99,99% dos que compram o Romanée-Conti, ou um Montrachet da mesma Domaine, não sabem identificar o que estão bebendo.

Compram pelo status que a etiqueta lhes confere, mas não os distinguiriam de um Gevrey-Chambertin ou de um Blanchot-Dessus.

Pagar 4.500 Euros por uma garrafa de Montrachet é uma demonstração de desprezo pelo dinheiro.
 

Confesso que ao tomar conhecimento da montanha de dólares que os corruptos do "petróleo" concordaram em devolver aos cofres do estado, cheguei à conclusão que o eno-otário sou eu

Viva os eno-otários!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

CASTELLO DI GUARENE



Você faz ideia de quantos castelos há na Itália?

Não?

Eu, sim.....
 
 

O número, bem menor que o das igrejas (mais de 64.000), não deixa de ser impressionante: 3.179.

Só no Piemonte há 168.

Parte dos castelos pertence ao estado, outra às províncias e município, alguns aos ricaços italianos e o restante está nas mãos, ainda, de antigas e nobres famílias.

Outra pergunta: Você sabe quanto custa manter um castelo?
 

Uma dica: Certa vez fui visitar, no Friuli, uma vinícola de um conde.
Durante a visita, o nobre me confidenciou que havia gasto 400 mil Euros somente na reforma do telhado do castelo que abrigava as adegas e a parte administrativa da vinícola.
 

Nos castelos há dezenas (as vezes centenas) de salas, salões, quartos, subsolos, masmorras, alojamentos para serviçais etc....

 Castelos são imensos, dispendiosos e.....inúteis.

Para que se tenha uma ideia, há muitas comunas que simplesmente não os aceitam, quando oferecidos pelos proprietários, nem de graça.


O “Castelo di Guarene”, cidade próxima de Alba, esplendido exemplo da arquitetura do século XVIII, foi idealizado e construído pelo Conde do Roero.

Belíssima fachada, de três andares, toda em tijolos, imponente estrutura, magníficos jardins, atravessou séculos esbanjando riqueza e pompa.

Nas últimas décadas o castelo pertenceu à família Provana e sua atual proprietária, a nobre Anna Provana di Collegno, não suportando mais as despesas resolveu vender o castelo para empresários locais.

O castelo, tombado pela Unesco, passou por uma minuciosa restauração que durou quase três anos e que custou, aos novos proprietários, mais do que a importância paga na compra do imóvel.

O palácio reapareceu, no final dos trabalhos, com todo seu esplendor.  
 

Do alto, da colina de Guarene, o castelo domina orgulhosamente todo o vale e é impossível não admirá-lo ao chegar em Alba.

O fim, de todos os castelos italianos, parece ser o de sempre: Ser transformado em hotel e restaurante.

O “Castello di Guarene” não foge à regra e abriu recentemente suas portas oferecendo 15 luxuosas suítes, um completo spa e um belo restaurante.
 

O restaurante, o spa, as recepções do hotel ocupam, hoje, as antigas estrebarias do castelo.

Poucas mesas (10) bem dispostas, no imponente salão, ambiente aconchegante, pratos e talheres de primeira, cozinha refinada, mas sem excessos modernosos, colocam o restaurante do Castello di Guarene na rota dos gourmets que visitam a região.
 

Uma belíssima sequência de antepastos da casa
 

 Vieiras com purê de salsão ao molho de vinho tinto e trufas negras

 
 Cordeiro recheado com queijo Taleggio e salsa de castanha
 

 Codorna em molho de cereja, chocolate branco e foie-gras
 

 Lulas no leite com alcachofras purê e azeitona
 

 Duas taças de Champanhe Bollinger, uma garrafa de Barbaresco Produttori del Barbaresco “Rabajà” 2009, nos aliviaram em exatos 165 Euros.
 

A cozinha, chefiada por Davide Odore, nascido em Guarene, como já salientei, não entusiasma, mas é correta nos sabores e na apresentação.

O ambiente, o serviço comandado pelo eficiente maitre português, Pedro, são mais alguns motivos para se conhecer o restaurante do “Castello di Guarene”.

Bacco

 

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

CHAMBAVE ROUGE


 


Volta e meia uma preguiça quase letal me ataca, perco toda a inspiração e reduz a zero minhas postagens.

Iniciei “Compras na Borgonha III” e abandonei.
 

 Comecei uma matéria comentando um belíssimo restaurante que conheci na região de Alba e deixei pela metade.

Escrevi algumas linhas sobre aqueles que considero os maiores eno-imbecis do planeta e, por enquanto, coloquei em banho-maria.

Um completo marasmo intelectual.
 

Um comentário me despertou da letargia. 

1.    Anônimo20 de janeiro de 2015 18:15

Grande Bacco! Uma vez mais parabéns pelo texto!
E aproveitando o ensejo e dentro desse tema dos "vinhos raros" (como denominou o outro EDUARDO), estou lendo "Reflections of a wine merchant" do Neal I. Rosenthal e em um dos capítulos iniciais ele trata com tanto entusiasmo e saudosismo de um vinho italiano que resolvi perguntar se vocês conhecem. É o Chambave Rouge, da uva gros viens que, segundo o autor, é um vinho das regiões mais altas do Vale D'Aosta e que ele sequer sabe se ainda é produzido. Diz que no início da década de 80 teria tomado as safras 61, 71, 74 e 78 do produtor Ezio Voyat. Ainda segundo o autor, tal produtor não conseguiu repetir a qualidade de tais safras, mas o vinho nunca saiu de sua memória e até hoje ele (o autor), teria uma garrafa do 61.
Vocês conhecem essa denominação? Chegaram a experimentar algum vinho do Ezio? Atualmente, existe algum produtor que consiga bons resultados para esse vinho ou para a cepa gros viens nos arredores do Mont Blanc?
Desde já agradeço.
Eduardo (aquele do Freisa da Vajra)

 

O Eduardo, que já me fizera escrever uma matéria sobre a Freisa, vinho que estimo muito, mexeu com as minhas mais remotas lembranças ao perguntar se eu conhecia o “Chambave Rouge”.

1972!

Batendo um papo, com meu tio Beppe, que servira o exército na Val D’Aosta, perguntei se conhecia a “Malvasia de Nus”.

“Conheço muito bem. Quem a produzia era o pároco da cidade que tinha uma pequena vinha no fundo da igreja. Acho que ainda tenho algumas garrafas na adega”.
 

Beppe desceu as escadas, demorou um bom tempo e retornou com duas garrafas empoeiradas, etiquetas rasgadas e ilegíveis.

“Encontrei duas garrafas de “Malvasia di Nus”, mas não lembro de que safra são”.

É bom salientar que meu tio havia dado baixa em meados dos anos 50 e aquelas garrafas, então, carregavam, no mínimo, 20 anos de rolha.

Com muito cuidado meu tio abriu uma garrafa e derramou um pouco de vinho em duas taças.
 Dois vinhos italianos de “dessert”, naqueles anos, que me emocionaram: O Picolit e a Malvasia di Nus.
 

Coloquei aspas no dessert porque considero o Picolit e a Malvasia di Nus vinhos que devem ser degustados em total solidão, ouvindo jazz e admirando um pôr-do-sol.

Se me acusarem de “frescura”, rebato: “Você, que nunca bebeu um verdadeiro Picolit ou uma verdadeira Malvasia di Nus, não pode acusar”.

Não bebeu nem beberá!

A Malvasia de Nus “moderna” não é nem a sobra daquela vinificada pelo pároco e o Picolit “moderno” é quase uma piada.
 

Sobre o Picolit vou me aprofundar em outra ocasião, mas hoje vou dedicar algumas palavras à Malvasia di Nus e ao Chambave.

Perguntará, o Eduardo: “O que a Malvasia di Nus e o Chambave tem em comum?”

Nada, a não ser a Val D’Aosta, região em que os dois vinhos são produzidos.

Depois de provar a Malvasia di Nus do meu tio uma quase obsessão tomou conta de mim, obsessão que não arrefeceu até o dia em que resolvi fazer uma viagem em busca do precioso vinho.

Em Nus, pequena aldeia valdostana, conheci a igreja, soube que o pároco viticultor havia morrido e que as vinhas já não existiam.
 

Passei três dias visitando vinícolas de Nus e cidades vizinhas em busca da “Malvasia Perdida” que continuou perdida.

Provei inúmeras Malvasia, mas nunca mais bebi uma Malvasia di Nus que me emocionasse, aliás.....bem, deixa pra lá!

Nos três dias em que percorri as ruas de Carema, Pont San Martin, Donnas, Saint Vincent, Chatillon, Nus etc. bebi todos os vinhos da região e, naturalmente, o Chambave Rouge, mas nunca provei aquele produzido por Ezio Voyat.

Ezio morreu no início dos anos 2000 e seus filhos continuam vinificando, além do “Rosso Le Muraglie” o “Passito Le Muraglie”.
 

Os Voyat não denominam seu tinto: “Chambave Rouge” pois seu vinho não é DOC.

Os Voyat seguem suas próprias normas e regras sem dar a mínima atenção ao disciplinar

O Chambave Rouge é produzido, em Chambave, Verrayes, Saint Denis, Châtillon, com uvas Petit Rouge (60/75%) e os restantes ((40/25%) com Gamay, Pinot Noir, Dolcetto, Freisa e outras uvas tintas da região.

O Chambave é um vinho fresco agradável ,mas não posso,  infelizmente, compartilhar a opinião nem o  entusiasmo do Rosenthal.

O Chambave Rouge não está no mesmo patamar de um Barolo, Brunello ou mesmo de seu vizinho Carema.
 

 O Chambave Rouge é um vinho que agrada muito mais aos americanos do que  aos italianos.

Se e quando encontrar o “Rosso Le Muraglie”, talvez mude de opinião ,mas o Chambave, produzido em escala quase industrial pela “Crotta di Vegneron”, não me entusiasma .

Tomara que o “Rosso le Muraglie”, dos Voyat,  tenha escapado do melancólico  final destinado à Malvasia do pároco de Nus.