Três meses são mais que suficientes para perceber que o
Brasil, apesar de todos os pesares, faz falta e já chegou a hora de retornar.
Em meados do próximo
setembro a saudade do Brasil chegará a um “Ponto Final” (“…como a fumaça que passa e se esgarça no ar.…” de Jair
Amorim/ Evaldo Gouveia) e assim, mais
uma vez, chegará a hora de voar até à Itália.
Típica gangorra nostálgica….
Os preparativos, para o regresso, ao Planalto Central, já estão
adiantados: Nas duas malas, de porão, algumas roupas, três pares de tênis, quatro
pedaços de queijo “Grana Padano”, vários enlatados, um exagero de doces, balas
e chocolates, 8 garrafas de vinho branco, 2 de Champagne e …”se mais espaço houvera, mais duas ou três
garrafas levara”
A maior parte dos brancos, como de costume, será de “Minaia” e
Ciapon”, da vinícola Nicola Bergaglio, que
eu considero alguns dos melhores brancos, italianos, no quesito “qualidade/preço/beneficio”
Semana passada resolvi “ir às compras de garrafas”, assim, em
pouco mais de uma hora, sem pressa nem correria, estacionei o carro na porta da
vinícola “Nicola Bergaglio” em Rovereto, distrito de Gavi.
A vinícola, como já mencionei, em matéria anteriores, foi
fundada por Nicola Bergaglio, em 1945, mas somente em 1970, já sob o comando do
Gianluigi e de seus filhos, Diego e Ilaria, deixa de vender as uvas para
terceiros e inicia a produção de suas próprias etiquetas.
Em minhas visitas, à
vinícola, quase sempre sou atendido pela esposa Marisa, pois o marido Gianluigi
e o filho Diego se dedicam, integralmente, aos cansativos e importantes
trabalhos nas vinhas e vinificação.
Os Bergaglio são verdadeiros vitivinicultores, não ricos e
poderosos empresários vinícolas como Gaja, Antinori, Frescobaldi, Conterno
etc., que raramente saem de seus confortáveis e sofisticados escritórios, comandam um copioso
“exército” de colaboradores e já não perdem tempo e provavelmente nem mais
recordem com podar, adubar, pulverizar, desbastar, etc., as vinhas… .
Gianluigi, Diego e
Ilaria não podem perder tempo recepcionando pessoas o dia inteiro, assim, Marisa,
a matriarca da família, se encarrega de atender os pequenos compradores que,
como eu, batem à porta da vinícola.
Semana passada, quem abriu a porta da adega, para minha
surpresa, foi o próprio Gianluigi Bergaglio.
Conheço Gianluigi há quase 15 anos e em todas as ocasiões que
me atendeu não trocamos mais do que vinte palavras, sempre e apenas convencionais:
Bom dia, como vai, como foi a colheita, que calor, que frio, até logo......
Como todo bom piemontês, Bergaglio, é extremamente reservado, econômico
com as palavras e de difícil aproximação, arredio.
Talvez, por ser o único e assíduo cliente brasileiro, pela minha
rapidez na escolha das garrafas, efetuando sempre pagamento em espécie, sem
muita conversa fiada e meu contido comportamento, naquele dia, Gianluigi, “amoleceu”
e.….
No pequeno “balcão-bar”, bem na entrada da vinícola, sempre há
uma boa quantidade de garrafas abertas, de diversas safras, para a degustação
dos clientes.
Como de costume eu evito beber nas vinícolas
A razão? Uma taça leva
a outra e mais outra e... as incontáveis curvas, nas colinas piemontesa e os
“Carabinieri”, não perdoam.
Para minha surpresa Bergaglio
saiu de sua toca, falante (meia dúzia de palavras a mais do que o normal...), sorridente
e insistentemente me “obrigou’ a degustar Minaia 2025 e 2024.
Impossível recusar e perder aquela oportunidade de “espremer”
alguns conhecimentos daquele grande viticultor
Não mais do que um dedo, de cada safra, como sempre de ótima qualidade,
foram degustados.
Enquanto “entornava” os Minaia 2024 e 2025, meus olhos
descobriram, perdida entre as outras, uma garrafa de 2015.
“Gianluigi, gostaria de provar uma gota deste 2015, posso? ”
Bergaglio, rapidamente, respondeu: “Esta
garrafa já está aberta há vários dias e nem deveria estar aqui....Peço perdão,
mas ela vai para a pia”
Enquanto derramava, o que restava do vinho, na pia, o
viticultor deve ter percebido, com o canto dos olhos, a minha decepção e imediatamente
continuou: “Vou buscar uma garrafa, de 2015, na minha
adega e vamos beber uma taça”
Bergaglio sumiu, por alguns instantes e retornou com uma
garrafa de” Minaia” 2015 e uma de “Ciapon” 2022
Sou ateu, não acredito
em milagres, mas que eles existem, existem: Depois de quase 15 anos Gianluigi
Bergaglio bebendo com Bacco.
Aguardem os resultados da degustação do Minaia 2015, do Ciapon
2024 e do “Gran Finale” em Gavi
Bacco



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