No final dos anos 1980 minha confiança e respeito, pelos
cursos, críticos, sommeliers, revistas, jornalistas, enólogos, etc., que
gravitavam ao redor do “planeta vinho”, já atingira números próximos
ao zero.
Percebera, à época, que melhores pontuações, taças, estrelas e
outros ridículos símbolos, quase sempre eram concedidos ou dirigidos, às
garrafas de renomados e caro$ produtores.
Vez ou outra, para doar ar de isenção e imparcialidade, a seus
julgamentos, os eno-far$ante$ inseriam, em suas premiadas listas, etiquetas de
pequenos e desconhecidos viticultores que já não apareciam nas publicações seguintes
e rapidamente voltavam, silentes, ao limbo do mais escuro anonimato.
“ Parker adora Bordeaux, Veronelli ama Sassicaia, Robinson aprecia
Riesling, mas eu gosto de Barbaresco, Chablis, Puligny-Montrachet,
Chassagne-Montrachet, Brunello di Montalcino...então?
Então mandei todos às favas (naqueles anos eu era educado...)
assim resolvi pesquisar e descobrir, sem consultar nenhum famoso eno-oráculo da
moda, minhas preferencias vinícolas e nunca mais dei importância aos “Papa$”
das caras etiquetas.
Havia, todavia, um problema: Na Côte D’Or, Langhe e Montalcino
os preços subiam sem parar e os produtores, tendo perdido qualquer resquício de
pudor, extorquiam, descaradamente, incautos enófilos e desavisados turistas
O Euro subia, o Real despencava.....
Era preciso esquecer, por algum tempo, as três regiões
vinícolas, que durante muitos anos foram minhas metas preferidas e buscar novas
e mais econômicas paisagens....
O aeroporto internacional de Malpensa, dista, do belíssimo
Lago Maggiore, pouco mais de 25 Km.
Lindas aldeias, preços quase razoáveis, bons restaurantes,
ótimos bares, me convenceram que seria muito melhor repousar alguns dias,
pesquisar a região e suas vinhas, antes de rumar diretamente de Malpensa até La
Morra, meu endereço italiano de então.
Até hoje, antes de viajar para a Ligúria, meu atual endereço
peninsular, descanso alguns dias em Sesto Calende (Sesto Calende é linda, bem mais barata do
que as aldeias do Lago Maggiore e ...... “zero” turistas) e
aproveito para percorrer as aldeias do Alto Piemonte sempre mais atraído pelos
grandes vinhos da região.
Boca, Gattinara, Sizzano, Fara, Ghemme, Caluso, Carema,
Lessona, aldeias que, com sua simplicidade, cozinha e tranquilidade (turistas zero
mais uma vez....) aos poucos foram me seduzindo e confesso já sofrer crises
de abstinência por falta de Barolo, Barbaresco, Brunello etc.
Algumas informações sobre a história da viticultura no Alto
Piemonte.
Vinhedos já existiam, na região, desde a era romana, mas foi
na idade média e especialmente, no final do século XIX que a viticultura viveu seus
melhores dias.
Naqueles anos, o Alto
Piemonte, ostentava mais de 40.000 hectares de vinhedos.
A filoxera, que destruiu grande parte das plantações e a
industrialização da região, depois da segunda guerra mundial, provocaram o
grande êxodo dos viticultores que abandonavam a cansativo e incerto trabalho
nas vinhas optando pela mais segura e menos fadigosa labuta nas fábricas.
Resultado? Dos 40.000 hectares, dos anos 1940, hoje restam pouco mais de
1.000.
Alguns números das melhores denominações, raras, mas não
caras, do Alto Piemonte
Boca = 16,5 hectares
Bramaterra = 41,5 hectares
Carema = 13 hectares
Fara = 4,5 hectares
Gattinara = 90 hectares
Ghemme = 56,5 hectares
Lessona = 17 hectares
Sizzano = 7 hectares
Nesta 1ª viagem comentarei as 8 denominações mencionadas, mas
dedicarei maior atenção aos vinhos de Bramaterra, Carema, Fara e Lessona.
BOCA
Pouco mais de 20 Km separam Sesto Calende de Boca distancia,
facilmente, recorrível em 25/30 minutos.
Boca não oferece grandes atrações turísticas.
Única exceção: o imponente
“Santuario del Santissimo Crocifisso”, cercado por bosques e vinhas, que atrai
milhares de religiosos.
Recomendo o ótimo restaurante “Ori
Pari”
Vinho Boca: Com a
chegada na região, no final dos anos 1990, do suíço e importador de vinhos,
Christoph Kunzli, que adquiriu a propriedade “Le
Piane”, do velho viticultor
Antonio Cerri, o vinho Boca renasceu das cinzas e voltou a frequentar as taças
da região.
Kunzli, todavia, foi picado pelo inseto “Gaja-Conterno”
cuja mordida provoca irresistível desejo de inflacionar o preço das garrafas.
Esqueçam o “Boca Le Piane” (60 Euros) do predador suíço e
procurem o “Boca
Davide Carlone” de 25/28 Euros.
O vinho Boca é vinificado com Nebbiolo70%/90% + 10%/30% de Vespolina
e Bonarda Novarese .
Continua....
Bocca

Nenhum comentário:
Postar um comentário