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domingo, 6 de agosto de 2023

BRASILEIRO PODE BEBER ?

 


Sinto muito, mas não posso concordar com o título da matéria postada por Bacco: “Brasileiro Sabe Beber? ”

O correto seria “Brasileiro Pode Beber?

A resposta?

Não, impossível!

As razões são muitas, mas poderíamos, assim, resumi-las:          os vinhos nacionais são medíocres e caros.

Não atoa o Brasil é o 3º produtor mundial de cerveja (152 milhões de hectolitros) e o 14º de vinho (3,6 milhões de hectolitros).



Sempre é bom lembrar que, dos 3,6 milhões hectolitros mais de 80% são elaborados com uvas não viníferas (Vitis Labrusca) e recebem a denominação “Vinho de Mesa”

Além de intragáveis e prejudiciais à saúde (veja link abaixo), os “vinhos de mesa”, pela total falta de qualidade, não poderiam frequentar nenhuma mesa e deveriam ser classificados como “Vinho de Vaso Sanitário”.

https://baccoebocca-us.blogspot.com/2014/12/macho-man-aposentado.html



O restante da produção (20%), denominada “Vinho Fino”, está na mão de grandes indústrias e ricos investidores que sempre primaram por praticar marketing agressivo, preços abusivos e qualidade mais que discutível.

Os nossos industriais, do setor, sempre tiveram a preocupação, não de oferecer bons produtos com preços compatíveis com a realidade brasileira, mas inventar propagandas fantasiosas que justificassem os valores escorchantes cobrados por garrafas risíveis, banais, dispensáveis.



Marketing agressivo, caneta$ de aluguel, $sommelier$ na folha de pagamento, jornalista$, influenciadore$, medalhas e prêmios “comprados” em concursos caça-níqueis, etc., criaram milhares de eno-tontos que acreditam, piamente, na qualidade excelsa das garrafas nacionais e pagam, patrioticamente e orgulhosos, cifras astronômicas por vinhos de 3ª categoria.



Se os vinhos nacionais, por razões climáticas, solo, pouca tradição, nenhuma seriedade, não alcançam, nem convencem a maioria da população (até o consumo da cachaça é 300% superior ao do vinho), devemos, todavia, elogiar as eficazes e soberbas publicidades que o setor vinícola criou.

Apesar de totalmente falsas, picaretas e oportunistas, as propagandas do setor, conseguiram convencer, boa parte dos consumidores, que nossos medíocres vinhos são tão bons e até superiores aos renomados franceses, italianos, espanhóis, portugueses etc.



Há muitos anos (vinte?)  foi inventada e divulgada uma das primeiras e mais picaretas campanhas de propaganda do setor: “O espumante nacional é o segundo melhor do mundo”.

Pode parecer incrível, mas até hoje há quem acredite que nossos espumantes, por sua excelsa qualidade, fazem sucessos em todos os cantos do mundo (ninguém, na Europa, sabem que existem...)

O sucesso obtido pela campanha “segundo melhor do mundo” convenceu grande parcela de nossos produtores que com uma boa propaganda seria possível vender “vinhos-grandes-bostas” por preço superiores, até dos 1er Cru e Grand Cru franceses, 



 Oportunistas e vorazes, como poucos, nossos produtores perceberam que investir em picaretagens publicitaria era muito mais fácil e rentável do que produzir vinhos melhores e mais baratos.

Quase todos os produtores vinícolas já tentaram e continuam tentando ludibriar os consumidores com propagandas enganosas

Alguns exemplos:

A Miolo inventou um caríssimo: “Lote 43”

Lote 43, dizem os Miolo, foi a parcela de terra em que Giuseppe, patriarca da família, em 1897, iniciou sua aventura brasileira. 

Os Miolo demoraram 100 anos para descobrir que aquele pedaço de terra era “milagroso” e que poderia doar uvas incomparáveis, assim, em 1999, laçaram um vinho com etiqueta: “Lote 43”.



Se o vinho é vinificado com uvas provenientes da parcela “43”, que velho Giuseppe adubava, regularmente, todos os dias pela manhã, ninguém sabe e saberá jamais, pois não há nenhum controle de origem no Brasil.

O que sabemos, todavia, é que uma garrafa de Cabernet/Merlot “Lote 43” custa 200/220 R$ (38/42 Euros)



A Miolo soube valorizar os “esforços”, do velho Giuseppe na adubação do “Lote 43” e o Cabernet/Merlot gaúcho é oferecido, aos enófilos brasileiros, por um preço superior ao que os franceses pagam por um misero .......



Chateau Laroque Saint Emilion Grand Cru Classé 2016

Chateau Laroque

,  AOC Saint-Emilion Grand Cru, 1% Cabernet Franc, 99% Merlot

€ 36,43 IVA inc.

O exemplo acima é o primeiro de uma série

 

Continua

Dionísio

sábado, 29 de julho de 2023

BRASILEIRO SABE BEBER?

 




A tentativa do garçom, de me reservar as três garrafas de “L’Overtoure”, como era mais que previsível, não vingou e em uma semana já não havia nem uma gota do Champagne Savart no bar “Master”.

“ O L’Overtoure acabou, mas encontrei três deste”.

Umberto exibia nas mãos, como fosse um troféu, uma garrafa de Champagne “Vazart-Coquart TC 2016”.


Sou um esforçado pesquisador de etiquetas de Champagne, mas devo confessar ser impossível conhecer todas (há mais de 300) e a “Vazart-Coquart” era uma das muitas que jamais vira nem provara.

Poderia ser, aquela, uma boa ou má surpresa e só havia uma maneira de descobrir: “Abra a vamos provar…”



Em pouco mais de uma semana o garçom me surpreendeu duas vezes e.....tome mais gorjetas

O “TC 2016 Vazart-Coquart” é totalmente diferente do “L’Overtoure”, mas, em qualidade, nada deve ao irmão francês.

A diferença já inicia na escolha das uvas: Enquanto o L”Overtoure” é vinificado com Pinot Noir, o “TC 2016” é um 100% Chardonnay.





O “TC 2016” consolida sua diferença até na adega.

Ele e vinificado em ânforas de terracota (o TC significa Terre Cuite = Terracota), não desenvolve a fermentação malolática, a produção é de apenas 947 garrafas e custa algo bem próximos aos 100 Euros.

Complexo, muito mineral, mas ao mesmo tempo delicado, cremoso e intrigante.



Um grande Grand Cru, elegante, refinado, difícil de encontrar e que eu estava bebendo em um bar, na orla de Santa Margherita Lígure,

......A vida é bela.

Enquanto me deliciava, secando a taça do “TC 2016” da Vazart-Coquart, um alegre e barulhento grupo (dois casais) se acomodou no “Ristorante Pizzeria Emilio” a menos de três metros da minha mesa.



Percebi imediatamente que os dois casais eram brasileiros.

Jovens, bem vestidos, bolsas de griffe, relógios da moda.... Típicos patrícios sem problemas financeiros e com Euros para gastar à vontade.



Após a costumeira sessão de “selfies”, onde não faltaram as obrigatórias pernas cruzadas e “bocas de cu de galinha”, resolveram pedir o jantar:  Antepastos de frutos do mar, anchovas marinadas e “Spaghetti all’Astice” (astice é uma espécie de lagosta).

Até aí, tudo bem, mas ..... “Garçom uma garrafa de Barolo Gaja”.

19 horas com o sol brilhante e impiedoso que obrigava o termômetro a indicar 35º e, para completar, sensação térmica de 40º.



Os quatro patetas, suando abundantemente, escolheram um Barolo para acompanhar lagostas, lulas, camarões, mariscos, anchovas etc.

Levantei e saí quase correndo tentando esquecer o que acabara de presenciar.

Na tarde seguinte, todavia, não consegui, “fugir” do garçom   que servira os eno-tontos.

Conheço Aldo há muitos anos e sempre que nos encontramos batemos bons papos, assim, quando no dia seguinte ele me viu, no “Master” bebericando meu “TC 2016, se aproximou e com um sorriso maroto comentou: “Você viu, ontem, seus patrícios bebendo o Barolo do Gaja e comendo peixe debaixo de um sol de 40º?



Anuí e ele continuou: “O que você não viu foi a garrafa de Brunello di Montalcino que pediram depois:  …. Brasileiros sabem gastar, mas não sabem beber…”

Não pude deixar de lhe dar razão e envergonhado mudei de assunto

Bacco


    

segunda-feira, 24 de julho de 2023

SAVART "L'OUVERTURE"

 


A onda de calor que atinge a Itália é realmente assustadora.

Em algumas cidades do Sul, Sardenha e Sicília, o termômetro atingiu 45º.

Temperatura que assusta até em países africanos ou equatoriais, imaginem, então, na temperada Europa.....



Uma bela caminhada às 6 horas, um aperitivo às 11, almoço às 13, à tarde um “porre” de internet e televisão e às 18 horas rápida ducha e..... Bares, estou chegando!!!!!     

O “Master”, nos últimos meses, é o meu bar predileto em Santa Margherita.



Depois de um desentendimento inicial, provocado pela injustificada alta dos preços, entramos em um acordo e a taça de Champagne continua me aliviando em mesmíssimos 10 Euros de antes da temporada.

Turista, como já demonstrei em matéria anterior, é esfolado solenemente, mas morador e cliente assíduo tem seus direitos e privilégios resguardados mesmo em alta temporada.

Nunca escondi que meu vinho predileto e que considero o melhor do planeta, é o Champagne.



 No verão europeu, com clima saariano, não há nada melhor do que um bom espumante e o melhor deles é o Champagne.

Quando afirmo: “O melhor é o Champagne” é logico que não incluo na minha escolha os premiados, fantásticos, inimitáveis, sensacionais, insuperáveis, paradisíacos, (ufa...) espumantes nacionais.



Voltando à realidade e seriedade......

O Champagne, normalmente servido em taças no “Master”, é o “Aubry” 1er cru.

Bom produto, honesto, mas não excepcional e que custa 30/35 Euros.



Há uns quinze dias, na hora do meu aperitivo vespertino, o garçom, que costuma me atender, chegou à minha mesa e com a voz grave comunicou que o “Aubry” estava em falta e continuou: “Já fizemos o pedido e acredito que já   na próxima semana tudo será normalizado…. por enquanto posso servir este? ”.

Quase caí da cadeira...... Umberto, o garçom, esperava meu consentimento para abrir uma garrafa de “ Savart L’Ouverture Extra Brut” da vinícola Frédéric Savart.



Quem nunca provou os Champagne de Frédéric Savart não sabe o que está perdendo.

Savart, pequeno produtor em Ecueil, possui 6 hectares de vinhas (4 de Pinot Noir e 2 de Chardonnay)



O “L’Ouverture” é um “Blanc de Noir” (100% Pinot Noir) que se apresenta com brilhante cor palha, borbulhas finíssimas e constantes.

 Os aromas revelam agrumes e na boca é fácil perceber a sutil presença de brioche

 A elegância, complexidade e fineza, do L’Ouverture, surpreendem até o mais experimentado e exigente enófilo.

Grande Champagne

Sei que o “L’Ouverture” custa quase o dobro do “Aubry”, assim, antes de autorizar Umberto, perguntei o preço.

“O proprietário comprou todos os vinhos, de um restaurante que fechou as portas, por um valor mais que vantajoso, assim os 10 Euros do “Aubry” continuam valendo....”

Por um segundo desejei que outros restaurantes, com boas adegas, quebrassem e.... “Pode servir uma taça e reserve mais uma para depois”

O garçom prevendo uma “gorda” gorjeta, confessou: “ Só há três garrafas do Savart e vou tentar reservá-las para o senhor....”



Com as facilidades que a internet oferece é possível comprar algumas garrafas de Champagne Savart para serem entregues em qualquer cidade da Itália, França etc., em 48/72 horas.

Quem desejar um grande Champagne, com qualidade até superior à dos caríssimos “medalhões”, deverá lembrar este nome: Frédéric Savart.

Continua

Bacco

 

quarta-feira, 19 de julho de 2023

FARA SANTO STEFANO



 Para acompanhar a “Língua com Salsa Tonnè” optei por abrir uma garrafa de“Fara Santo Stefano”.

Para quem não conhece o vinho “Fara” (se você nunca provou, não se preocupe... a esmagadora maioria dos sommeliers, críticos, influenciadores, blogueiros etc., do Brasil, nem sabe do que estou falando) informo que é uma das DOC e DOCG do “Alto Piemonte”.



As vinhas, que dão vida às DOCG Gattinara, Ghemme, Erbaluce e às DOC Lessona, Sizzano, Fara, Ghemme, Boca, Bramaterra, Coste del Sesia, Colline Novaresi, estão localizadas no extremo norte da região Piemonte, bem aos pês dos Alpes

Para ter uma ideia, da proximidade das montanhas, informo que pouco mais de 40 km separam as vinhas do “Alto Piemonte” do imponente “Monte Rosa” (4.634 m).



Terras de grandes vinhos tintos, (“Erbaluce” é único branco da lista), onde o Nebbiolo faz a festa ..... E que festa.

Já escrevi várias matérias comentando sobre a região e seus vinhos e quem quiser aprofundar os conhecimentos pode acessar os links

 https://baccoebocca-us.blogspot.com/2019/05/alto-piemonteadeus-2.html

https://baccoebocca-us.blogspot.com/2023/01/ghemme-ii.html

Voltemos ao “Fara”.

Comprei o “Fara Santo Stefano”, produzido pela vinícola Lorenzo Zanetta, em um supermercado de Sesto Calende e paguei 8,99 Euros (R$48).

Aproveitando a promoção adquiri, também, algumas garrafas de Gattinara e Ghemme.

O “Fara Santo Stefano” é vinificado com 65% de uvas Nebbiolo, 20% de Vespolina e 15% de Uva Rara.

Intensa cor vermelha, aromas florais que lembram rosas, boa estrutura, robusto, mas aveludado e com final que traz um agradável retrogosto de amêndoas.

Belo vinho que recomendo com entusiasmo.

O mesmo entusiasmo pode ser estendido aos “primos”, Gattinara e Ghemme, também, vinícola Lorenzo Zanetta.



Como de costume e para informar corretamente os enófilos brasileiros, comparo os preços dos vinhos europeus aos dos nacionais para demonstrar o quanto os predadores nacionais afundam a mão em nossos bolsos.

Alguns preços dos deploráveis “Nebbiolo” nacionais: “Barone” da vinícola San Michele = R$ 195 (37 Euros). “Nebbiolo” vinícola Casa Fontanari R$ 320 (60 Euros). Singular Nebbiolo” vinícola Lidio Carraro R$ 620 (117 Euros).  “Manus Liberum” Nebbiolo rosé da vinícola Manus Vinhas e Vinhos               R$ 197 (37 Euros).



Para demonstrar, pela enésima vez, que os vinhos nacionais são risíveis e extremamente caros, sugiro aos leitores (aqueles que possuem uma boa dose de coragem) de realizar uma degustação comparando   os Nebbiolo nacionais, acima elencados, com o piemontês, “Fara Santo Stefano”, que custa apenas 10% do ridículo Singular Nebbiolo.



O enófilo que continuar em perfeito estado de consciência, depois de ter “desgustado” todos os Nebbiolo nacionais, poderá escrever sua experiência no B&B, mas com uma recomendação: Não incluir, nos comentários, todas as imprecações e palavrões proferidos a cada gole dos Nebbiolo nacionais.  

 


Agora falando sério…recomendo, aos enófilos brasileiros, em viagem turística pela Itália, o “Fara”, “Ghemme” e “Gattinara” da Lorenzo Zanetta.

Mais uma coisa…Dos três o meu preferido, é o “Ghemme Santo Stefano” (12 Euros).

Bacco