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terça-feira, 17 de março de 2026

LADEIRA ABAIXO

 


“NA CONTRAMÃO”, a mais recente matéria de Dionísio, me estimulou a escrever algo sobre a impressionante e irrefreável crise que atinge o mundo vinícola

Vivi parte de minha infância cercado por garrafas de vinho, na juventude apendi a conhece-lo e apreciá-lo, na maturidade resolvi aprofundar, minha “eno-cultura”, percorrendo, inúmeras vezes, todas as regiões vinícolas mais importantes da França e Itália, assim, creio poder afirmar, com segurança, que durante 50 anos fui espectador, atento e privilegiado, da impressionante ascensão e sucesso alcançados pelo vinho em todos os cantos do planeta.



Non recordo outra bebida alcoólica ter sido mais valorizada, badalada, glamourizada e quase divinizada como foi, nas últimas décadas, o vinho.

Exagero?

Bastaria lembrar quantos críticos, sommeliers, revistas, já classificaram, sem o mínimo pudor, “obra de arte” uma simples garrafa de vinho.



Até o início dos anos 1970 as garrafas etiquetadas muito raramente frequentavam mesas de bares e restaurantes e os produtores vendiam quase a totalidade da produção em garrafões de 5-10-20 e até de 54 litros.



O vinho era o companheiro alegre e fiel nos almoços, jantares, nas conversas nos bares, com amigos, promotor de risadas, descontração, mas nunca protagonista ou objeto de quase liturgia.



Vinho, era vinho e somente vinho!

No início dos anos 1980, com o surgimento da crítica especializada, o vinho inicia sua caminhada para se transformar em “Status Simbol”, um vetor cultural, deixa de ser apenas uma bebida para se transformar em refinado estilo de vida.



Surgem incontáveis cursos de sommeliers que “ensinam” como degustar e encontrar, na taça, aromas de terra molhada, tabaco, flores vermelhas, flores brancas, especiarias, verniz, brioche, café, couro etc., sabores de mirtilos, framboesas, amoras, cerejas, frutas maduras, melão, maça verde, pêssego......

Eram dias em que se alguém não “descobrisse” complexidade, frescor, taninos, mineralidade, salinidade, acidez, longo final, untuosidade etc., em uma simples taça de vinho, era considerado “eno-pária”.



Nenhum exagero parecia absurdo, fantasioso, irreal e os sommeliers, críticos, jornalistas, enólogos etc., com a maior cara de pau, poderiam perceber, na taça, até aroma de unha encravada sem serem ridiculizados, desacreditados

Exagero?

Releiam algumas matérias 

   

https://baccoebocca-us.blogspot.com/search?q=manoel+beato

https://baccoebocca-us.blogspot.com/2013/12/cuidado-com-o-salame-do-gladston.html#comment-form  

https://baccoebocca-us.blogspot.com/2017/07/o-irmao-do-beato-salu.html

Em 1987 o mundo da moda (LVMH) aporta nas vinhas e os enófilos começam a entrar pelo cano......

Era dada a partida para era do vinho ostentação: O vinho abandonava o popular e tosco copo de vidro para repousar, definitivamente, nas titilantes taças de cristal, se possível, Zalto.



A corrida para o estrelato já foi abordada diversas vezes em B&B e não é preciso comentar mais uma vez, mas acredito que os produtores já perceberam (tardiamente...) terem esticado demasiadamente a corda.

 É chegada a hora de abandonar, esquecer, os Parker’s Boys, as taças Zalto, vinhos ostentação, vinhos “obra de arte” e todas as bobagens que elevaram, a popular bebida, a um pedestal dourado.

 É preciso voltar à terra, repensar o vinho e tentar “conversar” com as novas gerações.



O comentário “anônimo”, que abaixo transcrevo, acerta na mosca e antecipa a segunda parte da matéria

 

Anônimo8 de março de 2026 às 16:37

Quanto à matéria, sempre atual, genial de Dionísio, tento no comentário manter-me ao tema. Álcool será endemoniado em breve ( ou já está sendo?), meus filhos tem uma relação com álcool bem diferente da que tive quando mais novo. O consumo despencou, terão que fazer vinhos realmente bons, acessíveis e tranquilos, senão.. cemitério de produção. Muitas novas vinícolas brasileiras “ já premiadas” vão voltar ao pasto de braquiária com seus respectivos cupinzais

 

Bacco

quarta-feira, 4 de março de 2026

NA CONTRAMÃO

 


Enquanto o mundo vinícola luta contra uma crise, que parece não ter fim, o Brasil surge como o novo “Eldorado” das vinhas e dos vinhos.

Difícil acreditar, mas enquanto Espanha, França, Itália e Portugal, já não sabem o que fazer com o mar de vinho que mofa nas adegas à espera de compradores, que não aparecem, no “Maranhão das Uvas”, raro o mês em que não aparece, na mídia, uma nova, bem-sucedida e pasmem, mundialmente premiada vinícola.



Agora é a hora e vez das desconhecidas vinhas da “CasaTés”, empresa localizadas nas misteriosas colinas do incógnito município de São Sebastião da Grama.


https://www.uol.com.br/nossa/noticias/redacao/2026/02/28/vinho-de-sp-esta-em-lista-de-melhores-do-mundo-veja-entrevista-com-enologa.htm

A “Casa Tés”, como todas as vinícolas que surgem do nada e correm para o nada, é jovem (nasce em 2017).

Graças aos abençoados morros da Serra da Mantiqueira, já em 2025, seu Sauvignon Blanc, “Grama Branco”, foi escolhido, em um dos milhares de concursos picareta$ espalhados pelo planeta, como um dos 115 melhores vinhos do mundo.



Reportagens manjadas e pagas, enólogo$, crítico$, influencer$ e sommelier$ de vida fácil, derramam elogios ao mais novo “milagre” enológico brasileiro que, apesar da pouca idade, já apavora os viticultores de toda a Val de Loire que, coitados, demoraram mais de 500 anos para obter o mesmo resultado que os gênios brasileiros, de São Sebastião da Grama, conseguiram em apenas 8.  

Nosso novo milagre enológico sabe se impor e, tal qual uma bela e recém-chegada "modelo", num puteiro, somente entrega seus 13,5º de álcool aos que desembolsarem, pelo menos, R$ 522,00.

Sancerre 'Comte Lafond' Baron de Ladoucette 2024

34,50 


Os produtores nacionais investem maciçamente em propaganda, matérias pagas, marketing etc., apostando na total imbecilidade dos enófilos brasileiros, pois somente um imbecil desembolsaria R$ 522,00 para comprar uma garrafa de Sauvignon Blanc produzida na obscura São Sebastiao da Grama enquanto os franceses pagam  25/35 Euros por ótimos Sancerre ou Pouilly Fumé.

Hubert Brochard - Pouilly Fumé 2023 - 75cl



23,90 €



Você que, por alguma recôndita razão, gosta de beber perigosamente, se quiser degustar a mais nova pérola da viticultura nacional, deverá pedir, por favor, entrar na fila e aguardar a chamada para poder levar para casa o premiado Grama Branco”



A “CasaTés”, a título de brinde, enviará para cada comprador de seu Sauvignon Blanc, 50 kg de grama fresca..... Somente um eno-asno gastaria R$ 522,00 por um vinho de São Sebastião da Grama.



Enquanto o Brasil vinícola vive momentos de glória e esplendor, na Europa, os ultrapassados e incompetentes viticultores não conseguem sair de uma crise que há anos atinge o setor.

Alguns exemplos: Em 1960, na França, o consumo per-capita era de aproximadamente 100 Litros.

Em 2025 o francês mal conseguiu beber 1/3 (33 litros) do que seus avós enxugavam 

Em 1960 os vinhedos franceses cobriam 1,4 milhões de hectares. Em 2025 a área foi reduzida para “apenas” 744.000 hectares.

Enquanto o Brasil, Maranhão vinícola, transpira pujança e esperança, a União Europeia acaba de autorizar um financiamento de 40 milhões de Euros para ajudar os produtores franceses a destilar 1,2 milhões de hectolitros de vinho (160 milhões de garrafas) que mofam, à espera de improváveis compradores, nas adegas gaulesas.



Enquanto isso, em São Sebastiao da Grama, a “CasaTés” faz “fiofó doce” para vender um Sauvignon Blanc por nada módicos R$ 522,00......



10 caixas de Plasil, por favor......

Dionísio