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segunda-feira, 8 de março de 2021

O MILAGRE!

 


Demorou, mas finalmente conseguimos ter nossa milagreira gaúcha: “Bernadette” Trentin.

Andrea Trentin, sommelier, arquiteta, futura enóloga, vendedora de vinhos e de …milagres, milagres, milagres!!!! A “Bernadette Trentin das Garrafas Perdidas” e......achadas.



Bernadette Soubirous, em 1858, viu Nossa Senhora, em uma gruta de Lourdes por bem18 vezes.

“Bernadette” Trentin, e sua turma de milagreiros   encontraram, escavando

 com picaretas as entranhas da Serra Gaúcha, um tesouro enterrado:

 Inúmeras garrafas (ninguém sabe a quantidade exata) de Cabernet Franc

 1951, milagrosamente conservadas, intactas e, acredite se puder, bebíveis e............. vendáveis.

Bernadette Soubirous morreu aos 35 anos, pobre, em um convento francês  

“Bernadette” Trentin-Din-Din, pelo tintilar de garrafas de “Cabernet Franc

 1951”, que já vendeu, para inúmeros enoloides-ufanistas, não que morrer tão

 cedo e muito menos pobre....


Suas garrafas septuagenárias, cuja quantidade disponível é mantida em

 profundo segredo, como as mensagens de Fátima, já despertam a

 curiosidade de inúmeros enoloides-ufanistas que se declaram prontos, s

e necessário, a estuprar o cartão e comprar mais um “milagre” da excelsa e

 insuperável enologia gaúcha.

“Bernadette” Trentin-Din-Din, já pode contar, também, com o apoio e

 assessoria de alguns “Grão Sacerdotes das Garrafas Perdidas”:

 “Rebola-Arrebola”, Rusty Marcelloni .



Quem quiser adquirir, pagando R$ 350 (cada), as vetustas garrafas de

 Château Duvalier 1951, deve contatar a Trentin-Din-Din e fazer o pedido.

“ Bernadette” Trentin-Din-Din, sempre pronta e an$io$a em faturar, pode

 reativar, quando nece$$ário, sua milagrosa picareta, realizar novas

 escavações, nas entranhas da antiga Riograndense, e encontrar mais e mais

 garrafas de qualquer safra.

Caso perceba interesse por novas garrafas, datadas desde 1929 até 2021,

 sempre perfeitas, ostentado a proverbial, mítica, insuperável, impar,

 incomparável, soberba, excepcional, sensacional, notável, magnifica (ufa)

 qualidade dos vinhos gaúchos, que o mundo inteiro inveja e tenta, sem sucesso, imitar, poderão ser encontradas.


Cavar é preciso......a picareta está sempre pronta

Antes de encerrar a matéria, gostaria de sugerir aos ridículos Rebola e

 Marcellão, fiéis seguidores da filosofia do “faturar é preci$o, sempre”, um

 pouco mais de discrição, compostura e pudor.

O Cabernet Franc 1951, desenterrado das catacumbas gaúcha, exala um

 forte odor de picaretagem que somente ufanistas-enoloides, divulgadore$ e

 sommmelier$ não conseguem ou não querem perceber.

Parabéns à Trentin-Din-Din e sua picareta mágica pelo incrível sucesso da

 jogada marqueteira que mais uma vez comprova: A mãe dos idiotas

 está sempre gravida....

Dionísio

PS. É sempre bom reler.....

https://baccoebocca-us.blogspot.com/2019/10/romanee-biondi-2.html

quarta-feira, 3 de março de 2021

HISTÓRIAS E RECEITAS II

 

“Ristorante dei Cacciatori”, “Angolo di Paradiso”, “Osteria dei Cacciatori”, “La Bottega di Cesare” e outros nomes, que agora já não lembro, com os quais Cesare batizou seus locais, refletem o espirito irrequieto e rebelde deste genial cozinheiro piemontês.



Tao rebelde e difícil de lidar, que durante anos pendurou, na porta do restaurante, uma placa com os dizeres: “Apro Quando Arrivo” (Abro Quando Chego)

Cesare Giaccone nasceu em 1946 em Albaretto dele Torre na casa/restaurante dos pais.


Péssimo aluno, completou apenas o primário, aos 16 anos ajudava a família trabalhando, como ajudante de pedreiro e nas horas vagas descascando batatas.

Aurelio Scavino, grande cozinheiro e amigo da família Giaccone, resolveu convidar o adolescente, Cesare, para trabalhar, por uma temporada, no Hotel Sant’Orso, em Cogne, estação de esqui da Val d’Aosta.

Começa, justamente em Cogne, a paixão de Cesare pela cozinha.

Cesare e Bacco na Fontanafredda

Após Cogne passagens por Bordighera, Torino, Firenze, Alemanha, Suíça, Áustria, etc. até reencontrar as antigas e nunca esquecidas, raízes na pequena Albaretto della Torre.  

Uma pequena pausa para informar.....

Um cozinheiro deve ter muita coragem para abrir um restaurante em Albaretto della Torre (250 habitantes).

Albaretto é uma minúscula aldeia perdida nas colinas da “Alta Langa”, distante do centro eno-gastronômico de Alba e arredores, sem atrativo algum e onde ninguém para nem para tirar a água do joelho….

É preciso ter muita coragem e uma imensa confiança na genialidade da própria cozinha.

Cesare Giaccone sempre teve ambas, coragem e confiança e até Robert de Niro sucumbiu aos seus geniais pratos.



Quem não comeu o cabrito no espeto (caramelado e crocante, por fora, úmido e macio, dentro), os Agnolotti del Plin, com a massa tão fina e quase transparente, o “Zabaione” feito na hora em um tacho de cobre e “Porcini e Pesche alla Willsberger”, de Giaccone, não saberá o que perdeu: Cesare Giaccone teve um derrame e fechou “La Bottega Ristorante di Cesare”.

RECEITA – PORCINI E PESCHE ALLA WILLSBEGER



Porcini são cogumelos comestíveis, muito perfumados e saborosos que nascem, espontaneamente, nos bosques italianos.

No Brasil é impossível encontra-los e, depois de inúmeras tentativas, não muito bem-sucedidas, optei por utilizar os cogumelos Eryngui

Os Eryngui são saborosos, possuem perfume delicado, mas intenso e são os que melhor se adaptaram à receita.

INGREDIENTES (4/6 pessoas)


2 bandejas de Eryngui

3 pêssegos médios bem maduros e perfumados.

1 tablete Knorr-verdura

Manteiga, leite, vinho branco, sal, salsinha 

PREPARO

Coloque um pouco de manteiga (uma colher abundante) em uma frigideira e derreta em fogo baixo.

Corte os cogumelos em fatias finas e coloque na frigideira com a manteiga.

 Aumente o fogo e após um minuto adicione meia xicara de chá de vinho branco, esmigalhe o tablete de verdura, misture bem o todo e tampe a frigideira.

Enquanto os cogumelos cozinham, retire a pele dos pêssegos e corte em pequenos pedaços.


Em outra frigideira, adicione uma colher de manteiga.

 Quando derreter (não pode fritar) junte os pêssegos em pedaços

Misture bem, adicione um copo de leite e cozinhe por alguns minutos (3) em fogo baixo sem que o leite ferva.

Salgue (é importante para salientar o contraste doce/salgado) e junte pêssegos e cogumelos

Aumente o fogo.


Se o molho secar muito adicione mais um pouco de leite.

Misture bem os pêssegos e os cogumelos, tampe a frigideira e depois de 2/3 minutos apague o fogo.

O resultado é um ótimo e refinado antepasto que deverá ser servido tépido e com um pouco de salsinha picada como toque final.


Para beber?

Champagne!

Está caro?

Um bom espumante vai bem, também.

Bacco.

PS. Cesare, por motivos de saúde, fechou o seu mítico restaurante, mas seu filho, Filippo, herdou muitíssimo do pai e continua oferecendo a magistral cozinha do pai.

Depois eu narro um pouco mais.......

 

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

HISTÓRIAS E RECEITAS

 

Com alguma relutância, um pouco de insegurança, boa dose de nonchalance, finalmente decidi (a idade obriga...) escrever algumas lembranças de viagens, receitas, episódios interessantes e naturalmente, sobre os vinhos das regiões visitadas.



É um percurso longo, sem sequência lógica, programação, mas sempre voltado à gastronomia, vinhos e lugares, que visitei e continuo frequentando há mais de trinta anos.

França e Itália, desde sempre, foram os dois países que, pela excelência de sua viticultura e gastronomia, mais despertaram minhas atenções.

Não haverá, como de costume, começo, meio e fim......  As matérias serão publicadas aleatoriamente, quando voltarem à minha mente e considerá-las importantes, interessantes.

A primeira região, que escolhi “revisitar, ”?



 Piemonte!

Piemonte de grandes vinhos, ótima gastronomia e cozinheiros magistrais.

Um deles?

Cesare Giaccone do”Ristorante dei Cacciatori” em Albareto della Torre.

Um pouco de história.


No final dos anos 1990 resolvi aprofundar minhas “relações vinícolas ” com as “Langhe”.

Para os que desconhecem as “Langhe” é preciso informar: “Langhe” é de um território, caracterizado por suaves colinas, cobertas por vinhas, da província de Cuneo (pronuncie Cúneo).

As “Langhe” são, então, uma subzona da província de Cuneo e nos 18 municípios que a compõem, vivem, apenas, 90.000 pessoas.

Para compensar a limitada população, há, no território, pelo menos, 300 bons restaurantes sendo que 18 deles ostentam estrelas Michelin.

Não sou de dar muita bola para “estrelados”, até porque, pagar 35 Euros por um prato de “spaghetti aí funghi porcini” não é bem meu sonho gastronômico, mas se o guia francês, que não é dos mais pródigos em doar suas estrelas à “rival” Itália, se curva aos restaurantes da Alba e arredores, uma razão, há.....

Bebericando, meu sagrado vinho-aperitivo das 11 horas, no Bar Savona, localizado na homônima praça de Alba, em típica atitude de quem não tem nada para fazer (pensei escrever “coçando o saco”, mas me contive), matutava onde almoçar.

Sábado em Alba é dia de “mercato” (feira) e as ruas da cidade se transformam no império dos ambulantes e suas barraquinhas, onde é possível encontrar desde meias, cuecas camisas, queijos, carnes, vinhos, escargots em lata, panelas ...... Uma verdadeira Babilônia comercial.

“Qual o melhor restaurante da região? ”

A garçonete, que acabara de me servir o segundo vinho-aperitivo, sem pensar um segundo, respondeu “ Cesare em Albaretto della Torre” e continuou: “Se eu tivesse dinheiro comeria todos os dias no Cesare. Cesare é o melhor cozinheiro da região ”.

Consultei o relógio e acelerei os goles....

Confiando na palavra da garçonete e determinado, peguei a estrada: Queria conhecer o “Ristorante dei Cacciatori” e a cozinha de Cesare Giaccone.

Um aviso aos que resolverem conhecer a cozinha de Cesare: Há três caminhos que levam a Albaretto della Torre.

 Durante o dia os 20km e as dezenas de curvas que separam Alba de Albaretto, são facilmente administráveis, mas à noite, com chuva, neblina e alguns copos a mais, recomendo abandonar a rápida estrada SP429 e optar pela mais longa, mas menos perigosa, SP3.



Na próxima matéria...... a receita de “Porcini e Pesche alla Willsberger” (Cogumelos e Pêssegos à Willesberger)

Bacco

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

SABE QUANDO ...........

 

Enquanto Bacco escrevia, mais uma série de lamúrias, a respeito dos grandes ex-vinhos de Borgonha e da taxa de câmbio, eu pensei na relação, muito próxima, que há no mundo do cinema e dos vinhos.

Numa década de 50 qualquer, se gastava um tempo enorme para pensar, escrever, projetar, fazer e lançar um filme, mas a espera geralmente era recompensada.


Grandes nomes faziam grandes filmes.

Passou o tempo e os estúdios foram se modernizando, incorporando tecnologia às filmagens, massificando roteiros e lançando filmes à velocidade da vida moderna.

 Se não desse certo no cinema, mandariam tudo para VCR e/ou (mais tarde) DVD.  


E hoje temos Netflix (entre muitas outras) parindo séries medianas a cada semana e com atores de baixo orçamento.

Giro, giro, giro........

 Capitalismo do fluxo de caixa, antes, preocupação com qualidade, depois.....

 Com um pouco de sorte e muita boa vontade, no meio do furacão de lançamentos, podemos achar algo que permaneça na memória por alguns parcos meses ao invés de três únicos dias.

As novas gerações será que se preocupam se haverá, ou não, um “E o Vento Levou” ou “2001: Uma Odisseia no Espaço” a cada semestre?

Não!

Afinal, não conheceram o que não perderam, tampouco tem paciência para mais de 80 minutos de filme.

 As novas gerações querem filmecos sem nenhuma profundidade, sem interrogações, de consumo rápido, mas com muita militância da moda (que será esquecida em tempo também recorde).

Kubrick deve estar girando no túmulo no ritmo de cada lançamento de “Velozes e Furiosos’’ ou do milésimo filme de super-herói militando por uma sociedade mais justa, menos assédio sexual na sala de justiça e salario igual para a Mulher Maravilha e Super Homem

Onde entra, então, a Borgonha de Bacco?

Ninguém que seja proprietário em vinícola pro-lucro está hoje focado em fazer vinhos que são grandes e o serão pelos próximos 30 anos, tendo em conta que o mercado atual não quer isso.

 O consumidor “eno-mala-militante” não sabe nem que saber da riqueza histórica, filosófica, agronômica e cultural em consumir um vinho seco e intacto depois de 30 anos na garrafa, mas, sim, adora falar em vinho green, sustentável, vegano (Enoloide que enche a paciência, faz barulho na internet e nem compra tanto assim para ter essa fama toda).

Conheci Borgonha em 2002 e fiz glut-glut com os vinhos da Côte D’Or sem ter a mínima noção do que estava fazendo.

 Quando amadureci, um pouco mais, já não tinha condições de pagar pelos grandes vinhos da terra santa.

 Não sei o que não estou perdendo.

Lamento pelos que o sabem.

A boa notícia, depois de tudo isso?

Para cada ex-vinho épico de Borgonha podemos comprar com o mesmo custo umas 6 garrafas (no mínimo) de vinhos muito agradáveis da Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Espanha, Grécia, Portugal, Itália, Sul do Chile, das altitudes da Argentina, e inúmeras regiões produtoras dentro da própria França.

Quando os consumidores aprenderão a buscar alternativas excelentes a vinhos com qualidade e preços fora da realidade?

Quando saci-pererê cruzar as pernas.  

Percamos as esperanças. 

Bonzo