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quarta-feira, 5 de junho de 2019

O CAMINHO DAS PEDRAS 2


 
A longa jornada do “Barolo Magnifico”, que começa em Costigliole D’Asti e termina em Maceió, passando por Ovada e Missaglia, aguçou minha curiosidade: Por que o “Magnifico” viajou tanto?

 O que levou o Barolo a deixar o Piemonte e percorrer mais de 150 km até Missaglia na Lombardia?

Algumas pesquisas e..... Viva o Google: A Morando Vini, de Ovada, desde 2009, é proprietária, também, da Cardirola, de Missaglia.

A Cardirola, olha só e por acaso, produz o Barolo “La Cacciatora” que já é vendido no Brasil, não sei por quem, com uma etiqueta que lembra a do “Magnifico”.
 

Uvas, “suruba total”, de inúmeros produtores, viagens sem rumo e sem nexo, etiquetas desconhecidas etc.  em minha opinião, visam disfarçar, ainda mais, a origem do Barolo órfão: ninguém sabe quem é o pai, a mãe, de onde veio….
 

Se os Barolo “Magnifico” e “La Cacciatora” são bons, prestam ou “fanno cagare”, eu não sei e provavelmente jamais saberei, mas sei que, pelo preço que estão sendo comercializados, no Brasil, valeriam uma experiência.

E se, por um feliz acaso, a Morando comprou alguns lotes de boa qualidade de pequenos e desesperados produtores e o Barolo revela alguma interessante surpresa?

Boca, há alguns anos, me confidenciou que um seu amigo e produtor de Barbaresco, encontrara dificuldade em vender toda sua produção.
 

Apertado, com dívidas, e sem espaço para armazenar a nova safra, entregou grande parte de seu vinho à Batasiolo.

O mesmo problema atingiu muitos outros produtores que seguiram o mesmo caminho e venderam seus Barbaresco à Batasiolo

Bacco me revelou que provou o Barbaresco da Batasiolo, daquele ano, e o vinho era de ótima qualidade.

Quem sabe o mesmo possa ter ocorrido com o “Magnifico” e “La Cacciatora”?
 

Não serei, eu, a cobaia, mas aguardo voluntários destemidos.

Dionísio

 

 

 

segunda-feira, 3 de junho de 2019

NÃO APENAS VINHO


                                          FERRARA

                                                        SPAGHETTI COM BETERRABA


                                                 

                                                     MANAROLA

                                                       CINQUE TERRE


                                                                   PORTOFINO

                                                            "REVE" SANTA MARGHERITA

                                              ENTRANDO NUMA ALFA...FRIA

domingo, 2 de junho de 2019

O CAMINHO DAS PEDRAS


Algumas pequenas importadoras brasileiras descobriram o caminho das pedras.

As tradicionais, continuam trazendo as conhecidas e inomináveis porcarias de sempre ou etiquetas “estupra cartão”.


Bons vinhos, pouco conhecidos, de pequenos produtores e com preços razoáveis, são solenemente esquecidos, descartados.

Importados “Estupra Cartão”: Barolo, Brunello, Amarone, Sassicaia, Ornellaia etc.

Importados “Che Fanno Cagare” (que dão caganeira): Primitivo (a mais nova vedete...), Lambrusco, Valpolicella, Tavernello, Prosecco etc.

Há anos é assim e, assim, sempre será.

Ledo engano.... Surgem, como cogumelos, após longos dias chuvosos, empresas que descobriram como importar vinhos que “Fanno Cagare”, usando o disfarce das etiquetas prestigiosas das denominações “Estupra Cartão”.

Um amigo, Jeriel da Costa, está se especializando em descobrir, nas prateleiras das lojas especializadas e dos supermercados, renomados vinhos, DOC ou DOCG, de produtores desconhecidos por preços similares aos encontrados na Itália.

Milagre?

Finalmente os importadores predadores abandonaram os velhos hábitos de assaltar nossas carteiras e diminuíram os lucros? 

Nenhuma das duas hipóteses.

 Algumas importadoras encontraram o “caminho das pedras” que suíços, noruegueses, suecos, chineses, russos etc.  já percorrem há anos: vinícolas que engarrafam o vinho que o cliente quer e com a etiqueta que quiser.

 O cliente precisa de Nero D’Avola, Barolo, Valpolicella, Amarone, Chardonnay, Barbera, Montepulciano d’Abruzzo, Prosecco, Primitivo di Manduria, Chianti, Frascati etc. etc. etc.?

Basta o cliente indicar as quantidades, “inventar” uma etiqueta Magnifica”, pagar e...Voilà les jeux sont faits

Há, na Itália e em outros países do velho mundo, indústrias especializadas em engarrafar milhões de garrafas, de qualquer denominação, região, proveniência, cor, preço etc. fora dos territórios das DOC e DOCG.

As últimas fotos do Jeriel são exemplos perfeitos de como a “picaretagem” é elaborada e executada.

Coloquei a palavra “picaretagem” entre aspas atendendo e concordando com uma observação de outro amigo, Mario Mondovino.

 Mario, muito apropriadamente, alertou que o expediente usado é permitido e rigorosamente dentro das leis europeias.

Mario Mondovinho Dionísio Ramos eu não falaria em picaretagem, isso é permitido pelo disciplinar que prevê que as uvas devem proceder da área da DOCG mas o engarrafamento pode ser feito não apenas em qualquer local da Itália e sim até fora da Itália. Não estou defendendo, pelo contrário sou o primeiro a criticar esses vinhos vergonhosos, mas não condeno os produtores e sim as leis que permitem essas deturpações.

Concordo, em parte, com Mario e sei que, infelizmente, por determinação da UE, desde 2016, entrou em vigor a lei 238 que permite o engarrafamento, mas apenas o engarrafamento, fora do território delimitado.


“....vengono rese definitive le autorizzazioni ad effettuare le operazioni di imbottigliamento al di fuori della zona di produzione delimitata dai disciplinari dei vini a Denominazione di Origine“.

“.... Tornam-se definitivas as autorizações de efetuar as operações de

engarrafamento fora da zona de produção delimitada pelos disciplinares

dos vinhos de Denominação de Origem”

Mario, tem razão, é tudo perfeitamente legal, mas a lei abre, ou melhor, escancara as portas para tremendas picaretagens.

Se olharmos a retro etiqueta do “Magnifico” (será?), escrita em português,
 é facílimo perceber que o pobre Barolo faz a volta ao mundo em 80 dias.

As uvas nascem e são esmagadas, em uma ou em várias aldeias da DOCG
 (são 11 e ninguém jamais saberá em qual), na província de Cuneo.

O vinho viaja até Costigliole d’Asti, na província de Asti, onde é engarrafado.

O “ Barolo Magnifico” galopa até Ovada, na província de Alessandria, onde é faturado.

O “Barolo Magnifico”, que adora viajar, continua sua jornada até Missaglia, na província de Lecco, onde é etiquetado, embalado e...... continua viajando.

Nosso incansável “Magnifico” é, finalmente, despachado para Maceió, capital do florescente estado de Alagoas, onde aguardará, provavelmente, sob o brilhante sol do Nordeste o endereço de sua prateleira final.

O que acontece, com o “Barolo Magnifico”, nesta Odisseia?       “......é
elementar meu caro Watson…”: Malandragem para todos os gostos.

A primeira malandragem é visível já no retro etiqueta: “...produzido e engarrafado por CAVIM s.l.r Ovada Itália na adega de Costigliole D’Asti”.

Se o “Magnifico” foi produzido em Costigliole é um Barolo fora da lei.

O Barolo pode ser engarrafado fora do território da DOCG, mas deve ser vinificado e produzido nos limites territoriais da denominação.

Como é produzido o nosso “Magnifico” será sempre um mistério, mas não é
um mistério que há, nas grandes engarrafadoras (a CAVIM engarrafa
nada menos do que 40 milhões de garrafas por ano), um pequeno
 exército de funcionários que percorre a Itália, do norte ao sul, do leste ao
oeste, para comprar todo o vinho excedente estocado nas adegas dos
pequenos produtores.


São conhecidos como: “Limpadores de adegas”

Com a força do dinheiro e a promessa de limpar todo o estoque em poucos dias, os preços oferecidos muitas vezes nem pagam o custo de produção, mas o pouco capital de giro e a necessidade de criar espaço nos tanques, para o vinho da nova safra, quase sempre “convencem” o viticultor a entregar os pontos e.....o vinho.

Continua.

Dionísio

terça-feira, 28 de maio de 2019

ALTO PIEMONTE, FINAL.....SERÁ?


No começo do mês resolvi passar dez dias na casa de Bacco, em Santa Margherita, aproveitar seus conhecimentos, visitar algumas vinícolas do Alto Piemonte e comprar alguns vinhos

Lessona, Gattinara, Bramaterra, Ghemme, minhas preferências.

Bacco concordou imediatamente em visitar a região e acrescentou, na rota, uma parada em Suno para conhecer um ótimo branco: “Costa di Sera dei Tabacchei”.

A primeira parada seria em Lessona onde pretendia comprar o Bramaterra da “Colombera & Garella” e o Lessona da “Prevostura”

Quem quiser aprofundar seus conhecimentos sobre o Bramaterra Colombera & Garella poderá acessar o link


Confesso que meu principal interesse era conhecer a vinícola “Prevostura” que, muitos críticos italianos, insistem em classificar como a melhor produtora de Lessona.

Se quiser conhecer a Prevostura prepare um ótimo GPS: O caminho é difícil de encontrar e percorrer (há 3 km de estrada de terra).
Alguns buracos e muitas curvas depois, finalmente encontramos a “Prevostura” e Marco Bellini, seu proprietário.

Após as apresentações de praxe e sem muitas delongas, Marco abriu as portas da adega e apresentou seus vinhos: O bom rosé “Corinna”, Bramaterra, Coste del Sesia, “Guinot” e Lessona.

Degustamos apenas o “Corinna” e o surpreendente “Guinot” que poderia definir como um Lessona menos complexo, menos estruturado e mais simples.

A mesma diferença que há entre um Nebbiolo e um Barolo.



O Lessona, Marco, nem fez menção de abrir.

Quando revelei minha intenção de comprar algumas garrafas e ele declarou o preço, entendi o porquê: 35 Euros.

O Lessona “La Prevostura” custado mais do que um bom Barbaresco ou Barolo?

Há alguma coisa errada....

Mais algumas perguntas, o papo fluido, descontração aumentando e.....finalmente o “PORQUÊ”.

“No próximo ano, com entrada de capitais, oriundos da venda de parte da vinícola aos De Marchi e Zegna, aumentarei os atuais 5 hectares de vinhedos e também a produção”

Os 35 Euros dos Lessona “La Prevostura” estavam explicados.
Os De Marchi são piemonteses que nos anos 1950 compraram, por preço de banana, uma propriedade falida em Barberino Val D’Elsa e aos poucos a transformaram na rica “Isole&Olena”.

“Cepparello”, um Supertuscan, que custa nada módicos 65 Euros, “Chardonnay Collezione Privata” de 45 Euros e o “Chianti Classico Gran Selezione” de 190 Euros, fizeram a fortuna dos De Marchi que, cheios da grana, voltaram para o Piemonte e compraram, mais uma vez, por preço de banana, terras em Lessona.

Acostumados com preços altos e apostando na eno-idiotice dos consumidores abonados, de cara saíram com um Lessona, “Proprietà Sperino”, por 60 Euros.

É sempre bom lembrar que o ótimo Lessona, da “Tenute Sella”, custa 20-22 Euros.

Como se não bastassem os De Marchi, um membro da família Ermenegildo Zegna, também, injetou dinheiro na “La Prevostura”.

De Marchi + Zegna = Lessona “La Prevostura” (por enquanto) 35 Euros.

Minha opinião?

Não vale nem a metade.

Abri uma garrafa de “La Prevostura” 2015 e já no primeiro gole senti saudades do “Lessona Sella”

Os aromas são até agradáveis, característicos, mas um insistente odor, que lembra o de um armário fechado há meses, compromete totalmente a analise olfativa.

Na boca o álcool é muito presente, os taninos são angulosos, agressivos, um final amargo e desagradável torna o “Lessona La Prevostura” um vinho cansativo.
Não vale os 35 Euros pagos por ele nem a dificuldade de transitar por uma estrada esburacada para encontrar a vinícola.

Na viagem de volta passei por Gattinara e, na enoteca da cidade, comprei algumas garrafas do Mauro Franchino por 20 Euros.

Um último aviso aos eno-tontos-abonados: Ao lado do Gattinara do Franchino, de 20 Euros, descansava placidamente uma garrafa do mesmo vinho com a etiqueta “ Nervi - Conterno 2014” por imbecilizantes, 82 Euros.

Dois detalhes:  em 2014 a Conterno ainda não estava presente na vinícola e vinho foi produzido pela Nervi.

A Conterno produziu apenas a etiqueta. 

A etiqueta “mágica” já valorizou o Gattinara Nervi quase 300%.

Como disse anteriormente e reafirmo, corra para o Alto Piemonte e compre o que puder.

Quando os De Marchi, Zegna, Conterno etc. “invadem” um território...... não há KY que baste.

Dionísio