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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

DURO, FORTE,MASTIGÁVEL


 


Recebo, de um atento seguidor de B&B, uma mensagem que, para variar, cansa minha beleza.
 

A WinumDay, desconhecida loja de Caxias do Sul, elogia e promove um vinho que uma empresa gaúcha (pra variar...) criou em homenagem à imigração italiana: Arbugeri 1885
 

Nome estranho, todavia, é merecida a homenagem, mas há, nela, um festival de cagadas.

 

1ª cagada: O Arbugeri 1885 é “....um vinho elaborado com muito carinho e dedicação pelo enólogo Eduardo Arbugeri em homenagem aos imigrantes italianos”.

O nosso enólogo homenageia os imigrantes da Bota vinificando o Arburgeri 1885 com as “italianíssimas” castas Petit Verdot e Alicante Bouschet.

Perfeita homenagem…. Para a imigração francesa.

 

Mas voltemos ao Arbugeri 1885

Quem canta e decanta o Arbugeri é, assim parece, um peso pesado da “sommerderie” nacional: Thiago Borne.

 

O currículo de Thiago impressiona (os eno-tontos?):  Sommelier Internacional FISAR, Juiz Internacional para Qualificação de Vinhos IWTO/FISAR, WSET 3.

O profissional gaúcho nao economiza elogios ao 1885

Nosso sommelier WSET 3 continua sua apologia enológica e afirma que o Arburgeri 1885, vinificado em 2008 (será?) Permaneceu mofando na adega durante 7 longos anos (será?).

 

Não há controle algum, no nosso Brasil vinícola e nossos Thiago poderia afirmar que as garrafas permaneceram 7 horas, 8 dias, 29 anos ou que estão mofando na adega desde 1885 sem que ninguém e jamais possa contradizê-lo.

Não há controle, então .... Falou, tá falado.

Já estou cansado de ser sodomizado pelos produtores nacionais e vou, desde já, afirmando que não pretendo comprar e muito menos beber o 1885.

Devo, porém, tirar o chapéu ao nosso Thiago 1885 que invade o picadeiro, onde comediantes pesos pesados de nossa “sommerderie”, apresentam suas palhaçadas.

Thiago1885 entra de sola no picadeiro e dá sinais que não chegou para ser coadjuvante: pretende ser um dos palhaços mais importante do circo.

Beato “aberração de tão bom” Salu, Didu Bilu Teteia & Cia., tomem cuidado..... Thiago 1885 chegou para ficar.

 

Leiam o comentário, do Thiago 1885, que vai, desde o sublime ato da abertura da garrafa, até o magico momento da degustação.

“...Estava realmente muito ansioso para matar minha curiosidade sobre o que este vinho iria revelar na taça. Depois de uma breve luta para a retirada da cera, saquei a rolha e verti o precioso líquido na taça. Os primeiros adjetivos que vieram foram: duro, forte, mastigável - uma bordoada nos sentidos! Abro o armário e pego outro equipamento de trabalho: o decanter. Enquanto o vinho respira por 30 minutos (se você tiver paciência, sugiro deixar pelo menos 45 minutos), vou, a minúsculos goles, esvaziando a primeira servida da taça e percebendo o que viria da jarra.

Finalmente servi a segunda taça, e aqui estão as impressões: temos no olfato aromas de grande intensidade e complexidade que começam
com frutas negras maduras e em compota (groselha e ameixa), passando para frutos secos (figo), tabaco, sous bois, cogumelos, chocolate amargo, baunilha, cacau, café e finalizando com notas defumadas. Em boca é potente e encorpado, tem taninos firmes e maduros completados por uma acidez gastronômica. Seu sabor acompanha toda a complexidade da paleta olfativa.

Magistral !

Juro que ao ler o trecho em que Thiago o percebeu “…duro, forte, mastigável”, experimentei uma tênue excitação; afinal não é todo dia que o encontramos duro, forte e mastigável....

Quando terminei a leitura (meia hora depois de tê-la iniciada) dos 12 aromas, que Thiago 1885 encontra em uma simples taça de vinho, pensei na bosta do meu nariz que, coitado, mal consegue distinguir um ou dois odores e sempre inventa o terceiro.
 

Mas, a vida é assim…injusta.

Ao Thiago 1885 meus parabéns e desejo um enorme sucesso para o seu “…duro, forte, mastigável”

Dionísio
 

domingo, 9 de dezembro de 2018

CURSO DE VINHO


Esta matéria, dedicada especialmente aos que cursaram, ou pretendem cursar, o “Almanaque do Biotômico Fontoura WSET”, poderia ter sido intitulada: “Custo Brasil” ou “A Mãe dos Idiotas Está Sempre Gravida...”

Você escolhe qual título é o melhor.

Massimo Martinelli foi, entre outras coisas, uns dos pais do Barolo moderno, presidente do “Consorzio di Tutela del Barolo Barbaresco Langhe e Dogliani”, enólogo e sócio proprietário da Renato Ratti, professor da escola de enologia de Alba.

 

Nos dias atuais Martinelli se dedica à pintura, literatura e às vinhas que circundam seu belíssimo agro turismo “Antica Meridiana Relais Art”   em Vicoforte.
 

 É justamente no “Antica Meridiana Relais Art” que Massimo anuncia, em sua página do Facebook, a realização de dois cursos dedicados “ Aos entendedores (para aperfeiçoar), aos curiosos (para entender) aos cultos (para apreciar).  

As datas: De sexta feira 29 a domingo 31 de marco2019

                 De sexta feira 26 a domingo 28 de abril 2019

O programa: Chegada e pernoite na sexta feira.

Sábado: Das 8,30h às 9,30h café da manhã.

 Das 10h às 12h primeira aula sobre a história da vinha e do vinho

Pausa para um almoço leve com degustação de produtos típicos da região.

Das 15h às 17h segunda aula e degustação de grandes vinhos, comentários sobre o livro de Massimo Martinelli “Il Barolo Come Lo Sento Io”.

20 horas jantar em um restaurante da região e continuação da aula com comentários sobre os vinhos servidos.

Domingo: Das 8,30h às 9,30h café da manhã

               Das 10h às 12h terceiras aula abordando vinhos especiais

Fechamento do curso com aperitivos e comemoração.

O custo do curso, dois pernoites, café da manhã e a degustação de produtos típicos = 190 Euros (R$ 855).

Fica, aqui, o registro, mas gostaria de acrescentar duas palavras.

 

Curso, ministrado pelo antológico Massimo Martinelli, dois pernoites com café da manhã em sua fantástica propriedade, custam menos do que o nível 1 (R$ 1.250) do patético WSET ministrado por patéticos “professores”.

Será por causa do “Custo Brasil” ou da “Alta Carga Tributária”?

Acredito que vinho no Brasil é para poucos, loucos e otários.

Dionísio

 

  

 

 

 

 

    

 

 

 

 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

LES MILLANDES 2009


 


Havia combinado com Matteo que levaria uma garrafa especial para bebermos juntos e para acompanhar a carne crua e a coxa de pato que ele havia me preparado.
 
 

Em minha desbastecida adega encontrei um vinho que me pareceu digno e que Matteo, fã do Pinot Noir, certamente apreciaria: Morey-St-Denis “1er Cru- Les Millandes 2009” de Gérard Raphet.
 
 
 
 

Em minhas primeiras viagens pela Borgonha, no final dos anos 1990, quando, por sinal, já não dava a mínima aos Parker, Wine Spectator, Gambero Rosso, Spurrier etc. da vida, me aconselhava com os garçons e sommeliers dos wine-bar, de Beaune e arredores, para descobrir as melhores e mais baratas opções para compra dos grandes vinhos locais.

Uma feliz coincidência: Na “Parigot & Richard”, produtora de Cremant, em Savigny-Les-Beaune, conheci uma brasileira, à época casada com o proprietário da Maison.
 

A moça, cujo nome já não recordo, além de me ciceronear pela vinícola, me deu uma série de dicas de bons produtores.

Uma das indicações: Jean Raphet

Jean Raphet, ótimo viticultor de Morey-Saint-Denis, acabou sendo a melhor sugestão da moça e foi, durantes muitos anos, uma de minhas metas obrigatórias na Côte-de-Nuits.

Já não é mais: Jean Raphet esgotou o estoque de suas 40.000 garrafas e se aposentou em definitivo.

Seu filho e herdeiro Gérard, todavia, continua tocando, com a mesma seriedade e maestria, os 12 hectares de vinhas da Domaine que pertencem à família há 4 gerações.

Sem a presença de nenhum ”enólogo consultor”, pouquíssima madeira nova, sem muitas intervenções durante a vinificação, nenhuma filtração e, pasmem, engarrafamento manual, os vinhos do Raphet são verdadeiras joias raras da Côte-de-Nuits.
 

O que dizer deste Morey-St-Denis Les Millandes 1er Cru 2009?

Comentar sua estupenda cor quase luminosa, sua grande e complexa estrutura, seus taninos redondos e aveludados, seus aromas de frutas e especiarias, sua finesse e elegância, o enorme prazer que doa ao paladar?

Tudo já foi dito e escrito, antes e melhor.......
 
 

Enquanto Matteo e eu degustávamos o Les Millandes, sem proferir palavra e trocando olhares de aprovação, em minha mente já programava uma nova visita à vinícola do Gérard Raphet.

Bacco

Mais uma coisa: O Morey-St-Denis Les Millandes 1er Cru 2009 custou 40 Euros (R$ 180)

O Fúlvia Pinot Noir, o maior insulto à casta que já bebi em minha vida, custa R$ 220.

Será que mais uma vez a culpa é dos impostos?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

OS VINHOS DO MALUF...A ENTREVISTA

 

 

Na matéria passada, falei, por cima, da grande venda de 862 garrafas da Domaine de la Romanée-Conti, inclusive 68 da joia da coroa, o Romanée-Conti, por Paulo Maluf. 

 Deixei três perguntas para os leitores debaterem, e eu mesmo ofereci algumas respostas: 

1. Quem, no Brasil de hoje, tem R$ 15 milhões para gastar em vinho? 

2. Sendo, talvez, o produtor mais falsificado do mundo, quem garante que todas essas garrafas são legítimas? 

3. Se a venda é apenas pelo lote completo, para quê comprar tantos DRCs, exceto pela ostentação? 

Em meados do ano passado, pegando um voo de Brasília para São Paulo, encontrei, na sala de embarque do aeroporto Juscelino Kubitschek, ele mesmo: Paulo Maluf. 
 

 Sozinho, próximo a uma esteira, aguardava seu assessor, que havia ido à toalete.

Para provocar risos entre os amigos, resolvi tirar uma foto com o famoso político de origem libanesa, aproveitando que ele estava sozinho. 

 Em uma época em que os políticos brasileiros não têm sido CAÇADOS para fotos (a exceção, até agora, sendo o presidente eleito), mas CASSADOS, ele estranhou meu pedido, mas, vaidoso, capitulou.  

E fiz a foto. 

Sabendo que Maluf divide duas paixões com B&B, resolvi puxar papo sobre uma delas: os vinhos 
 

"- Doutor Paulo, tenho uma curiosidade: onde o senhor compra seus vinhos?" 

Foi fazer essa pergunta e o assessor dele chegou.

Mas não arrefeci. 

"- É, sei que o senhor gosta de vinho bom, tem vários Romanée-Conti..." 

"- Rapaz, você conhece o Mercado Municipal de SP? Entrando pela porta principal, virando à esquerda, tem a loja de um espanhol. É lá que eu compro meus vinhos. Se bem que, da última vez que fui lá, não comprei nada. Senti um cheiro ruim e fiquei com a impressão de que tava tudo estragado."
 

"- Entendo. Me diga uma coisa, doutor Paulo: o Romanée-Conti vale tudo isso que cobram?"

"- Meu filho, aquilo lá é nome. Olha, você conhece o Domaine, o Domaine de la Romanée-Conti? Se você tomar qualquer vinho do Domaine, do DRC... La Tâche, Richebourg, Échezeaux... são todos iguais." 

"- Nossa, sério?" 

"- É, pode tomar um que tem o mesmo gosto dos outros, mas eu não compro vinhos pra colecionar, compro pra beber." 

Um ano e meio depois, o cara que me garantiu que não compra vinhos para colecionar, anuncia sua coleção de vinhos.

 Como nunca quis gastar R$ 15 milhões para encher a cara, tentei reaver um pouco do dinheiro dos meus impostos de uma forma mais ousada: 

"- Poxa, doutor Paulo, bem que o senhor podia me chamar para a gente tomar uma garrafa dessas!" 


"- Opa, vamos lá! Me dá o seu cartão, quando você estiver aqui com um grupo de amigos, a gente combina!" 

Promessa de político.  

Como tenho um trabalho bem insignificante, não tenho cartão de visitas, ao que ele ordenou que seu assessor me entregasse um cartão dele. Dei sequência à conversa: 

"- Obrigado, doutor Paulo..... Voltando ao vinho, o senhor prefere Borgonha ou Bordeaux?" 

Depois de uma pausa longa, daquelas de quem faz força para pensar um pouco, Maluf sentenciou: 

"- Prefiro Bordeaux. É um vinho mais delicado, mais suave. Borgonha é muito... muito... muito ácido para o meu gosto." 

O homem coleciona garrafas da DRC, junta mais de oitocentas delas, e diz que Borgonha é "muito ácido".  

Naquele momento, achei que tinha ouvido o maior absurdo da tarde. 

 Depois daquilo, nosso colecionador de vinhos foi esperar o voo dele e eu fui esperar o meu. 

Mas não me aguentei e fui falar com ele de novo, para dizer da minha felicidade de quando ele decidiu abandonar o PT, a quem tinha se unido para sobreviver politicamente, e votar pelo impeachment da comandanta. 

 E ele disse: 
 

"- Meu filho, vou te falar uma coisa: a Dilma é honesta. Uma incompetente, péssima gestora e sem qualquer traquejo político, mas ela não roubou". 

Poucos meses depois, às vésperas do Natal de 2017, Maluf seria preso, e eu nunca liguei para o assessor dele para marcar aquele Romanée-Conti que me fora prometido. 

 Com a taça vazia, deixo a vocês, leitores, que decidam qual o maior absurdo: se é colecionar vinhos da DRC sem gostar muito da Borgonha ou se é atestar que a defenestrada comandanta não roubou. 
 

E, se algum de vocês comprar a adega do Maluf, chamem o staff de B&B para cumprir a promessa que o turco me fez naquela tarde.