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quinta-feira, 5 de julho de 2018

JÓIAS RARAS II


Comentar 31 "jóias raras" é missão impossível e inútil: Não há jóias, muito menos jóias raras, na viticultura brasileira.
 

Há, sim, grande rede de picaretagem, organizada e orquestrada, para enganar o consumidor.
 
 
 
 
Críticos, revista, jornais, sites, formadores de opinião, blogueiros etc., que gravitam, pateticamente, ao redor de um esquálido e nada brilhante setor, lembram mendigos que, no século XVIII ou XIX, catavam restos de comida e esmolas dos ricos e nobres.

 
Mesmo sabendo que a esmola é difícil, nunca gratuita (há sempre um toma-lá-dá-cá), as tetas são poucas e pouco pingam para tantas taças, a subserviência é impressionante: Nossos eno-mendigos não demonstram nenhum pudor, nenhuma vergonha em elogiar e aconselhar vinhos ridículos e caríssimos, até para padrões europeus ou americanos.

Um exemplo gritante: Nosso Rodrigues não demonstra pudor, ou rubor, em apontar a Barbera do Dani-Enxada, que custa insanos R$ 264, como uma "jóia rara" e atribuir-lhe celestiais 93 pontos.

Os tormentosos vinhos, do espertinho fotógrafo, não valem nem uma vírgula.....

Falemos um pouco de Barbera.

A Barbera, casta emblemática do Piemonte, doa um vinho generoso, tânico, com boa estrutura e que acompanha, maravilhosamente, os pratos da cozinha regional.

Com o Dolcetto formava a dupla preferida e mais consumida nas antigas "piole" (as "piole" foram rebatizadas: wine bar).

 
O vinho barato do dia-dia, nos anos 1980, passa por uma "revolução" capitaneada por Giacomo Bologna e seu "Bricco dell' Uccellone".

Bologna foi o primeiro a perceber que estava surgindo um novo consumidor de vinho.

 O novo consumidor queria e podia gastar muito, desde que lhe fosse oferecido um produto diferente, "moderno", parkeriano, internacional....

Giacomo foi à França, aprendeu como usar a barrique e, de volta a Rocchetta Tanaro, lançou o "Bricco dell Uccellone".

 
Sucesso de crítica, de venda e..... de preço.

O "Bricco dell Uccellone" custava e continua custando, dez vezes mais do que um bom Barbera.

Os italianos, nem sob tortura, gastam 35/40 Euros por um Barbera, mas o mundo está cheio de eno-tontos que acreditam na fábula clássica: Preço alto = Alta qualidade.

Nem sempre é assim, mas mercado é mercado.

Pois bem, Giacomo Bologna, esperto produtor, conseguiu produzir um Barbera que competia e compete, em preço, com um bom Barolo ou Barbaresco.

Mas não foi o único gênio..... Em um tormentoso atelier, de Campos de Cima da Serra, um genial viticultor brasileiro produz o "Barbera Tormentas MMXII" que custa mais do que o icônico e mundialmente famoso "Bricco dell Uccellone".
 

Dani, o ilusionista, com a ajuda de críticos de peso (mosca?) como Rodrigues, Didu-Bilu-Tetéia, Sir Edward Motta (esse é pesado) e outros palermas, consegue produzir e vender seu Barbera MMXII por míseros R$ 264 (58 Euros).

Há pouco tempo tive uma diatribe com o Diego Arrebola e alguns de seus fieis sequazes, sobre a dúbia qualidade de vinhos por ele aconselhados.

A discussão acabou, as armas forma recolhidas e Diego encerrou o assunto afirmando que, apesar de minhas colocações, o panorama do vinho no Brasil estava mudando.
 

Concordo plenamente com o Arrebola..... Está mudando para pior e na próxima matéria explicarei o porquê

Aguardem

Dionísio

 

 

 

 

terça-feira, 3 de julho de 2018

31 JÓIAS RARAS


 


Um amigo enviou um link com matéria, inserida na coluna "Bom Gourmet", do jornal "Gazeta do Povo" de Curitiba.
 

A matéria: "Vinhos Brasileiros de Pequenas Vinícolas: Veja 31 Jóias Raras".
 
 
 

Já nas primeiras descrições, das "jóias raras", tive vários acessos de risos e o forte desejo de não continuar a leitura, mas a desistência denotaria deselegância e nunca fui deselegante com um amigo.

Resolvi continuar, mas antes tomei duas pílulas de Plasil....

Quanto mais lia, mais ria.

No final da leitura percebi que as "31 jóias raras" dariam uma bela matéria sobre as costumeiras lamurias e picaretagens dos viticultores nacionais.

No elenco das "31jóias raras", como de costume, a presença dos quase-vinhos de "Dani dos Mil Nomes" mais conhecido, recentemente, como Marco Danielle.
 

Nosso narrador, Guilherme Rodrigues, no começo do artigo, avisa que os vinhos elencados são quase impossíveis de serem encontrado (ainda bem...) nas lojas e enotecas e que se algum eno-imbecil quiser comprá-los deverá entrar, diretamente, em contado com o produtor.

Alguém certamente indagará: "Por qual razão, você chama de eno-imbecil quem quiser comprar uma "jóia rara?"

Respondo: A primeira jóia, "Cave do Ouvidor", felizmente esgotada, apresenta, segundo nosso conselheiro da Bom Gourmet, "... lavanda, leve alcatrão, frutas negras maduras e supermaduras, café, fumé, um leve toque "Amarone", seco, sedoso, uma beleza "..... e se mais aroma houvera, lá chegara......

Vai além: "Quem afortunadamente tiver em mãos uma garrafa provará um dos melhores tintos já elaborados".
 

 Guilherme, sem nenhuma economia, lasca 93 pontos para a "jóia" vencedora.

Duas considerações: Ser um dos melhores tintos, elaborados no Brasil, não significa grande coisa e nem justifica os 93 pontos do "Cave do Ouvidor".

O melhor vinho do Brasil nunca superou, nem superará, a barreira do mediano e já passou da hora de entender que o Brasil não é terra abençoada por Bacco (ops) e nem o será nos próximos 100 anos.

O Brasil é terra de café, cana, melão, melancia, uva de mesa, mas 93 pontos somente serão verdadeiros quando o cara beber vinho demais e se arrebentar em uma ribanceira.
 

Aí, sim, 93 pontos serão verdadeiros e bem-vindos....

Já que o assunto é "pontos", seria justo indagar quantos pontos nosso crítico reservaria, por exemplo, para o Amarone do Quintarelli, Barolo Giuseppe Rinaldi, Brunello di Montalcino Pietroso

1.250, 1.310,1. 430?

Respostas, por favor.

O primeiro lugar do pódio é concorrido.
 

 Nosso crítico paranaense pede para o "Cave do Ouvidor" se afastar um pouco à esquerda e, sempre com 93 pontos, manda subir o "Serena Pinot Noir" e o "Tormentas Barbera MMXII".

Em segundo lugar, mais um vinho do Dani das mil picaretagens: "Tormentas Monte Alegre Pinot Noir MMXII".

O que dizer?

Por onde começar?

Tentarei....

Não conheço o "Serena Pinot Noir", nunca bebi, mas não consigo entender como possa custar R$250.

Não sou profundo conhecedor de música sertaneja, mas sei que a melhor canção do gênero não chega aos pés da pior (se é que há alguma) do Tom Jobim, então.....
 

Amigos, R$ 250 correspondem a 55 Euros e gastando um pouco mais ou um pouco menos, posso comprar, do Jean Raphet, em Morey-Saint-Denis, uma extraordinária garrafa de seu "Clos Vougeot".

Uma pergunta: pelo mesmo preço qual dos dois vinhos você compraria o Serena Pinot Noir ou o Clos Vougeot?

Continuando a análise das eno-sandices nacionais.

Falar de Dani dos mil nomes e seus quase-vinhos me obriga a ingerir mais dois Plasil....

 
Não conheço o Guilherme Rodrigues, não posso avaliar seus conhecimentos e nem sua honestidade intelectual, mas qualquer pessoa que possua um paladar normal e não um de epóxi, não pode comparar o Pinot Noir, do ex fotografo, a um grande Borgonha.

É impossível!

Não nutro particular simpatia per Sir Edward Motta, mas sei que o cantor anglo-brasileiro passeou várias vezes pela Borgonha, bebeu hectolitros de Pinot Noir e quem bebe Pinot Noir da Borgonha sabe perfeitamente que não há nada melhor nem igual no planeta.

Sir Edward certa vez elogiou calorosamente o tormentoso Pinot Noir do ilusionista do "Atelier Tormentas" assim, como agora faz nosso Guilherme Rodrigues.
 

Ora, provei todos os vinhos do ilusionista e certa feita levei algumas de suas garrafas para a Itália onde foram avaliadas por sommeliers profissionais.

Resultado: O líquido, após o primeiro gole, foi jogado, sem cerimônia,  na pia.
se alguém não conseguir entender poderei traduzir
Continua.

Dionísio

sexta-feira, 29 de junho de 2018

L'AGAVE


 


Em 2013 escrevi esta matéria onde comentava e recomendava um passeio pelos túneis que de Framura serpenteiam, beirando o mar,  até Levanto (se pronuncia Lévanto).
 

Domingo ensolarado, turista por todos os lados e saindo pelo ladrão ..... Resolvi deixar a super badalada Santa Margherita Ligure, almoçar em Framura no espetacular "L'Agave".
 
 

 


Já havia conhecido o "L'Agave", ano passado, quando meu amigo Franco Bertolone ,cansado de meu "imobilismo", me obrigou a entrar em seu carro e somente parou no pequeno porto de Framura bem ao lado do restaurante.

 
Marco Rezzano, grande sommelier e professor da AIS, teve a genial idéia de arrendar uma antiga a abandonada casinha que, no passado remoto, era utilizada como deposito de ferramentas para a manutenção de ferrovia.

A casinha, reestruturada, abriga a cozinha, o caixa e apenas três mesas.

Com muita visão e sapiência, Rezzano construiu dois terraços para abrigar mais mesas.
 

Não preciso dizer que, das mesas nas sacadas, é possível apreciar um panorama de tirar o fôlego.

A natureza incontaminada, o pequeno porto no fundo do penhasco, as enseadas paradisíacas e o mar azul que parece não ter fim, são impossíveis de descrever: é preciso conhecer.

É preciso conhecer, também, a ótima cozinha do "L'Agave".
 

Peixes e moluscos fresquíssimos, sabores da Ligúria preservados, mas apresentados com um toque de moderno bom gosto, uma pequena, mas sábia quantidade de pratos e, para finalizar, uma monumental carta de vinhos.

 
Monumental, não no número, mas na perfeita escolha dos produtores.

Carta que explora sapientemente todo o território lígure, se alastra até a Sicilia passando pelo Piemonte, Veneto, Marche, Campânia, Toscana e todas as regiões italianas.
 

Framura, suas belas paisagens, sua natureza não contaminada e o "L'Agave" merecem uma visita.

Mais uma dica: Vá de trem!

Deixe o carro e esqueça a estrada perigosa e cheia de curvas (mais de cem).
 

 O trem é mais seguro, mais rápido e a estação fica bem próxima do mar e do "L'Agave"

Confira

Bacco

 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

COMBINARAM COM OS RUSSOS?


Dizem que, na copa do mundo de futebol na Suécia, em 1958, o Brasil se preparava para enfrentar a URSS.

 O técnico da seleção reuniu o elenco e falou, durante longo tempo, sobre estratégia, como fazer, onde fazer, quem faria o que, como o time atacaria os soviéticos e...... por aí vai.
 

Feola, no final da preleção, perguntou se todos haviam entendido o que deveriam fazer.

 Silêncio total.

Neste exato momento Garrincha levantou a mão e, com sua natural simplicidade, perguntou: "Ta legal seu Feola, mas já combinou tudo isso com os russos? 
 
 

Brilhante, Garrincha.

Todo esportista, dito meio lerdo da cabeça, é capaz de tiradas geniais.

Recentemente li alguns artigos que comentavam a revolta dos Joaquins e Manueis (nomes fictícios) incomodados com preços muito baixos dos vinhos portugueses.

 Resumindo: Os vários artigos, que li, afirmam que Portugal precisa parar de vender barato e iniciar um levante, uma revolução nos preços.
 
Qualquer garota de programa (ou traveco, sejamos incluidores e igualitários aqui) à beira da Belém-Brasília gostaria de vender o corpinho por bem mais que R$ 10.00 (se aceita cartão de débito).

Todo restaurante gostaria de subir os preços em 200% sem aumento nos custos;

A Lada e o Vlad Putin adorariam vender os carros russos por 80% de um Pagani;
 

A Bic adoraria cobrar por uma caneta o mesmo que a Montblanc cobra pelas Meisterstück ...

Todo produtor de espumante gaúcho adoraria vender o espumante pelo preço de Champagne... (este é um mau exemplo, pois alguns tem a cara de pau de tentar e vender (!) espumante gaúcho como se fosse Champagne).

Os portugas vão descobrir que, num mundo de escolhas e com muita competição, os consumidores estão saturados de marcas, regiões, estilos, nomes, críticos tentado se passar por isentos e ou competentes, e que fazemos nossas escolhas, nem sempre, baseados em “qualidade e preço”.

Vinho, também, é em grande parte uma compra emocional que, como tal, vem carregada de erros e acertos aleatórios.

 Portugal oferece muito pouco, em emoção, para nos convencer em pagar mais pelos vinhos que produz.
 
 

Saber precificar e cobrar, caro, por produto ou serviço é possível somente para quem:

1) entende da arte/ciência de “branding” e “marketing", elasticidade de preços e demanda. Isso exige escola, educação ou cara de pau e sorte em alguns casos,

2) tem muito dinheiro para comprar demanda e fama,

3) tem produto e serviço que “entregará” o que realmente promete.

4) tem paciência e tempo (e dinheiro) para ficar contando lorotas e mentiras pelo mundo afora sobre o a nobreza da família, mergulhar os vinhos no fundo do mar, inventar algo sobre ETs e alienígenas que amassaram as uvas antes da fermentação durante anos.
 

Portugal faz relativo sucesso, entre nós, porque é uma ótima alternativa para turismo bom e barato, para vinhos bons e baratos, para comer um queijo bom e barato, para comprar telha e porcelana boa e barata, para pegar uma temporada na praia (adivinha?) na Europa boa e barata.

Tirando isso falta, à patota portuguesa, glamour, nobreza, lugares paradisíacos que até o Chile tem.

Há ótimos vinhos portugueses (inclusive espumantes) que se escondem e não saem do território e das aldeias em que nasceram.

Alguns conseguem irem além-mar, mas sejamos honestos, alguém vai comprar vinho verde pelo mesmo preço do equivalente italiano ou francês?

 Podem ter certeza que os produtores do "Franga Manca" gastaram muito para criar a demanda que existe por aquele vinho bem mediano.

 
 É uma baita exceção à regra (Barca Velha, também)

Desconfio que Porto e Douro conseguem vender mais caro porque houve muita mão estrangeira ali.

Em defesa de Pedro, Joaquim e Manuel, devo admitir que os argumentos, pró-aumento, até que são bem fundamentados e bem intencionados (para eles).

Exceto que.... Esqueceram de combinar com os russos.

 

 Podem aumentar os preços à vontade, mas cuidado: haverá sempre alternativas....... vinhos gaúchos, exclusos, que parecem desafiar todas as leis da química, física esoterismo e bom senso.

Bonzo