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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

VERDICCHIO DI MATELICA


 



Sempre afirmei que uma das maiores castas brancas italianas é o Verdicchio.

Mas nem sempre o Verdicchio foi considerado, reconhecido como uma grande uva e que poderia produzir grandes vinhos.

O Verdicchio alcançou o sucesso comercial nos anos 60, frequentou mesas e taças do mundo todo, invadiu enotecas nos quatro cantos do planeta, mas acabou   pagando caro por este sucesso.

Qualidade duvidosa, imediatismo inescrupuloso visando apenas números, uma bela jogada de marketing, deram, àquela garrafa, imitando ânfora etrusca, uma conotação de vinho jovem, fácil de beber, mas banal.

O sucesso comercial foi grande e o Verdicchio se transformou em um dos brancos mais conhecidos e exportados da Itália.

 Quando a moda arrefeceu, o vinho das colinas “marchigiane” amargou um lento e inexorável declínio, carregando, durante longos anos, o estigma de produto barato e de baixa qualidade.
 

A vinícola Fazi Battaglia, primeira responsável pela divulgação da “ânfora” etrusca, faturou horrores, mas quase destruiu a reputação do Verdicchio.

A Fazi Battaglia não foi a única que vulgarizou uma grande casta: A vinícola   Bolla, com seu Soave, fez o mesmo com a uva Garganega.

Ainda bem que o mundo vinícola italiano é composto, na sua grande maioria, por pequenos e médios produtores que, visam lucro, sim, mas sempre com um olho voltado às tradições e respeito pelo vinho.
 

Em meados 80 uma decisão e conscientização importantes foram tomadas por um punhado de viticultores regionais.

  Analises, estudos e seleções de clones da Verdicchio e mudanças nas técnicas de plantio e vinificação, alcançaram, em menos de 30 anos, resultados surpreendentes.

As quantidades por hectares diminuíram muito, as uvas são colhidas um pouco mais cedo para privilegiar frescor e cor e, finalmente, técnicas modernas foram adotadas nas adegas.

Resultado: O Verdicchio é, hoje, um grande vinho.

Ainda há, na denominação Verdicchio, muita porcaria, mas há, também, garrafas de puro sonho.

Quando afirmo que, para escrever sobre vinhos é necessário conhecer a região sei o que digo...

Quantos críticos, blogueiros, “professores” (me poupem...) de cursos, diretores de AB$, $BAV etc. já provaram um bom Verdicchio de Matelica (se pronuncia Matélica)?

Garanto que 99% deles, se não correrem ao Google, nem sabem o que é “Matelica”.

O Verdicchio possui duas denominações: Verdicchio dei Castelli di Jesi e Verdicchio di Matelica.

Na primeira viagem que realizei, nas terras do Verdicchio, visitei a “Enoteca Della Regione Marche”.

A Enoteca, localizada bem no centro histórico de Jesi, possui mais de 400 etiquetas dos produtores da região e é um ótimo endereço para se começar a conhecer o Verdicchio.

A sommelier, que naquela ocasião me atendeu, apresentou um sem números de produtores e foi através de seus conselhos que pude conhecer um dos melhores Verdicchio dei Castelli di Jesi: CORONCINO.
 

O Coroncino e seu irmão, Gaiospino, produzido, em Staffolo, pelo incrível Fuvio Canestrari, continuam frequentando, com muita assiduidade, minhas taças.
 

Quando já não acreditava que outro vinho pudesse me surpreender, a sommelier, com o indisfarçável propósito de fundir minha cuca e quase sussurrando, disse:” O senhor já provou o Verdicchio di Matelica?”
 

Estava em meu primeiro estágio do Verdicchio, mal conhecia a denominação “Castelli di Jesi” e a mulher já me apresentava a de Matelica.

Vendo minha expressão, de tonto recém acordado, a sommelier, sem proferir uma palavra a mais, despejou em minha taça dois dedos de “MÌRUM”.

Três dias depois estava gastando os pneus do meu carro pelas estradas da montanhosa Matelica para conhecer as terras do fantástico Mìrum.

Logo mais, Mìrum II

Bacco

domingo, 31 de agosto de 2014

ALSÁCIA X MARANHÃO


Se não fosse ateu e tivesse intimidade com Deus, perguntaria qual o critério utilizado para determinar que uma criança nascesse em Ribeauvillé, na Alsácia e outra, no mesmíssimo dia, em Marajá do Sena, no Maranhão.

Antes que a turma do “cruz-credo” me envie comentários irados, anátemas, impropérios, ameaças fundamentalistas etc., devo salientar que o pensamento me ocorreu no exato momento em que bebericava, antes do almoço, uma taça de Riesling em um bar localizado na pracinha da belíssima aldeia alsaciana.

Algumas crianças brincavam, alegres, na praça sem serem vigiadas ou atropeladas.

A ruidosa algazarra chamou minha atenção e, sem querer, comecei a conjecturar.

Aqueles meninos nasceram em um hospital público, frequentam uma escola pública, não brincam nas aguas fétidas de um esgoto a céu aberto, não se borram com diarreias incontroláveis e, com toda certeza, ao alcançarem a idade adulta administrarão Ribeauvillé sensata, honesta e racionalmente como fizeram seus pais, avós, bisavós….

Em Ribeauvillé nunca haverá estádio gigantesco, pedrinhas violentas e desumanas, sarneys, lobinhos, lobões, chacais ou outros oportunistas predadores.

Ribeauvillé, no próximo século, continuará linda, limpa, humana, acolhedora e tranquila.

 Em 2087, outras crianças, brincando na mesma praça serão observadas por um turista brasileiro, ateu ou não, que, ao beber uma taça de Riesling, pensará as mesmíssimas coisas que acabei de escrever.  
 

Enquanto isso Marajá do Sena, em 2087, será exatamente a mesma merda de hoje.

 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

VINIDAMARE III


 


Falar de vinhos, no estilo B&B, é atemporal.

Sem a preocupação da notícia fresca, da informação imediata ou urgente, deixei para o final meus comentários sobre os três melhores produtores que participaram da “VINIDAMARE” em santa Margherita.

Enquanto percorria os corredores da Villa Durazzo, onde dezenas de vinícolas expunham suas garrafas, imaginava o que aconteceria, no Brasil, se eventos como o “Vinidamare fossem comuns, corriqueiros, semanais   como acontece em muitas cidades italianas.

 Acredito que os assíduos frequentadores de bocas-livres, blogueiros, (de)formadores de opinião, membros da AB$, $BAV, etc.,   viveriam em permanente porre.

Mesmo na sofisticada e exclusiva Villa Durazzo pude notar vários “profissionais” da região trocando pernas.

Dez Euros não assustam ninguém, razão pela qual há enófilos que frequentam os encontros com o firme propósito de encher a cara.

Não adianta cuspir: Um pouco de álcool é sempre bebido.
 

Minha “técnica” continua a mesma: Selecionar meia dúzia de produtores (com o tempo se adquire a manha e é fácil descobrir os melhores), degustar com calma e abandonar os eventos, no máximo, após uma hora de libações.

Outra possibilidade: Encontrar algum representante amigo (conheço vários...) e pedir conselhos sempre preciosos.

Em matéria anterior revelei que Paolo Cogorno, representante de algumas vinícolas regionais e de uma dúzia de Maison de Champagne, me indicou o caminho das pedras e sem perder muito tempo fui direto ao que havia de mais interessante.

As garrafas mais importantes, do encontro, vinham das “Cinque Terre” e de Albenga.

Comecemos com os vinhos das” Cinque Terre”.
 

O território vinícola das “Cinque Terre”, que começa em Monterosso, passa por Vernazza, Corniglia, Manarola e alcança Riomaggiore, se estende, em linha reta, por pouco mais de 9 quilômetros, mas é um dos mais incríveis e belos que eu conheço.
 

As vinhas são cultivadas em declives tão acentuados que precisam de terraceamentos para poder viabilizar o plantio, manutenção e colheita. 

Os terraceamentos, construídos há séculos pelos ciclópicos lígures e hoje tombados pela Unesco, abrigam as três uvas autóctones, Albarola, Bosco e Vermentino, que dão vida à DOC “CINQUE TERRE”.
 

A DOC “Cinque Terre” coloca no mercado 270/300 mil garrafas por ano.

Produção pequena (a Salton, sozinha, infesta o mercado nacional com quase 30 milhões de garrafas) que é toda consumida na Ligúria, particularmente, nas aldeias que compõem a DOC.

O vinho Cinque Terre” não é um vinho excepcional; é um vinho de boa qualidade, mas que não deveria custar tanto (10/15 Euros nas enotecas).
 

Apesar do preço salgado o vinho não conhece crise.

A razão?

Somente nos meses de junho a setembro 350/400 mil turistas visitam, todos os anos, as famosa cinco aldeias lígures.

Nos bares, restaurantes, enotecas, o vinho local é fartamente consumido e, não raramente, adquirido como souvenir.
 

Façam as contas e perceberão que, com um canal de venda quase exclusivo, 300 mil garrafas praticamente evaporam.

A grande procura e a falta de conhecimento vinícola da turista contribuem para que o Cinque Terre DOC, na sua versão mais popular, seja um vinho nada além de sofrível.

Neste cenário, de muita facilidade nas vendas e pouca preocupação com a qualidade, há, ainda bem, meia dúzia de produtores, com inventiva e seriedade, que se destacam: Sebastiano Catania é um deles.
 

Catania, em seu terreno de 0,5 hectares localizado na colina denominada Vetua, ao sul de Monterosso, extrai 3.000 garrafas de um soberbo vinho branco, que por sua cor um pouco mais escura, do que a recomendada pela denominação, não obteve a DOC.
 

Catania, apresentou o vinho duas vezes ao consorcio regulador da DOC e em ambas não recebeu o reconhecimento.

O seu “VÈTUA” não é DOC, mas Sebastiano não se importa com a exclusão e continua vinificado, suas 3.000 ótimas garrafas, com dedicação, inteligência e adicionando, às tradicionais Albarola, Bosco e Vermentino, outras três raríssimas uvas locais quase desconhecidas: Picabun, Brugiapagià e Frappella

 O resultado é um vinho com aromas de flores, vegetação mediterrânea, que na boca chega ser quase tânico, muito longo, surpreendente e com uma personalidade única e inconfundível.

O VÈTUA é um grande Cinque Terre que recomendo com entusiasmo.
 
Já sei, já sei..... 3.000 garrafas de um belo vinho são poucas, difíceis de encontrar e caras.
 

Nada mais errado: O Vètua, que custa entre 15/18 Euros, é encontrado em inúmeras enotecas e restaurantes de Monterosso, Vernazza, Riomaggiore, Manarola, Corniglia.

A invasão de turistas brasileiros, nas Cinque Terre, me faz crer que o Vètua será, em breve, degustado por muitos leitores de B&B

Confira.

Bacco

PS. Na próxima matéria vinhos de  Battè , Capellini e De Andreis.

 


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

FREISA III




Bom dia amigos! História muito bem contada, fiquei com uma vontade muito grande em provar um vinho elaborado com a uva Freisa. Pesquisei e encontrei na Mistral R$ 383,00...vou me programar e ir a Itália e faço uma degustação nos produtores, acho que é mais inteligente.
Um grande abraço.
Roberto

 

Recebi o comentário acima e levei um susto.

Uma ótima Freisa custa, na Itália, 7/10 Euros em qualquer loja, enoteca, bar supermercado ….

Para confirmar o assalto consultei o site da Mistral e efetivamente a Freisa Mondaccione, da vinícola Coppo, custa hiperbólicos 130 Euros.

Será que a Coppo fez estágio na Carraro?
 

É sempre bom lembrar que um ótimo Barolo do Alessandria, Schiavenza, Massolino, Aurelio Settimo, Parusso, Marcarini etc. podem ser adquiridos, na Bota, por 27/30 Euros.
Marcarini Barolo Brunate 2009
Oggi come un tempo, Anna Marcarini Bava, con la collaborazione della figlia Luisa e del genero Manuel Marchetti, continua con passione a condurre i vigneti di famiglia e a vinificarne le uve secondo i dettami della più rigorosa tradizione piemontese.
Vedi 29,90
Spese: n.d.
Totale: 29,90
Massolino Barolo Massolino 2008
Molteplici le sensazioni, ci troviamo di fronte ad un vino corposo, classico e ben strutturato che non teme l'invecchiamento e rappresenta in modo egregio il carattere importante delle nostre terre.25,80
Spese: n.d.
Totale: 25,80

Resolvi pesquisar mais: O Mondaccione, Freisa da Coppo, custa, na Itália, 27/30 Euros exatamente o preço de um bom Barolo.

Não me conformei.

Uma Freisa não pode custar tanto quanto um Barolo a não ser que......

Mondaccione é o melhor Freisa do Piemonte para Robert Parker. Esta intrigante uva, parente distante da Nebbiolo e imensamente apetitosa para Hugh Johnson, aparece aqui em uma versão robusta, com complexo bouquet de frutas maduras, notas de alcaçuz e grande estrutura. Para Parker, é uma grande pedida para quem procura algo novo e diferente, capaz de envelhecer por mais de 10 anos.

Eis desvendado o mistério: Coppo + Mistral + Parker + Johnson = FREISA-ESTUPRO!


Quando os famosos pontos de Parker e Cia.  entram em cena quem leva ferro é sempre o consumidor.

Dionísio.