Sempre afirmei que uma das maiores castas brancas italianas é
o Verdicchio.
Mas nem sempre o Verdicchio foi considerado, reconhecido como uma
grande uva e que poderia produzir grandes vinhos.
O Verdicchio alcançou o sucesso comercial nos anos 60, frequentou
mesas e taças do mundo todo, invadiu enotecas nos quatro cantos do planeta, mas
acabou pagando caro por este sucesso.
Qualidade duvidosa, imediatismo inescrupuloso visando apenas números,
uma bela jogada de marketing, deram, àquela garrafa, imitando ânfora etrusca, uma
conotação de vinho jovem, fácil de beber, mas banal.
O sucesso comercial foi grande e o Verdicchio se transformou
em um dos brancos mais conhecidos e exportados da Itália.
Quando a moda arrefeceu,
o vinho das colinas “marchigiane” amargou um lento e inexorável declínio, carregando,
durante longos anos, o estigma de produto barato e de baixa qualidade.
A vinícola Fazi Battaglia, primeira responsável pela
divulgação da “ânfora” etrusca, faturou horrores, mas quase destruiu a
reputação do Verdicchio.
A Fazi Battaglia não foi a única que vulgarizou uma grande
casta: A vinícola Bolla, com seu Soave,
fez o mesmo com a uva Garganega.
Ainda bem que o mundo vinícola italiano é composto, na sua
grande maioria, por pequenos e médios produtores que, visam lucro, sim, mas
sempre com um olho voltado às tradições e respeito pelo vinho.
Em meados 80 uma decisão e conscientização importantes foram
tomadas por um punhado de viticultores regionais.
Analises, estudos e seleções de clones da
Verdicchio e mudanças nas técnicas de plantio e vinificação, alcançaram, em
menos de 30 anos, resultados surpreendentes.
As quantidades por hectares diminuíram muito, as uvas
são colhidas um pouco mais cedo para privilegiar frescor e cor e, finalmente,
técnicas modernas foram adotadas nas adegas.
Resultado: O Verdicchio é, hoje, um grande vinho.
Ainda há, na denominação Verdicchio, muita porcaria, mas há,
também, garrafas de puro sonho.
Quando afirmo que, para escrever sobre vinhos é necessário
conhecer a região sei o que digo...
Quantos críticos, blogueiros, “professores” (me poupem...) de cursos,
diretores de AB$, $BAV etc. já provaram um bom Verdicchio de Matelica (se
pronuncia Matélica)?
Garanto que 99% deles, se não correrem ao Google, nem sabem o
que é “Matelica”.
O Verdicchio possui duas denominações: Verdicchio dei Castelli
di Jesi e Verdicchio di Matelica.
Na primeira viagem que realizei, nas terras do Verdicchio,
visitei a “Enoteca Della Regione Marche”.
A Enoteca, localizada bem no centro histórico de Jesi, possui
mais de 400 etiquetas dos produtores da região e é um ótimo endereço para se
começar a conhecer o Verdicchio.
A sommelier, que naquela ocasião me atendeu, apresentou um sem
números de produtores e foi através de seus conselhos que pude conhecer um dos
melhores Verdicchio dei Castelli di Jesi: CORONCINO.
O Coroncino e seu irmão, Gaiospino, produzido, em Staffolo, pelo incrível Fuvio Canestrari,
continuam frequentando, com muita assiduidade, minhas taças.
Quando já não acreditava que outro vinho pudesse me surpreender,
a sommelier, com o indisfarçável propósito de fundir minha cuca e quase
sussurrando, disse:” O senhor já provou o Verdicchio di Matelica?”
Estava em meu primeiro estágio do Verdicchio, mal conhecia a
denominação “Castelli di Jesi” e a mulher já me apresentava a de Matelica.
Vendo minha expressão, de tonto recém acordado, a sommelier,
sem proferir uma palavra a mais, despejou em minha taça dois dedos de “MÌRUM”.
Três dias depois estava gastando os pneus do meu carro pelas estradas
da montanhosa Matelica para conhecer as terras do fantástico Mìrum.
Logo mais, Mìrum II
Bacco
















