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terça-feira, 18 de março de 2014

IL PONTE DEL DIAVOLO





 

Depois de visitar Pietrasanta, Lucca é outra meta obrigatória.

Não vou comentar Lucca, pois é cidade já muito conhecida e não precisa de um novo “descobridor”.

Recomendo, porém, uma visita mais que demorada à descoberta desta magnífica cidade.

Pouco mais de 20 quilômetros de estrada, sem grandes atrativos, separam Lucca de Borgo a Mozzano.
 

A rodovia, após alcançar Borgo a Mozzano, continua e se dirige para uma região de tristes recordações e batalhas sangrentas no final de 1944: A montanhosa “Garfagnana”.

Borgo a Mozzano não mereceria três minutos atenção se não abrigasse, em seu território, a fantástica “Ponte della Maddalena” mais conhecida pelo popular nome: “Ponte del Diavolo(Ponte do Diabo).
 

A ponte, obra prima da engenharia medieval, construída em 1100, sobre as aguas límpidas do rio “Serchio”, é realmente impressionante.

Sua estrutura e as arcadas assimétricas, especialmente aquela central, muito alta, imponente, fina e quase surreal, são tão características que a rendem única e digna de dezenas de fotos.

A ponte, como toda obra importante medieval, é cercada por crenças e lendas.
 

O mestre de obras, encarregado da construção, percebeu que não poderia entregar a obra no prazo previsto.

Desesperado e sem saber a quem recorrer, decidiu pedir ajuda ao diabo.

O demo concordou em ajudá-lo em troca da alma do primeiro que atravessasse a ponte na manhã seguinte.

O pedreiro concordou, assim, o diabo, durante a noite, concluiu a obra.

O mestre de obra, naquele dia e aos primeiros raios de sol, obrigou um porco a atravessar a ponte.

O diabo, furioso, percebeu o engano, se jogou da ponte e nunca mais apareceu.

A lenda é muito símil à dezenas de outras que durante a idade média faziam parte do imaginário popular.

Se o diabo ajudou a terminar a ponte, devemos saudá-lo por sua soberba técnica e refinada estética.
 

Deixando a brincadeira de lado recomendo, com entusiasmo, uma visita ao Borgo a Mozzano e sua esplêndida “Ponte della Maddalena”.

Bacco

segunda-feira, 17 de março de 2014

PIETRASANTA




 

Um leitor postou, em comentários, não sei quem e muito menos quando, que deixei de escrever sobre aldeias italianas, pouco conhecidas e esquecidas (felizmente) pelo turismo internacional de massa e que realmente merecem uma visita.

A idade, a preguiça e a falta de inspiração, que sempre mais frequentemente me assaltam, limitaram, não de raro, minhas viagens em busca de novos endereços.

Hoje está chovendo, amanhã fará frio, previsão de muito calor, viajar com neve caindo? 
 Nem pensar...

Desculpas não faltam.

Há dez anos encarava 500 km sem parar uma única vez, nem para mijar (hoje procuro um banheiro a cada 50 quilômetros...), o cansaço não me assustava e dirigia por estradas que hoje nem de helicóptero enfrentaria.  

Mas, quando acordo do torpor, mando a preguiça à merda e resolvo botar o pé na estrada, sai da frente.....
 

Durante conversa fiada, no ótimo restaurante “Il Vecchio Borgo”, que frequento três ou quatro vezes por semana, em Chiavari, o amigo Salvatore, que por muitos anos foi representante comercial e que conhece a Itália como poucos, me recomendou um passeio pela Versilia, mais especificamente em Pietrasanta.

A Versilia, para quem não sabe, é a costa toscana, que confina com a Ligúria e abriga as badaladas Viareggio e Forte dei Marmi.

As duas cidades parecem bairros de Moscou: Estão apinhadas de russos que, com o dinheiro fácil (da corrupção?), compram casas pelo triplo do preço, invadem as praias, se bronzeiam e bebem caixas e mais caixas de Sassicaia, Ornellaia, Masseto etc. como se fossem de água mineral.

Os russos são insuportáveis, grosseiros e prepotentes.

Deixando a preguiça de lado e aproveitando um raro dia de sol, botei o carro na estrada, decidido.
 

As metas: Rever Lucca, conhecer Pietrasanta e Borgo a Mozzano.

A primeira parada Pietrasanta.
 

A cidade toscana, para os padrões italianos, é “jovem”; foi fundada em 1255.

Pietrasanta foi a primeira cidade toscana planejada que abandonou o urbanismo arredondado, dominante de então, as estreitas e labirínticas ruelas e adotou um traçado moderno, “limpo”, que está maravilhosa e integralmente preservado até hoje.

Pietrasanta é um museu à céu aberto!

A aldeia, desde sempre, foi endereço obrigatório de escultores e artistas de grande fama.
 

Michelangelo e Vasari, procuravam Pietrasanta para comprar, diretamente nas pedreiras que a circundam, blocos de mármore, muitos dos quais foram transformados em obras primas do renascimento.

Caminhando pelas ruas da cidade é possível encontrar a casa onde Michelangelo, famoso, também, pela proverbial avareza, negociava à exaustão o preço dos mármores.

Bebericando nos bares da cidade não é difícil encontrar, numa mesa  ao lado, Fernando Botero ou de Igor Mitoraj, artistas de renome internacional que fizeram de Pietrasanta sua segunda casa  (ambos moram na cidade).
 

Heny Moore, Arnaldo Pomodoro, Salvador Dalí, Juan Miró, Kan Hyashuda e dezenas de outros frequentaram (os que não morreram continuam frequentando) Pietrasanta para realizar suas obras nas famosos forjas dos artesãos locais, incomparáveis mestres no processamento do bronze.

Inúmeros   artistas doaram belíssimas obras à cidade e que podem ser admiradas nas praças, ruas, jardins e em todos os cantos de Pietrasanta.

Pietrasanta é arte pura!
 

Mas Pietrasanta é, também, gastronomia.

É inacreditável: Somente no centro histórico de Pietrasanta, há duas dezenas, ou mais, de bons restaurantes.

Cozinha regional, internacional, tradicional, moderna…. Há para todos os gostos e bolsos.

Uma dica: A maior parte dos restaurantes abre somente à noite e é a noite que doa à Pietrasanta ainda mais fascínio.

Não poderia deixar de indicar alguns endereços interessantes e imperdíveis.

Na praça “Del Duomo” não deixe de conhecer o “Bar Michelangelo” e “Bar Locanda Pietrasantese”.

Os dois endereços servem vinhos, espumantes e Champagne em taças generosas (preço salgado) além de bons petiscos.

O ponto obrigatório de Pietrasanta e a “L’Enoteca Marcucci”.
 

A Marcucci é um local histórico, onde se come realmente bem e que possui a segunda melhor enoteca da Toscana (a primeira é a Pinchiorri em Firenze).
 

Sensacional!!!!.

Pietrasanta, magia pura.

Para a turma “outlet-sacola”, uma dica para mitigar a abstinência: Nas ruas de Pietrasanta não há lojas de grifes famosas, mas nas boutiques sofisticadas da cidade há peças únicas e de refinado bom gosto que fazem os russos sorrirem e os italianos chorarem.

Não perca Pietrasanta.

sábado, 15 de março de 2014

O PARADOXO ITALIANO




Todo final de mês, em Chiavari, há uma feira de produtos regionais.

Impressionante variedade de queijos, embutidos, pratos prontos, molhos, condimentos, massas, doces etc.

Uma verdadeira festa para os olhos e....estômagos.

Não é preciso escrever muitas palavras; as fotos são suficientes.

O paradoxo francês: A cozinha dos descendentes de Asterix se baseia em pratos que levam toneladas de gordura animal (leite, nata, queijos, manteiga etc.), mas e apesar disso, os franceses são os europeus com o menor índice de doenças cardiovasculares.

O paradoxo italiano: Os italianos só falam de comida, só pensam em comida, comem como leões e não são obesos.
 

Se os compararmos aos americanos parecem anoréxicos....
 
Viva a dieta mediterrânea

quarta-feira, 12 de março de 2014

FINALMENTE UM GRANDE BRUNELLO


Por que o “Boccon Divino” caiu tanto?

Como pode um restaurante refinado, consagrado despencar para o purgatório gastronômico?

A resposta: Colocar em segundo plano a atividade principal e tradicional privilegiando um momentâneo sucesso glamoroso.

 A venda do controle acionário da vinícola “La Fiorita” para a pornostar americana, a parceria com o não menos pornográfico locutor, cofre bel alimentado, o “sucesso” do marido no mundo da pirotecnia, “obrigaram” a Alessandra a acompanhar com frequência o consorte nas viagens relegando, assim, o local a um segundo plano.

Ana, irmã, sócia e competente cozinheira, desde a fundação, do "Boccon Divino", deixou as panelas e foi para a sala que ,definitivamente, não é sua praia.

 O resultado é sempre o mesmo: Decadência!

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quando a pornostar cansar de brincar com as garrafas e retornar às antigas preferências, quando o Galvão Pavão encontrar um parceiro mais capacho, “La Fiorita”, que produz Brunello adocicado e parkeriano para o mercado internacional, vai entrar em declínio também.

Sem ser conhecido e reconhecido pelo mercado interno o Brunello do Cipresso (se ele ainda for realmente o proprietário) terá enorme dificuldades em escalar novamente a montanha.

Há uma janela de esperança: A Toscana, com sua beleza única, exerce um fascínio impressionante sobre americanos, ingleses, alemães, chineses, brasileiros etc. que não param de investir na região.

Para que os leitores tenham uma ideia gostaria de informar que, na última década, 17% das propriedades agrícolas toscanas foram vendidas para investidores estrangeiros.
 

“La Fiorita” pode perfeitamente sair das coxas da Savanna para os pês de um jogador de futebol onde o Cipresso será a bola da vez.
 

Enquanto isso, após o aveludado, macio, perfumado redundante, adocicado e enjoativo “La Fiorita” 2007, ordenamos e bebemos um “Canalicchio di Sopra” 2009.
 

O paladar reconheceu e agradeceu, finalmente, um grande Brunello di Montalcino.