Foi nos já distantes anos 1970 que comecei a me interessar
pelo fascinante mundo dos vinhos.
Uma meteórica passagem pela ABS-Brasília me convenceu que,
mesmo sendo um semianalfabeto vinícola, nada poderia aprender de útil naquela
associação.
A internet e o Google ainda nem gatinhavam e a únicas fontes
de informação eram livros e revistas importadas.
Facilidade com os idiomas, francês e italiano, me ajudou a “devorar”
grande quantidade de publicações que até hoje guardo em prateleiras e gavetas
de minha casa.
Naqueles mesmo anos
surgiam os primeiros “veneráveis” das garrafas.
Os endeusados “papas” das taças premiavam com pontos, taças,
estrelas, etc. o melhor vinho, a melhor vinícola, o melhor enólogo, o melhor
alguma coisa e eu ficava babando só de imaginar quando poderia molhar os lábios
em uma taça de Tignanello, Barbaresco Bruno Giacosa, Brunello
di Montalcino Biondi Santi, Barolo Monfortino, Sassicaia, Amarone ... etc.
Parecia ser um mundo imaginário, distante, inalcançável.
O melhor que conseguia beber,
naqueles anos, eram alguns Valpolicella, Frascati, Chianti, Lambrusco e os
horrendos vinhos alemães, aqueles da garrafa azul, presentes em quase todos os
casamentos da então.
Enquanto isso a ABS continuava comandando a dança e oferecendo
esporádicas degustações de “Barca Velha”
para os sócios e enófilos abonados.
Lembro que o renomado vinho português era servido em
conta-gotas e cobrado em tubos de 10 polegadas....
O pior dos eno-mundos.
Uma inesperada herança me propiciou boa folga financeira e
finalmente consegui realizar meu sonho de conhecer, na fonte, o verdadeiro mundo
do vinho.
As viagens para a Itália se tornaram mais constantes,
regulares e demoradas.
Do norte ao sul, do leste ao oeste, do continente às ilhas,
não há região vinícola, da Bota, que não tenha percorrido inúmeras vezes, sem
contar que morei no Piemonte, mais precisamente em La
Morra, durante vários meses.
Da França “vinícola” perdi a conta de quantas viagens realizei
pela Borgonha, Alsácia, Champagne, Rhone, Provence, Languedoc-Roussilon.
Alguns anos e centenas de garrafas depois, cheguei à conclusão
que todas as revistas e maioria dos livros que eu lera, apenas informavam o que
interessava às grandes e poderosas casas vinícolas e que Tignanello, Sassicaia,
Masseto, Ornellaia, Brunello Biondi Santi, Barolo Monfortino, Barbaresco Gaja,
Barbera Bricco del Uccellone e inúmeras outras etiquetas, renomadas e
badaladas, não valiam um quarto do que custavam.
Resultado: Nunca mais dei bolas nem acreditei em pontos, estrelas,
taças, ou outro símbolo qualquer.
Estava convencido era apenas uma questão $$$ e de “Quem dá mais”
Pagou? Tome 100 pontos,
3 bicchieri, 5 estrelas, melhor Cabernet Sauvignon do mundo etc. etc. etc.
Outra grande lição: constatei que havia, em todas as
grandes e renomadas vinícolas, a figura do diretor comercial, do gerente de
marketing e quase sempre a do enólogo famoso e endeusado.
Apesar da exemplar organização
e de dispendiosas equipes, as renomadas e importantes vinícolas dificilmente
produziam algo realmente excepcional.
Após rever meus conceitos e não mais acreditar nas revistas,
sommelier famosos, críticos badalados (não havia, ainda os famigerados
“influencers”) pontos, estrelas, taças, percebi que todas as vinícolas, com
diretor comercial, gerente de marketing e enólogo famoso, ofereciam apenas
vinhos de qualidade mediana, excessivamente caros, sempre tentando seduzir a
vaidade e os bolsos dos “Bebedores de Etiquetas”.
Continua
Bacco


