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terça-feira, 3 de janeiro de 2023

GHEMME

 

Feliz o tempo em que era possível comprar os grandes tintos piemonteses, Barbaresco e Barolo, por 20/30 Euros e os soberbos brancos da Borgonha por valores quase humanos.

Hoje, por menos de 40/50 Euros, encontrar um bom tinto, das “Langhe”, é quase um milagre e um milagre sempre mais improvável....



A produção total, duas DOCG piemontesas, se aproxima dos 17 milhões de garrafas sendo que 20% vai para a exportação (é bom lembrar que a Miolo, com seus 16 milhões de garrafas de quase vinho, produz quase a mesma quantidade dos 280 produtores de Barolo e Barbaresco).

Muita procura + baixa produção = preços em constante elevação.



B&B sempre procurou indicar bons vinhos sem que os bolsos dos enófilos fossem estuprados.

A “fuga” sistemática das etiquetas badaladas e premiadas, o desprezo pelos pontuadíssimos vinhos “parkerianos” e a busca incessante de produtos e produtores de garrafas de boa qualidade, a preços contidos, sempre foi nossa principal motivação.

Recentemente “revelamos” a Barbera “I Tre Vescovi”, mas em datas anteriores “descobrimos”, para nossos seguidores, o “Pelaverga”, Gamba di Pernice”, Freisa, “Grignolino”, “Susumaniello”, “Timorasso”, “Ruchè”, “Pigato” “Rosso di Cantavenna”, “Alta Langa”, “Verdicchio di Matelica”, “Lugana”, “Blanc de Morgex”, “Carema”, “Avanà”, “Piedirosso”, “Lacryma Crhisti” “Rossese Bianco” e muitos outros.



Quando os Barolo e Barbaresco começaram a pesar no bolso, para onde sugerimos correr para encontrar ótimos Nebbiolo?

Resposta: “Alto Piemonte”…. Leia-se Carema, Fara, Sizzano, Boca, Gattinara, Lessona e..... Ghemme.



Uma pequena pausa para esclarecimentos.

Não considero válido, nem correto, comentar, indicar e escrever sobre vinhos sem conhecer a região onde foram produzidos.

 Copiar artigos, ou indicar vinhos de importadoras, é fácil econômico (não precisa gastar para viajar), mas é indício de grossa picaretagem que, infelizmente, abunda e domina a crítica vinícola no Brasil



Os que ainda conseguem seguir B&B, devem ter percebido que raramente comento vinhos que não sejam italianos ou franceses da Borgonha e Champagne.

Raramente, ou quase nunca, me aventuro pelas vinhas de Portugal, Espanha, Austrália, África do Sul, Hungria, Estados Unidos, Chile, Argentina etc., mas quando o assunto é, por exemplo, “Ghemme” ....é comigo, mesmo!



Já não lembro quantas vezes visitei as cidades vinícolas (todas) do “Alto Piemonte”, não recordo quantas taças bebi de Carema, Gattinara, Lessona, Bramaterra, Boca, Fara, Sizzano, Ghemme, Erbaluce di Caluso, mas posso garantir que poucas, não foram e nem poucos foram os produtores que visitei.

Voltemos ao Ghemme.....



Vagando por entre as gôndolas, de um hipermercado em Chiavari, à procura de algumas garrafas de espumantes, para alegrar as festas de fim de ano, encontrei o Champagne 1er Cru “Michel de Belvas” por 24 Euros.

O preço convidativo despertou meu interesse e comprei 8 garrafas.

Ótimo Champagne, 100% Chardonnay, 37% mais barato do que o nacional “130 Blanc de Blanc” da Valduga, é piada pronta e consolida o bordão “...vida do enófilo brasileiro é uma merda”.



Champagne no carrinho, feliz com a compra …. De repente, na gôndola dos tintos, “Ghemme Santo Stefano 2018” Euro 12.



Continua

Bacco

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

A VINHA DE LEONARDO DA VINCI

 

Leio, que o magnata francês, Bernard Arnault, um dos homens mais ricos do planeta, que entre outras coisinhas é proprietário da Veuve Cilcquot, Krug, Moet & Chandon, Ruinart, Château D’Yquem, Bulgari, Louis Vuitton, Fendi, Tiffany etc. etc. etc., estendeu, mais uma vez, seus tentáculos e adquiriu, bem no centro de Milão, a secular “Casa degli Atellani”.



Alguém perguntará: “...e daí? Qual a importância de mais uma casa em Milão para um sujeito que possui uma fortuna de 140 bilhões de Euros? ”.

Importa e importa muito.

Um pouco de história.



A “Casa degli Atellani” foi construída no século XV a mando de Ludovico Maria Sforza, mais conhecido pela alcunha de Ludovico il Moro.

Ludovico il Moro foi duque e senhor absoluto de Milão de 1480 a 1499.

Em 1490, Ludovico il Moro, doa a magnífica residência a Giacometto di Lucia dell’Atella.

 Oito anos mais tarde, em 1498, Ludovico presenteia Leonardo Da Vinci com uma vinha, de 8.000 m², localizada nos fundos da Casa degli Atellani.



Ludovico il Moro, além do pagamento pactuado, brindou Leonardo Da Vinci com o precioso vinhedo a título de agradecimento após ele ter concluído, em 1498, mais uma de suas obras primas:      “A Última Ceia”.



Da Vinci se revela felicíssimo com o presente, mas, em 1500, com a derrota de Ludovico il Moro, que é deportado e encarcerado pelo rei da França, acha oportuno abandonar Milão.

O vinhedo é confiscado, assim como todas as recentes doações de Ludovico il Moro.

Em 1506 Da Vinci é convidado, por Carlos II d’Amboise, a retornar e concluir algumas obras que deixara incompletas, em Milão



Leonardo aceita o convite, mas com uma condição: A restituição, sem ônus algum, de sua vinha milanesa.

As condições são aceitas, o artista retorna à cidade, termina suas obras e deixa, definitivamente, Milão em 1513.

Leonardo viaja para Roma e depois para França onde morrerá em 1519.

O carinho que o gênio nutria pela vinha era notório e antes de viajar, Leonardo, confiou o vinhedo aos seus mais estreitos e fieis colaboradores com a promessa de mantê-lo em perfeitas condições.



Quatro séculos mais tarde, no início dos anos 1900, o arquiteto Luca Beltrami, importante estudioso de Leonardo Da Vinci, após incansáveis buscas, encontrou a localização exata da vinha, mas foi somente em 2015, depois de escavações e pesquisas, que os técnicos da Facoltà di Scienze Agrarie dell’Università di Milano”, encontram algumas raízes de parreiras no local.



 O DNA, das raízes encontradas, comprovou que a “Malvasia di Candia” havia sido a casta original da vinha de Leonardo.



No mesmo ano foram replantadas, no local, mudas de Malvasia di Candia e primeira vindima foi realizada em 2018.

 As uvas foram colhidas e depois vinificadas na “Cascina Alessia”.



 O vinho, da primeira safra, foi engarrafado em 330 decanters que serão leiloados em várias etapas.

  Os três primeiros decanters já foram leiloados e alcançaram o astronômico preço de 8.000- 10.000-10.000 Euros respectivamente.



Quem tiver Euros sobrando, quiser conhecer a “ Casa degli Atellani” e a “Malvasia di Milano” ou “Vino di Leonardo”, poderá visitar ou se hospedar na histórica residência.


Endereço:  Corso Magenta nº 65

Tel. 39- 373 5289922     

Bacco

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

ORGULHO INÚTIL

 

Leio um artigo em que o cronista comemora, com indisfarçável ufanismo, a produção de espumantes que, no Brasil, atingiu   “fantásticos” 30,5 milhões de litros.

O ufanismo, do colunista, é tão grande, impávido e colosso que, não contente em comunicar o “extraordinário” número alcançado na produção, vai além e informa que foram exportadas, em 2021, imponentes 935 mil garrafas de nosso soberbo espumante.



Soberbo, sim, pois, a revista comunica, com justificado e incontido orgulho, que nossas “bolhas” ganharam nada menos do que 300 medalhas em concursos espalhados pelo planeta.

Ao ler a matéria, até o fim, fiquei em dúvida se deveria sorrir, chorar ou vomitar, assim, para prevenir, tomei um Plasil.......



A matéria, em questão, saiu na revista da Embrapa

A Embrapa é uma empresa reconhecidamente séria e muito competente quando o assunto é agricultura, pecuária, mas quando se aventura no mundo do vinho faz rir, ou melhor, chorar.



Já é mais do que sabido e comprovado que as medalhas conquistadas, pelos espumante nacionais, em concursos fajutos, são religiosamente pagas e dever ser vistas como piadas requentadas, de mau gosto e beirando o ridículo.

Um dado, apenas um, desmonta a seriedade e validade destes concursos: A “Decanter World Wine Awards” distribui, todos os anos, quase 15.000 "merdalhas", aos participantes de seu certame.

No “campeonato” são premiados, além dos brasileiros, os famosíssimos vinhos do Azerbaijão, Bolívia, Chipre, Índia, Japão, Cazaquistão, Marrocos, México, Tailândia, Turquia etc...



O ufanismo da Embrapa, então, é ridículo, dispensável.

Se a história das “merdalhas” é risível, o orgulho dos números é patético.

Respirar fundo, estufar o peito ao declarar que Os espumantes brasileiros alcançaram impressionantes 30,3 milhões de litros comercializados no País..... ”  e “Os espumantes nacionais têm conquistado os consumidores mundiais. A exportação alcançou os 935 mil litros em 2021, 21% a mais do que em 2020”, é acreditar que o enófilo brasileiro é um perfeito imbecil.

A Embrapa não divulga que os 10 maiores importadores de espumantes nacionais são: 1º Paraguai, 2º Estados Unidos,         3º Japão, 4º China, 5º Reino Unido, 6º Cuba, 7º Chile, 8º Angola,
9º Uruguai, 10º Bolívia.



É bom lembrar que o Paraguai, sozinho, é responsável por 60% das exportações de vinhos brasileiros.

A revista, ao comemorar os fantásticos números, alcançados pelos nossos espumantes, esquece de comentar e comparar algumas cifras interessantes como e por exemplo, os da produção de Crémant, na França



Os espumante “Crémant”, molham as gargantas dos franceses com nada ridículas 84 milhões de unidades que, somadas aos 322 milhões das de Champagne, perfazem um total 406 milhões de borbulhantes garrafas gálicas.

Se os números franceses já pulverizam e envergonham os do Brasil, o que dizer dos italianos?

 Os viticultores da Bota inundaram o mercado, em 2021, com quase 1 bilhão (970 milhões) de garrafas.



 O ufanismo verde amarelo não sobreviveria e seria motivo de riso com o anúncio de que, somente nas festas deste final de ano, os italianos “estourarão” nada menos do que 95 milhões de garrafas de espumante.

Os italianos esvaziarão 100 vezes mais garrafas, em uma semana, do que o Brasil exportou em um ano.



As ridículas tentativas de divulgar notícias alvissareiras, para nos incutir orgulho e tentar nos iludir que somos uma potência vinícola, se esgarçam na primeira pesquisa “Google”.

Uma informação importante, esta sim, nunca divulgada: O Brasil produz alguns dos piores vinhos do planeta (Chapinha, Mioranza, Canção, Pérgola, Sangue de Boi, Góes, Catafesta, Cantina da Serra etc.) e também os mais caros for levado em conta o fator “custo qualidade”.

CAVE GEISSE 2013 BRUT


R$ 748,00

Esqueçamos os quase vinhos....melhor divulgar nossas verdadeiras excelências: Havaianas, Cachaça, Café, Cacau, Carne Bovina, Soja, Embraer, Frangos, Açúcar....



Dionísio

 

 

domingo, 18 de dezembro de 2022

RIGATONI ALLA CENERE

 


A razão e segredo, do sucesso da culinária italiana está na enorme variedade de escolha dos ingredientes, simplicidade e facilidade no preparo da maioria de suas receitas.

A pizza, o prato mais famoso e consumido do planeta, está presente em Napoli, Hanói, Denver Itumbiara, Dublin, Ushuaia, Santo Domingo: Em todas as cidades há uma “pizzeria”.




Se a pizza é bem preparada, ou menos, é outra história, mas com farinha de trigo, água, sal, azeite, tomate, queijo, é possível preparar um prato barato, simples, gostoso e nutriente.

Outro prato clássico, e barato (nem sempre) é a “macarronada” que os italianos teimam em chamar: “pasta”



Pasta al Sugo, Amatriciana, Ragù, Cacio e Pepe, Carbonara, Vongole, Frutti di Mare, Arrabiata, Puttanesca, Pesto....Ha uma infinidade de massas para todos os gostos e muitas vezes desgostos....

Desgosto, quando a massa é malcozida (vira papa), preparada horas antes e requentada antes de servir, repleta dos mais variados ingredientes (suruba), e outras barbaridades praticadas por cozinheiros que, de culinária italiana, não entende porcaria nenhuma.



Semana passada, no menu de um restaurante em Bossolasco, aldeia da Alta Langa (Piemonte), encontrei uma massa que não comia há muitos anos: “Penne alla Cenere” (Penne Cinzentas).

Fique tranquilo... não há cinzas na massa, mas são os ingredientes que doam, ao macarrão, uma cor quase cinzenta, daí o nome “cenere”.

Massa simples, de rápido preparo, de ótimo sabor e uma interessante alternativa à manjada “macarronada à bolonhesa”.

PASTA ALLA CÉNERE



Ingredientes para 4 pessoas: 300gm de macarrão curto (penne, fusilli, rigatoni, farfalle....)

300ml de creme de leite fresco

 200gm de queijo Gorgonzola ou similar (encontrar a Gorgonzola original não é tarefa fácil, utilizei, então, um queijo azul alemão, mas o Cruzilia também satisfaz)



200gm de azeitonas pretas

Sal, pimenta do reino.

Preparo:

O preparo é simples, rápido.

 Aconselho iniciar, então, colocando abundante água para ferver.

Enquanto a água atinge a ebulição, com uma faca pique finamente as azeitonas (se não tiver muita paciência utilize o mixar) e guarde.



Ao final da “operação azeitona” a água já deverá ter fervido .... Adicione um punhado de sal e junte o macarrão.

Enquanto a “pasta” cozinha “al dente” (a que utilizei previa 13 minutos de fervura) derrame em uma caçarola, ou frigideira de bordas altas, o creme de leite e o Gorgonzola em pequenos pedaços.



Acenda o fogo baixo, esquente o molho sem deixar alcançar a fervura, mexa, com uma colher, até o Gorgonzola derreter por completo (o molho deverá adquirir uma aparência e consistência cremosa) e junte as azeitonas picadas.



Quando o macarrão estiver “no ponto”, coe, jogue na panela, do creme de leite e Gorgonzola, misture bem e sirva.

 “Pasta alla Cenere” uma massa simples, mas sensacional.

Para beber?



Um Valpolicella , Bardolino, Grignolino ou um outro vinho “leve”

Bacco.