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sábado, 2 de maio de 2020

PULIGNY VÍRUS III


Sem grandes novidades (estou “preso” em Brasília) vou postando matérias “enche-linguiças” de minhas viagens pela Borgonha e opinando sobre alguns vinhos da região.

A primeira matéria quer demonstrar que, apesar de a cada dia mais  caros, nem todos vinhos da Borgonha são top.


Gostaria de começar os comentários com uma grande esperança e não menor decepção: Bruno Colin

Colin não era um dos meus “tradicionais” fornecedores, mas, através do Facebook, acompanhava muitas notícias de sua “domaine”: Localização dos vinhedos, trabalho nas parreiras, desde a poda até as colheitas, cuidados na vinificação etc.


 Bom divulgador, simpático e proprietário de invejáveis 1er crus, cativou minha atenção.

Em pouco tempo surgiu o desejo de conhecer seus produtos.

Chassagne-Montrachet é pequena (menos de 400 habitantes), 1/2 dúzia de ruas, duas praças, um parque infantil, dedicado à Michelle Bachelet, cujos antepassados eram viticultores em Chassagne, nenhum bar e uma impressionante lista de mais de 40 produtores de vinho.


É fácil perceber que é impossível comprar de todos viticultores e a seleção se faz necessária.

Quem quiser comprar apenas algumas unidades, de diversos produtores, o endereço certo é “Caveau de Chassagne”, todavia eu, que disponho de bastante tempo, prefiro me dirigir diretamente ao produtor e, se possível, negociar o preço.

Em 2015 resolvi, finalmente, conhecer a vinícola de Colin e negociar algumas garrafas.

Recepção muito gentil, degustação limitada, mas agradável e preços salgados.

 Negociar preços?  Nem pensar......

Apesar dos valores acima da média local (todos os vinhos custavam mais de 60 Euros), 12 garrafas de “La Truffière”, “La Boudriotte”, “Les Demoiselles” foram para o porta-malas e confraternizaram com os vinhos de Thomas Morey.

Como costumo, normalmente proceder, deixei descansar os vinhos do Bruno Colin, durante alguns meses, em minha “adega”.

Um belo dia resolvi que o descanso já fora suficiente e abri uma garrafa de “La Truffière” 2013.

“La Truffière” é um dos mais prestígios 1er crus de Puligny-Montrachet e os vinhos, desta pequena denominação, são conhecidos e por sua proverbial elegância, finesse e sua soberba estrutura.

O vinho que estava bebendo apresentava, sim, grande estrutura, mas cadê a finesse e elegância?

 As duas principais características haviam sido substituídas por um tsunami de manteiga e madeira.


Tive a impressão que a minha taça falava inglês e com sotaque californiano.

Tentei diversas vezes ser magnânimo, benevolente, menos cri-cri, mas infelizmente nunca pude encontrar, nos vinhos do Colin, a proverbial elegância, “finesse” e complexidade que caracterizam os grandes Chardonnay da região.

Muita madeira, manteiga em excesso, álcool muito presente e agressivo…deixei de comprar há seus vinhos há alguns anos; na região há dezenas de opções melhores e mais baratas

 Uma delas pode ser encontrada há pouco mais de 100 metros de distância da Domaine do Bruno Colin: Thomas Morey.

Bacco

quarta-feira, 22 de abril de 2020

PULIGNY - VÍRUS II


Depois de abrir, acidentalmente, uma garrafa de Puligny-Montrachet, quando pretendia desarrolhar uma de Cousiño Macul, meditei longamente e cheguei à conclusão que guardar grandes garrafas, postergando o momento “certo” de degustá-las, é uma idiotice.

A corona vírus, a idade e a saúde, são três “inimigos” que conspiram contra mim.

Depois de algumas reflexões me convenci que meu melhor amigo, no momento, é o saca-rolhas.

Resoluto e avassalador, nos últimos 25 dias, resolvi “atacar” minha adega como um enfurecido Átila das garrafas….Detonei tudo o que me aparecia pela frente.

As fotos não precisam de grandes explicações....

Descrever ou comentar garrafas de prestígio é uma tarefa fácil:  basta seguir o “Método Google” muito utilizado por nossos experts, sommeliers, formadores de opinião e paspalhos em geral

O mais interessante seria, talvez, resumir, através de algumas matérias, o caminho percorrido desde a compra até à taça.

Um pequeno resumo de viagens, impressões, descobertas, alegrias e decepções.

Decidi, então, apresentar uma pequena retrospectiva de minhas andanças e compras pela Borgonha, começando pela Côte D’Or

A minha Borgonha

Não posso afirmar, exatamente, quantas vezes visitei a Borgonha.

 Comecei, minhas três costumeiras “peregrinações” anuais, no início de 2000 e um rápido cálculo me faz crer que as visitas somam quase três dezenas.

Quando digo “Borgonha” não me limito às prestigiosas Côte de Nuits e Côte de Beaune, mas Beaujolais, Côte Chalonnaise, Chablis.....

Depois das primeiras e tímidas incursões comecei a “entender” o território.

 Mais confiante e com um francês menos pior, pude consolidar meus conhecimentos sem necessitar de guias, indicações, formadores de opinião e resolvi, então, focar minhas atenções na Côte D’Or.

Nos primeiros anos, os preços salgados, mas ainda “humanos”, não conseguiram arrefecer meu entusiasmo e a cada visita lotava meu porta-malas de 1er Crus e Grands Crus.

 Rotina de aquisições que continuou até 2015.


 Quase sempre as compras eram realizadas nas adegas dos meus “tradicionais” fornecedores: Jean Claude Bachelet, Sylvain Lagoureau, Paul Pernot, Bzikot, Thomas Morey, Bruno Colin, Lamy Pilot, Ramonet, Maurice Chapuis, Chevalier, Gérard Raphet a mais alguns ocasionais.

Montrachet, Bâtard-Montrachet, Chevalier-Montrachet, Criots-

Bâtard-Montrachet, Bienvenue-Bâtard-Montrachet, Corton-

Charlemagne, Les Dents de Chien, Les Embrazées, La Boudriotte, Les

 Champs Gain, Blanchot Dessus, Les Perrières, Les Pucelles, Le

 Cailleret, Sous le Puits, La Truffière, Blagny e muitas outras 

denominações, passaram pelas minhas taças deixando, quase sempre, 

ótimas recordações.

Quando afirmo “quase sempre” é preciso lembrar que nem todos os 

produtores da Borgonha vinificam com o mesmo cuidado e maestria.

Há, também, aqueles que, por alguma razão, se entregaram mais

 avidamente ao mercado “internacional” e aos modismos (leia-se: mercado 

americano)

Nos, de B&B, pagamos todos os vinhos que bebemos, não frequentamos bocas ou copos livres, não sobrevivemos nem dependemos da esmola de produtores e/ou importadores, não aceitamos convites, passagens aéreas, diárias de hotel etc. para visitar esta ou aquela vinícola e nossas mães já não dão a mínima aos xingamentos.

Uma total independência, então, nos permite descer a lenha, sem nenhum receio de perder alguma boquinha, em quem quer que seja e sempre damos nomes aos bois (ou serão, picaretas?)

Os “bois” do dia são: Bruno Colin e Thomas Morey ambos produtores em Chassagne-Montrachet.

Bacco

Continua....

sexta-feira, 3 de abril de 2020

PULIGNY-VÍRUS


 


A minha adega é pobre em litragem, mas rica em “linhagem”.
 

Menos de 20 garrafas repousam nas prateleiras empoeiradas, mas a pouca quantidade é compensada pela grande qualidade e não desprezível valor.
 

 Poucas unidades preciosas, raras e.…caras.
 

“Gamba di Pernice” Tenuta dei Fiori do meu amigo Valter Bosticardo,

“Corton Charlemagne” Grand Cru   Maurice Chapuis

 
“Puligny-Montrachet” 1er Cru “La Truffière” Thomas Morey,

Barbaresco “Martinenga” Marchesi di Gresy,

Barolo “Vigna Rionda” Tommaso Canale,

 Champagne “Le Mont Benoit” Grand Cru Emmanuel Brochet,


 Barolo “Monvigliero” de Gian Alessandria

 e mais algumas garrafas nada banais.

Antes de hibernar, tentando escapar das garras do vírus da moda, resolvi comprar algumas garrafas, mais em conta, para não dizimar minhas “preciosidades”.

Quatro unidades de um ótimo encruzado “Titular”, outras tantas de Cremant de Bourgogne e meia dúzia de Chardonnay chileno Tarapacá e Cousiño Macul, entraram para o estoque de meus vinhos do dia-dia.

A primeira “vítima”, da quarentena, o Cremant de Bourgogne, não decepcionou e, apesar de seus “modestos” R$ 89,00, pulveriza inúmeros e pretensiosos espumantes nacionais muito mais caros.

O Encruzado “Titular” foi a segunda garrafa a entrar nas taças do “isolamento forçado”.

O ótimo vinho português merece uma matéria exclusiva que publicarei em seguida.

A cada dois dias “vitimava” uma garrafa.

Uma triste madrugada chuvosa, após noite mal dormida, desejo de mais um pouco de cama e a demora em acordar completamente, entorpeceram meus sentidos.

Como se tudo não bastasse, cometi um erro fatal: Tive preguiça em acender a luz da adega.

Havia resolvido beber, naquele dia, o Chardonnay “Antiguas Reservas” da Cousiño Macul e, confiante, em minha memória, retirei o vinho chileno da prateleira e, como quase sempre faço, abri para verificar a rolha.

Quando derramei um pouco na taça estranhei a cor e resolvi verificar a safra.

Quase enfartei...Acabara de abrir um Puligny-Montrachet 1er Cru “La Truffière” 2013 de Thomas Morey.

 
Garrafa de aproximadamente R$ 1.500 (paguei 80 Euros no produtor) para beber sozinho em uma anônima e comuníssima 4ª feira.

Não vou elencar o tsunami de imprecações que raivosamente proferi, para não ofender os leitores mais refinados, mas posso garantir que foram muitas e longas....

Depois de algumas horas, já mais calmo e conformado, provei, quase com reverência, o “La Truffière”.

Conheço Thomas Morey há anos.

 
Morey é meu fornecedor de “Les Dents de Chien” um dos grandes 1er Cru de Chassagne-Montrachet, mas nunca havia provado seu Puligny-Montrachet “La Truffière”.

Continua

Bacco

sexta-feira, 20 de março de 2020

CORONA-VINHOS


B&B, enquanto perdurar a crise sanitária, deixará de publicar matérias.

Não faz sentido algum comentar vinhos, viagens, receitas, restaurantes etc. enquanto pessoas estão presas e entrincheiradas em suas casas.

Se o toque de recolher continuar, em pouco mais de uma semana, o estresse e a depressão tomarão conta de todos nós e nosso interesse por belas garrafas será substituído por uma sensação de medo, impotência e desânimo.

No atual contexto, não tenho a mínima inspiração para continuar, por enquanto, a escrever sobre vinhos, viagens etc.

Me sentiria ridículo.

Um abraço a todos e até breve (espero)

Bacco