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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

PINOT NOIR ITALIANO II




Já sabia, mas a conversa com Enzo De Gasperi reforçou a decisão de concentrar minhas atenções nos Pinot Noir produzidos no mais elogiado cru da região: Mazzon.




Mazzon, distrito de Egna, abriga, em seu território, 68 hectares de vinhas, 45 deles de Pinot Noir.

Dos filares, desta famosa colina, saem as melhores garrafas Pinot Noir da região e de toda a Itália e, antes de experimentar os vinhos, resolvi visitar, com calma, as colinas de Mazzon.

Para variar, manhã fria, gelada e ameaçando neve.

 O gelo, na estradinha que sobe a colina, fazia meu carro, com tração traseira, sambar em cada curva e durante alguns minutos e por alguns quilômetros me transformei em um daqueles malucos que disputam provas de rally.



As vinhas de Pinot Noir, em Mazzon, que estão plantadas há mais de cem anos, foram se aclimatando e se adaptando, aos poucos, revelando resultados surpreendentes.

Surpreendentes quando as comparações são feitas com os Pinot Noir da Nova Zelândia, Oregon, Alsácia, Alemanha etc., mas......

O problema, o "mas", ocorre sempre e quando a comparação é feita com os Pinot Noir da Borgonha.



Voltemos, por enquanto, ao Alto Adige.

Depois de percorrer as vinhas de Mazzon resolvi comprar algumas garrafas, de alguns produtores locais, para guardar e beber aos poucos e durante anos.

Se você quiser comprar meia garrafa de Pinot Noir em Mazzon, desista: Em Mazzon não há uma vinícola sequer.

Perto do meio dia voltei para almoçar no Johnson & Dipoli e conseguir mais informações.

"Você pode tentar visitar a Hofstatter, a Elena Walch em Termeno, mas...... diga uma coisa: você tem medo de cara feia? Tem seguro de vida?"


Os meus "não" antecederam a explicação.

"O pessoal de Termeno, não é exatamente gentil com quem não é "alemão" e demonstra antipatia, pelos italianos, sem nenhum constrangimento".

Alertado, mas incrédulo, no meio da tarde rumei para Termeno para comprar algumas garrafas do famoso "Pinot Noir Barthenau Vigna S. Urbano" de Joseph Hofstatter e do "Pinot Nero Ludwig" da Elena Walch.

Fui recebido, na J. Hofstatter, por uma bela senhorita, loira, alta e amável como uma jararaca do rabo branco.


Enquanto acompanhava, minha ondulante recepcionista, pensei nos avisos de Enzo De Gasperi: Perfeitos!

Comprei três garrafas de "Barthenau Vigna S. Urbano" por 40 Euros cada e saí da vinícola antes de ser picado pela loira.


A experiência com a J. Hofstatter diminuiu muito meu desejo de continuar as visitas nas vinícolas de Termeno e resolvi adquirir duas garrafas do "Pinot Nero Ludwing", da Elena Walch, (27 Euros) em uma enoteca local.




De volta, à segurança de Egna, comentei com Enzo, durante o jantar, a recepção "calorosa" da loira na Hofstatter.

Muitas risadas, muitos vinhos, calorosos abraços e a promessa de retorno, em breve.

Antes de deixar o restaurante, Enzo me presenteou com uma garrafa de Pinot Noir "Mazzon" da vinícola Bruno Gottardi.



No dia seguinte, durante a viagem de regresso, comecei a organizar, em minha mente, o resultado da viagem e classificar os vinhos provados.

Mais uma vez o Pinot Noir de Franz Hass não correspondeu à fama.

Seu Pinot Noir "top", o "Schweizer", como todos os outros da região, tem belíssimos aromas, mas na boca deixa a desejar.



Hass , mais do que viticultor, é um grande marqueteiro que sabe vender, muito bem, seus vinhos.

O Pinot Noir de Elena Walch é o mais modesto de todos e também o mais barato.

Seu "Ludwig" é interessante, bons aroma, fácil de beber, mas é apenas mais um na "multidão".

É um vinho que beberia novamente, se alguém me oferecesse, mas não compraria... Há coisas melhore e bem mais baratas.

O vinho, da jararaca do rabo branco, Vigna S. Urbano disputa com o "Mazzon" da Bruno Gottardo, minha preferência.

Bons Pinot Noir!

 Menos previsíveis, complexos, e mais próximos aos da Borgonha, mas, sempre o famoso "mas", pelo preço encontro garrafas muito melhores na Côte D'Or.

Minhas impressões finais:

Os Pinot Noir do Alto Adige se mostram interessantes, alguns são ótimos vinhos tintos, mas nunca grandes Pinot Noir.

Falta-lhes força, originalidade..... são previsíveis e redundantes .

Tenho a sensação que sempre falta alguma coisa.

A Pinot Noir é a casta mais complexa e de mais difícil adaptação do planeta (Nebbiolo, idem...) e na Borgonha é cultivada há mais de mil anos.


 É lá seu verdadeiro habitat.



É lá que lentamente se adaptou e se exprime em sua real e total grandeza.
Os Pinot Noir de Mazzon, são bons, estão no bom caminho e, possivelmente, em 2356 poderão ser confundidos com o Chassagne Montrachet Premier Cru "Morgeot".

A pergunta que continua martelando em minha cabeça: Com tantas e grandes castas, que a Itália possui, porque gastar tempo, energia e teimar, quase como masoquistas, com Pinot Noir, Riesling, Chardonnay etc.?

Não vejo razão, não vejo futuro.

Alguém conhece o azeite da Borgonha?

Pois é....

Última observação.

 Há apenas um lugar, na terra, onde em menos de 5 anos aconteceu o milagre do Pinot Noir perfeito: Encruzilhada do Sul.

Um misterioso deus das uvas resolveu atender as preces de nosso mais intrépido viticultor e transformou um anônimo pedaço do Rio Grande do Sul em uma nova Borgonha.



Ali e somente ali, o milagre do Pinot Noir perfeito, aconteceu.

 O deus das uvas, com a ajuda de dois anjinhos das vinhas, Didu Bilu Tetéia e Sir Edward Motta, fez surgir um dos melhores Pinot Noir do mundo.



É o Rio Grande do Sul, humilhando, mais uma vez, os vignerons da Côte de Nuits (já havia acontecido, antes, com o espumante...)



Bacco

domingo, 1 de novembro de 2015

PINOT NOIR X COCAÍNA



Esta é minha matéria sobre o Pinot Noir nacional


Para escrevê-la precisei reforçar meu "saco".


 Tenho um saco muito elástico e quando preciso completar uma pesquisa complicada sempre peço sua ajuda.




Quando tomei conhecimento do preço, que o ex fotógrafo e atual malandro das uvas, cobra por uma garrafa de Fúlvia Pinot Noir, decidi verificar se seu lucro é maior do que o dos narcotraficantes.

 Para poder comparar, as atividades, deveria descobrir quanto custa produzir um quilo de cocaína e qual é lucro que se atinge com sua comercialização.

Não deu outra.... Em poucas horas consegui os números.

A indústria do narcotráfico movimenta algo entre 750 milhões e 1 trilhão de U$ por ano.


Muitos afirmam que nenhum setor industrial, no mundo, consegue lucros tão significativos quanto o da produção da droga.

O lucro fantástico, desta atividade, é explicado pela grande diferença entre o preço da matéria prima (folhas de coca), que custa U$ 2,5 o quilo na Bolívia ou Colômbia e a cocaína pronta, vendida por U$ 3.000 na Colômbia, U$ 10.000 em São Paulo e U$ 40.000 no mercado norte americano.



Os pesquisadores afirmam que é o negócio mais rentável do mundo com lucros que facilmente ultrapassam, já na origem, os 1000%.
Discordo totalmente.

O NEGÓCIO MAIS LUCRATIVO DO MUNDO: PRODUZIR PINOT NOIR NO RIO GRANDE DO SUL!

Acompanhem a pesquisa e raciocínio:

Para produzir 1 quilo de cocaína pura são necessários 100 kg de folhas de coca.



1 KG de folhas = U$ 2,5 X 100 KG = U$ 250.

Preço médio/quilo de cocaína na Colômbia = U$ 3.000.

Lucro = 1.200%




PINOT NOIR

O nosso amigo, ex fotografo e atual hipnotizador de incautos enófilos, vende uma garrafa de Pinot Noir Fúlvia por míseros R$ 220.

Fulvia Pinot Noir Garagem 2012
(GUARDA)
R$ 220,00 unit.

O preço da uva Pinot Noir, para a safra 2014/2015 foi estabelecido em R$ 1,60 (preço médio)

Para produzir uma garrafa de vinho 1 quilo de uva é suficiente.

Vamos aos números.

1 kg de uva Pinot Noir = R$ 1,60

1 garrafa de Pinot Noir Fúlvia = R$ 220.

Lucro = 1.370%


Alguém poderá argumentar que minha comparação é simplista, que o vinho, por ser legal, paga impostos, que os custos de produção são maiores etc.
Posso até concordar, mas produzir cocaína, por se ilegal, é uma atividade de alto risco e dá cadeia.

Quando os narcotraficantes tiverem acesso a esta matéria e se forem inteligentes, largarão a produção de droga, comprarão terras em Encruzilhadas do Sul e plantarão vinhas de Pinot Noir.

A nova atividade, legal e sem riscos, lhes proporcionará maiores lucros e uma vida mais tranqüila.


Como fazer para vender a droga (ops) o Pinot Noir?

Bastará contratar meia dúzia de bobalhões e suas canetas e.... Voilà: idiotas farão fila para comparar  uma garrafa de Pinot Noir por R$ 220.



Dionísio

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

ANTICA MERIDIANA RELAIS ART



O Piemonte, no outono, adquire matizes raros e explode em cores impressionantes.






Aproveitando o convite de Massimo Martinelli, para secar algumas garrafas, no domingo, exatamente ao meio dia estacionava o carro no quintal de sua residência.


Já havia brindado meus olhos com panoramas incríveis pela sinuosa estrada de Montezemolo, mas o agro turismo, "ANTICA MERIDIANA RELAIS ART", de Angioletta e Massimo Martinelli, em Vicoforte, é hors concours.


Não Conheço nenhuma paisagem mais bela e sugestiva do que aquela que se descortina da "ANTICA MERIDIANA RELAIS ART".



Com os Alpes ao fundo, cercados pelas vinhas de Dolcetto da propriedade, o "ANTICA MERIDIANA RELAIS ART" merece uma visita (várias, se possível...)



Enquanto você não for até lá, fisicamente, curta algumas fotos do local


Via Montex, 1, 12080 Vicoforte CN
Telefone:0174 563364


Bacco

terça-feira, 27 de outubro de 2015

PINOT NOIR ITALIANO I



Houve um tempo ,quando comecei a escrever sobre vinhos, em que acreditei poder elevar o nível da crítica brasileira relatando minhas experiências.



Hoje me sinto um abobalhado e maltrapilho Don Quixote das taças tupiniquins.

A crítica nacional continua amadora, ridícula e dominada por um pequeno exército de aproveitadores e frequentadores de bocas-livres patrocinadas por vinícolas e importadoras.

Não conheço críticos piores e despreparados do que os brasileiros.
Exagero?

Imagine, por um segundo, o Edward "I Don't Speak English" Motta crítico de vinhos de uma das mais importantes revistas européias.


Imagine, sem morrer de tanto rir, o bufão Didu Bilu Tetéia conseguir patrocínio, de alguma vinícola européia, para comentar vinhos em seu "Blog-Blefe".

Impossível, inimaginável?



Não, não é!

 Um, dos "expoentes" de nossa critica vinícola, já navegou (ainda navega?) pelas paginas da "VEJA".

  O outro ganha dezenas de gravatinhas borboleta para elogiar qualquer vinho importado pela Expand.

Os patéticos personagens, mencionados, são apenas dois palhaços do imenso circo da crítica vinícola brasileira.


Voltemos ao vinho e à seriedade.

Como disse, eu acreditava na necessidade de levar aos enófilos brasileiros informações corretas, honestas e que somente visitando as regiões vinícolas seria possível escrever e comentar, com segurança, os vinhos lá produzidos.

Piemonte, Toscana, Veneto, Marche, Liguria, Emilia Romagna, Lombardia, Úmbria, Friuli-Venezia Giulia, sem falar da Borgonha, Alsácia etc. foram, várias vezes, minhas metas vinícolas preferidas.
Em minhas "vagabundagens etílicas" nunca pensara, todavia, no Trentino-Alto Adige.

 Comecei a me interessar, por aquela região, quando os comentários elogiando os Pinot Noir produzidos na província de Bolzano, se tornaram mais constantes, insistentes.



"Ótimos, Maravilhosos, Grandes"! Eram alguns dos adjetivos mais comuns que chegavam aos meus ouvidos quando alguém comentava os Pinot Noir produzidos na belíssima região italiana.

Para me familiarizar e tirar dúvidas provei alguns.

 Gostei, mas não me entusiasmei e fui deixando para segundo plano o mais badalado Pinot Noir italiano.

Um belo dia, visitando a linda Soave, à procura de algumas boas garrafas de Garganega, pensei: "Em uma hora e meia posso alcançar Egna e experimentar, na fonte, os renomados Pinot Noir "altoatesini".



Sem mais delongas peguei a autoestrada e antes do jantar já estava hospedado no bom "Hotel Andreas Hofer" em Egna.

Egna (Neumarkt em alemão, primeira língua local), pouco mais de 5.000 habitantes, limpa, ordenada, charmosa, tranquila.

O que mais?

Ah, sim.... Fontes de água potável em todos os cantos e belos pórticos medievais.


 Os pórticos, naquela noite de intensa neblina, luz difusa e de impressionante silêncio, pareciam cenário perfeito para um filme de terror.
Ia esquecendo... Um frio paralisante.

Caminhando rapidamente, para não congelar, encontrei, bem no centro da vila, um restaurante (já escrevi sobre o assunto) de se tirar o chapéu: "Jonhson & Dipoli".


O local é tocado pelo incrível Enzo De Gasperi.

 Imagine uma vila medieval, você caminhando sob pórticos assimétricos e mal iluminados, uma assustadora e espessa neblina, nem uma viva alma por perto e apenas o som de seus passos e de sua respiração....

Se não fosse ateu, acreditasse mortos-vivos, fantasmas ou vampiros, teria voltado apavorado para o hotel.


Quando já não esperava nada de especial, a não ser uma prosaica pizzeria, bem no final dos pórticos um belo e acolhedor restaurante parecia me convidar. 

Entrei.



Belo bar, pequenas salas minuciosamente decoradas, ambiente "vintage", muito calor, simpatia e uma carta de vinhos impressionante.

 Grande variedade (Itália e França em primeiro lugar), etiquetas prestigiosas, garrafas raras e caras, safras antigas, que Enzo, o proprietário, sem cerimônia, abria e servia em taças de finíssimo cristal.



Não pense no Real, esqueça o câmbio por uma noite e deixe Enzo seduzir seu paladar e..... estuprar seu cartão.

Sim o Jonhson & Dipoli é caro , mas creia , vale a pena! 

Antes do jantar resolvi beber um espumante.

Consultei a lista do quadro-negro e escolhi, sem muita delonga, um "terceiro melhor espumante do mundo" (o segundo é o gaucho) e pedi uma taça de "Haderburg Pas Dosè".



"Ótimo espumante! Um dos melhores da Itália".

Meu comentário provocou risos e Enzo replicou "Ainda bem que você elogiou..... Olha o tamanho do produtor".

Olhei para o "alemão" que estava bebericando em uma mesa próxima e tive que concordar: O homem, gigantesco, tinha mãos que pareciam duas retro escavadeiras....  

Cin-Cin, bom papo, algumas risadas, várias dicas e. perdi a conta de quantas taças inclusive de Pinot Noir.

Depois do jantar, com todas as indicações, que necessitava para o dia seguinte e "protegido" pelas generosas taças de vinho que multiplicaram minha valentia, enfrentei, claudicante, mas valoroso, frio , neblina , fantasma, vampiros e outros perigos.




Em poucos minutos cheguei, são e salvo, ao Hotel.

Bacco

Próxima matéria: As colinas do Pinot Noir.