sábado, 22 de agosto de 2026

SALMÃO COM MANGA

 


Santa Margherita Ligure, pequena localidade, de 9.000 e poucos habitantes, um dos endereços mais badalados, caros e sofisticado da Riviera Lígure, mais 50 restaurantes, pizzarias, trattorie, osterie etc. deveria ser um paraíso gastronômico, no entanto, classificá-la como purgatório da boa mesa já seria um elogio exagerado.



 As cozinhas, banais e pouco inventivas, de quase todos os restaurantes, não buscam e não demostram nenhum desejo ou coragem de mudar, tentar algo diferente, inovador.





Acomodados e conformados, os restaurantes da cidade continuam com os mesmos cardápios há décadas: Fritto Misto (peixes e molusco fritos), Trenette al Pesto (macarrão com molho de manjericão), Spaghetti alle Vongole (macarrão com marisco) Pesce alla Ligure (Peixe à moda), Acciughe impanate (anchovas à milanesa) etc. etc. 



Um dos poucos restaurantes que merecia ser destacado era o “L’Approdo”, mas infelizmente o chef, Felice Bianchi, sofreu um AVC e os gourmets, de Santa Margherita, não mais apreciarão seu famoso linguado ao Champagne e linguado ao molho de canela.

https://baccoebocca-us.blogspot.com/2022/01/linguado-ao-champagne.html

Conformado, com o deserto gastronômica da maioria, meus endereços prediletos continuam sendo o “Santa Lucia”, “Il Patio”, “Da Alfredo” e “La Nuova Cesarina” Restaurantes com bons preços, pratos bem feitos, bom atendimento e razoáveis cartas de vinho ....

Em um dia chuvoso, ventoso e frio, resolvi almoçar no “Il Patio”…fechado



Imitando um Gene Kelly maranhense e cantando “Singing in The Rain” percorri outros 400 metros para alcançar o, também fechado, “Santa Lucia”.

Antes de voltar à chuva, imitando mais uma vez   Gene Kelly e pegar uma pneumonia, resolvi telefonar para o “Da Alfredo”......fechado, também.

Contiguo, ao “Santa Lucia”, há o restaurante “Levante” que jamais frequentei.



Quase sempre vazio, preços salgadinhos, decoração triste e ambiente melancólico, nunca me estimularam a provar sua cozinha, mas..... Estava aberto

O insistente temporal, o estômago roncando e um prato, do menu fixado na parede, me convenceram que chegara a hora de conhecer o “Levante”

O prato sedutor? “Salmone al Mango” (salmão ao molho de manga)

Deveria ter continuado a caminhar na chuva até pegar uma pneumonia..... O “Salmone al Mango” foi um dos piores pratos que já provei

Um horror!

O peixe, até razoável, mas para realizar o “molho de manga” o cozinheiro (será?), simplesmente, abriu uma latinha de suco da fruta e derramou o conteúdo sobre o salmão.

Um conselho: Nunca “sente” no “Levante”......



A ideia da manga com salmão, todavia, não me saia da cabeça e no dia seguinte resolvi realizar o prato.

Tentei três vezes e finalmente consegui obter o sabor que me convenceu.

Eis a receita para 4 pessoas

INGREDIENTES

4 pedaços de salmão, polpa de 3 mangas bem maduras (usei a Palmer), 3 colheres de mostarda de Dijon, com mel, (se não encontrar a mostarda com mel adicione ½ colher de mel à mostarda), 





1/2copo de creme de leite fresco, uma colher de casca de limão, algumas gotas do mesmo limão (6/8) uma xicara (café) de vinho branco seco, sal a gosto.

PREPARO

Em uma frigideira derreta três colheres de manteiga, salgue e frite os filés de salmão (+ou- 4 minutos cada lado).



Enquanto o salmão frita, junte a polpa de maga e todos os outros ingredientes em uma pequena panela e bata com o mixer até obter um creme sedoso.

Na hora de servir derrame um pouco do creme de manga em um prato e coloque o salmão sobre a salsa.





Para beber?

 Um bom espumante ou um Chardonnay chileno.

Bacco

PS. As quantidades sugeridas, na receita do creme de manga, não são “intocáveis”.

Se alguém gosta mais salgado, adicione sal.

Prefere mais picante? Aumente a mostarda

Mais doce? Mais mel e.....por aí vai.

Enquanto se prepara, o molho, é sempre bom provar e, se for preciso, corrigir.



Lembre-se: Receitas não necessitam balança de alta precisão, basta ter bom senso e bom gosto.

Mai uma coisa: Se não gostar de fritura, o salmão cozido no vapor é perfeito, também

sábado, 8 de agosto de 2026

FREISA DI CHIERI

 


Há vários anos percebo claros sinais de que o vinho avança, irracionalmente, para uma longa e severa crise: é um jogo de cartas marcadas e sem um final feliz.

Minha percepção foi crescendo na exata medida em que o segmento, mais e mais, apostava no “Vinho Moda”, “Vinho Status”

As garrafas deixavam de frequentar as mesas das famílias, das “trattorie” e dos botecos plebeus, para triunfarem nos brilhantes e cristalinas taças dos restaurares e bares estrelados.



Que algo estava errado e que a conta um dia chegaria, já sabia, mas os números, revelados por Bacco, em suas últimas matérias, me surpreenderam: O vinho está, realmente, correndo ladeira abaixo e.....sai de baixo!

Devo, todavia, confessar que, para mim, pouco ou quase nada vai mudar, pois há muitos anos deixei de acreditar que etiquetas badaladas e altos preços fossem sinônimos de insuperável qualidade.

Nenhum vinho deveria custar mais do que 50 Euros.



Antes que os eno-patriotas e eno-palermas, fãs incondicionais de etiquetas famosas, enviem comentários, raivosos e ofensivos, contra minha ascendente feminina, informo que no final dos anos 1970 uma garrafa de “Barolo Riserva Monfortino”, da premiada vinícola, Giacomo Conterno, custava 5.000 Liras que correspondem, aproximadamente, a 3 Euros nos dias atuais

 Informo, ainda, que o mesmíssimo “Barolo Monfortino Riserva”, continua sendo vinificado com uvas colhidas nas colinas de Serralunga D’Alba, na mesmíssima vinha “Cantina Francia”, engarrafado na mesmíssima adega da mesmíssima família Conterno, mas hoje custa 900/1.200 Euros.



Monfortino Riserva Giacomo Conterno 2015

1300,00




Taí, uma das razões que afastaram as garrafas das mesas das famílias, dos bares e dos restaurantes em todos os cantos do mundo: O vinho se transformou em artigo de luxo e luxo, mesmo falsificado, é caro....

Depois de anos e anos percorrendo a trilha do insano e irreal “eno-patetismo-vinícola”, finalmente, me libertei dos sommeliers, enólogos, influenciadores, críticos, modismos, tudo e todos que contribuíram para a mitificação do vinho, assim, hoje, minhas garrafas mais caras muito raramente ultrapassam os 50 Euros.



Adeus às inúteis, dispensáveis e caríssimas garrafas de “vinho-modismo”.... Bem-vindos, finalmente e ainda bem, “vinhos-pobres”: Grignolino, Schiava, Pelaverga, Coda di Volpe, Albarossa, Incrocio Manzoni, Bardolino, Lambrusco, Soave, Freisa etc. etc. etc.



“E por falar em saudade onde anda você…Freisa di Chieri? ”

Serpenteando pelas gôndolas, de um supermercado, à procura de algumas garrafas para reabastecer minha “maranhense” adega, meus olhos encontraram, quase escondidas, entre outras etiquetas mais importantes, “ampolas” de “Feisa di Chieri Frizzante” por 8,70 Euros”.



Pensei: “Freisa di Chieri, há quanto tempo a gente não se vê.....”

Sem titubear e com um pueril sentimento de alegria, agarrei três garrafas e as coloquei no carrinho.

Com o intenso calor, que há semanas castiga o continente europeu e quase derrete o asfalto das ruas, somente “sommeliers de bicicleta” ou outros palermas do mesmo naipe (há inúmeros...) beberiam um vinho tinto muito alcoólico e mastigável.

Um bom branco, um belo espumante, ou um tinto leve, após rápida passagem pelo refrigerador, refrescam e alegram até os mais “fervente” coração.



Chieri, pequena, cidade distante apenas 20 km da belíssima Torino, é uma válida opção para o turista que já não aguenta as multidões que, parecendo hunos, invadem as mais badaladas cidades turísticas da Europa.

O belo centro medieval, a majestosa catedral, o gueto hebraico e o museu da indústria têxtil, são atrativos que a cidade oferece e merecem ser visitados.

Para os enófilos, todavia, nada é mais a “atraente” do que um ótimo vinho produzido na região: “Freisa di Chieri”.



As vinhas de Freisa aparecem nas colinas de Chieri desde a era romana, mas somente na idade média (1517) o vinho é devidamente reconhecido e documentado.

Hoje a área cultivada é de aproximadamente 90 hectares e 9 produtores engarrafam três tipologias de Freisa: Seco, Frisante e Espumante.

Minha preferida, desde sempre é a versão frisante.



A bela cor rubi, a espuma fina, quase alegre, os perfumes delicados, o paladar harmônico e elegante, do “Freisa Di Chieri 2024”, da vinícola Balbiano, doam ao enófilo, que quer fugir das mesmices dos “vinhos moda”, uma agradável e alegre companhia para os aperitivos nos finais de tarde, mesmo nos dias de intenso calor.



Um belíssimo vinho por menos de 10 Euros que recomendo com prazer e entusiasmo

 

Dionísio